Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > DIÁRIO DE NOTÍCIAS

José Carlos Abrantes

23/01/2006 na edição 365

‘Morte de jovem em Belém podia ter sido evitada, foi o título da notícia publicada pelo DN, em 12 de Janeiro, na secção Cidades. Um jovem de 19 anos fora empurrado para a linha férrea, tendo morte imediata. Quem cometeu o crime? Um homem com 33 anos foi apontado como suspeito e preso pela polícia.

O editor João Pedro Fonseca defendeu os termos da narrativa, que mencionava a nacionalidade do suspeito ‘Era relevante para a notícia explicar que este sujeito estava em Portugal há pouco tempo, desde Dezembro, que vivera noutro país europeu, e que era de nacionalidade cabo-verdiana. Até para efeitos legais, um indivíduo de nacionalidade portuguesa condenado é preso em Portugal, um sujeito de nacionalidade cabo-verdiana pode, em determinadas situações, ser repatriado. (…) Omitir a nacionalidade em razão de quê? Se tivesse mais pormenores sobre o perfil do suspeito, mais elementos teria utilizado. O leitor quer saber quem é essa pessoa que faz essa coisa horrível que é empurrar pessoas para a linha! O leitor quer saber e o jornalista deve procurar todas essas informações.’ (1)

Esta opinião será consensual? Rui Marques, alto-comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, defende o oposto ‘Quando não estamos perante um crime de motivação étnica, religiosa ou nacional, constitui, a meu ver, um erro jornalístico atribuir relevância no enquadramento da notícia à etnia, religião ou nacionalidade do autor (porque não a cor dos olhos, a altura, o signo, a rua onde mora, ou um conjunto de outras irrelevâncias?). Tanto mais que tal só é concretizado quando este pertence a uma minoria visível e nunca é referido quando se trata de um membro da maioria que é sempre ‘transparente’ na notícia. (…) Na notícia referida, em nada transparece no texto a evidência de uma motivação étnica ou nacional para a autoria do crime. Avança-se com a possibilidade de se tratar de um acto cometido no quadro de uma doença mental. Pergunta-se então o porquê da identificação da nacionalidade.’ (2)

Esta notícia mostra como os crimes são objecto natural da atenção dos media. Alguns estudos apontam para o facto de os cidadãos, que frequentemente não tiveram qualquer experiência pessoal de risco, se sentirem inseguros e atemorizados por saberem pelos media de um crime que pode criar pânico social. Foi o que aconteceu no caso do assalto da CREL, em 2000, ou no falso arrastão de Carcavelos, em 2005. No caso em análise, o clima foi diferente, pois a excepcionalidade deste acto não foi apontada pelos media, nem lida pelos cidadãos, como um caso a temer repetições. Um dos elementos questionáveis na notícia é o de a nacionalidade do suspeito ser referida. Poder-se-á dizer, como o editor, que a nacionalidade contextualiza o acto. Mas o desenrolar da notícia aponta para um distúrbio mental como elemento explicativo mais pertinente. Se a nacionalidade é um elemento relevante para a notícia, então esta deveria ter explicado como esse elemento fortuito influiu no crime. Não foi o caso. Aliás, na peça há uma frase incomodativa, pelo tom coloquial que adopta ‘O cabo-verdiano falava alto e explicava até que o incidente poderia ter sido mais grave.’ Será que este estilo solto não mostra como está desadequada a utilização da nacionalidade? O alto-comissário para a Imigração observa ‘Seria escrito, caso se tratasse de um português O português falava alto e explicava que o incidente poderia ter sido mais grave?’ Duvida-se que tal acontecesse. Parece-me que são adoptados dois pesos e duas medidas. Temos de pensar se isso não reforça preconceitos contra os estrangeiros, nomeadamente a comunidade cabo-verdiana, que no seu conjunto contribui com o seu trabalho para o desenvolvimento do País e constrói a sua vida sem ter problemas com a lei.

É certo que o DN deu pouca relevância à nacionalidade. Mas jornalistas e editores terão sempre que ponderar a necessidade e os efeitos dos elementos a revelar, mesmo que as fontes os veiculem e alguns leitores apreciem. Um jornal de referência, como o DN, faz–se de grandes mudanças como de pequenos detalhes.

(1) O texto do editor é citado num breve excerto.

(2) O texto integral de Rui Marques pode ser consultado em homomigratius.blogspot.com.’

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