Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

José Queirós

22/03/2011 na edição 634

‘Um dos desafios que se colocam a um jornalismo exigente é o de converter num discurso acessível à generalidade dos leitores a linguagem técnica e os conceitos científicos por vezes indispensáveis à correcta descrição e explicação do que é noticiado. E fazê-lo, o que nem sempre é fácil, sem que a simplificação operada para transmitir ideias complexas conduza à sua deturpação.

Os jornalistas especializados em diversas áreas temáticas sabem que essa é uma parte essencial da sua missão de serviço público, que exige uma competência própria para descodificar fenómenos e processos cuja compreensão é do interesse geral, mas passa pelo recurso a conhecimentos que implicam terminologias específicas ou se ocultam, por vezes, no jargão profissional. Nessa função mediadora, o que distingue o jornalismo de qualidade é a capacidade de informar com clareza, sem dispensar o rigor.

A especialização temática dos jornalistas contribui para favorecer o rigor, mas é, frequentemente, um obstáculo à clareza. Veja-se por exemplo como, neste período em que as notícias e análises de tema económico e financeiro tendem a interessar a um círculo mais alargado de leitores, a sua inteligibilidade depara tantas vezes com o obstáculo da terminologia (o famigerado ‘economês’) ou da não clarificação de certos conceitos mais complexos.

Com o jornalismo não especializado tende a passar-se o contrário: o redactor obrigado a recorrer à informação científica ou técnica necessária para explicar ou enquadrar um qualquer acontecimento procura ser facilmente compreendido por todos os leitores, e a intenção de se exprimir de forma clara e sugestiva pode redundar em menor atenção ao rigor informativo e conduzir ao erro. Para o evitar, não basta por vezes o cumprimento desse mandamento profissional não escrito que deve levar o jornalista, mesmo em luta contra o tempo, a interrogar-se sobre a pertinência de tudo o que escreve, em especial quando se trata de matéria com que esteja menos familiarizado. É preciso que na estrutura editorial prevaleça o mesmo espírito, mobilizando quando necessário os conhecimentos ou meios de acesso ao conhecimento que devem existir numa redacção.

Os erros de que falo podem ser muito relevantes quando estão em causa questões de segurança pública ou de percepção de riscos pelas populações. É assim no caso de que hoje me ocupo. Há precisamente um mês o PÚBLICO deu destaque, nas páginas de abertura, a um trabalho evocativo das catastróficas enxurradas que um ano antes deixaram na Madeira um rasto de mortes e destruição. Em várias peças, assinadas pelo jornalista Tolentino de Nóbrega, fazia-se o balanço da reconstrução, analisavam-se as causas que terão ampliado as consequências do desastre (com destaque para os erros nas políticas de ordenamento territorial), escrutinava-se a acção posterior do governo regional e de outras autoridades públicas e, sobretudo, alertava-se, com a contribuição de vários peritos, para falhas no planeamento destinado a evitar ou atenuar tragédias semelhantes. No conjunto, um trabalho oportuno e informado, que permitiu ao jornal afirmar, em editorial, que ‘a Madeira e o seu líder aprenderam pouco com a tragédia de 20 de Fevereiro de 2010’.

Como não há prevenção eficaz que possa dispensar estudos sérios de avaliação de riscos, o jornalista citou as conclusões e recomendações do Estudo de Avaliação do Risco de Aluviões na Ilha da Madeira, elaborado para o governo do Funchal por uma equipa interdisciplinar coordenada por peritos do Instituto Superior Técnico (IST), da Universidade da Madeira e do Laboratório Regional de Engenharia Civil. E dele colheu a ideia com que abriu uma das peças do destaque: ‘Um evento hidrológico com as características do 20 de Fevereiro só acontece de 100 em 100 anos’. Ou ‘de mil em mil anos se contadas seis a 12 horas [de chuva]’.

Esse ponto foi naturalmente destacado, como explica o jornalista, para que ‘todos tenham uma melhor percepção do risco e se envolvam na protecção das aluviões’. Sucede que o que se diz no relatório, e é correctamente citado mais adiante no seu texto, é que a chuva de 20 de Fevereiro, no período crítico, ‘correspondeu a um período de retorno da ordem de 80 a 100 anos, para a duração de uma hora, e a um período de retorno superior, da ordem de 1000 anos, para a duração de 6 a 12 horas’. O que está longe de ser a mesma coisa, podendo uma interpretação errónea desta afirmação prejudicar precisamente a correcta percepção dos riscos em causa.

Assim o entendeu António Betâmio de Almeida, professor do IST e coordenador do estudo referido, que enviou de imediato ao PÚBLICO uma nota em que alertava que a expressão ‘a chuva de 2010 só acontece de 100 em 100 anos’, atribuída pelo jornal às conclusões desse estudo, representa ‘uma interpretação perigosa e, em rigor, errada do conceito de período de retorno’. ‘ Com efeito’ — explicava — ‘um evento com o período de retorno de 100 anos pode acontecer em cada ano hidrológico (…) e a probabilidade de uma ou mais cheias, com magnitude igual ou superior a uma cheia com o período de retorno de 100 anos, ocorrerem num período de 30 anos é 26%. Para um período de 100 anos essa probabilidade é 63%’.

Não tendo o jornal esclarecido posteriormente esta questão, o professor do IST enviou-me uma mensagem, chamando a atenção para a importância de corrigir o erro, que diz ser frequente e afectar ‘a comunicação e a percepção social do risco’, quando se referem cheias, sismos e outros desastres naturais. De facto, quando se atribui a um determinado fenómeno um ‘período de retorno’ de um século e se comunica esse dado como significando que ele ‘só acontece de 100 em 100 anos’, é razoável antecipar que o leitor comum entenderá que os riscos da sua repetição num futuro mais ou menos próximo são bem inferiores aos que na verdade devem ser tidos em conta nas políticas destinadas a preveni-los. ~

A meu pedido, Betâmio de Almeida teve a gentileza de redigir, para os leitores do PÚBLICO, um esclarecimento acerca do significado científico da expressão ‘período de retorno’. Aconselho os interessados a consultá-lo mais adiante neste blogue, limitando-me a citar aqui dois pontos desse texto.

Primeiro: ‘Em rigor, o período de retorno (PR) corresponde ao intervalo de tempo ‘esperado’ (no sentido de ‘esperança matemática’) entre duas ocorrências sucessivas do tipo de acontecimento em causa. (…) Considere-se, por exemplo, o PR = 100 anos para uma cheia num determinado local. Então, essa cheia terá uma intensidade com a probabilidade de 0,01=1/100 (‘uma vez em cem’) de ser igualada ou excedida em cada ano (hidrológico)’. Mas ‘(…) é fundamental ter presente que se considera na análise probabilística o ‘funcionamento’ de uma ‘roleta da natureza’ e que esta funcionará em cada ano de modo independente. Assim, nada impede que essa cheia ocorra dois anos seguidos ou várias vezes no próximo período de cem anos ou que não ocorra nenhuma vez! Ao contrário do que a expressão parece significar, o fenómeno não é periódico’.

Segundo: ‘ (…) As probabilidades das situações que podem ocorrer podem ser calculadas. Assim, a título de exemplo, para o caso da cheia com PR de 100 anos obtêm-se os seguintes valores para as probabilidades de excedência: a) nos 100 anos seguintes =0,63; b) nos 70 anos seguintes = 0,50; c) nos 50 anos seguintes = 0,40. Perante estes valores, significativamente superiores ao valor anual de 0,01, o decisor ou a sociedade fica confortável com níveis de segurança de 50 ou 40%? Pode acontecer que a resposta seja positiva, mas merece uma reflexão’.

Nunca é tarde para esclarecer, nem para recordar as armadilhas que a linguagem científica pode tecer à comunicação jornalística.

Novidades na frente electrónica

O leitor Hugo Jorge não gostou de encontrar na edição on line do jornal um texto ‘que faz a chamada para um assunto editorial, para depois o quebrar logo ao segundo parágrafo e anunciar que o leitor pode ler o resto se comprar a revista’ (Pública). E questiona se ‘o jornal tem o direito de utilizar o espaço editorial para promoção’. Direito tem certamente, e o que valerá a pena discutir é se não se justificaria uma maior clareza na distinção gráfica de uma promoção como a que a leitor encontrou, que só se diferenciava do fluxo habitual das notícias por um pequeno antetítulo em que se lia ‘Exclusivo na Pública’.

Aproveito para esclarecer que a iniciativa antecipou uma mudança da política comercial do jornal, que terá início amanhã. ‘Decidimos’ — informou-me a directora, Bárbara Reis — ‘deixar de publicar gratuitamente os conteúdos da revista no nosso site, mas não deixar de informar os leitores sobre eles. (…) Consideramos equilibrado dizer de forma clara aos leitores que os grandes temas semanais, as grandes reportagens e as grandes entrevistas que fazemos no dia-a-dia, e que implicam enormes investimentos orçamentais e da redacção, são conteúdos exclusivos para o papel e para os assinantes do PÚBLICO Online’.

Assim, a partir de amanhã, a versão on line (por assinatura) do jornal impresso será substituída pelo PÚBLICO e-paper, ‘novo formato de jornal electrónico’ que incluirá o caderno P2 e todos os suplementos’, para além de um conjunto de novas funcionalidades ‘apenas possíveis numa plataforma digital’, e que, segundo Bárbara Reis, irão também amanhã ser comunicadas aos leitores. ‘A opinião, crónicas e críticas; os temas principais do caderno diário P2; o tema de capa do Ípsilon, o caderno cultural que sai às sextas-feiras, e os temas da revista Pública e do caderno Cidades, que saem ao domingo, são alguns dos conteúdos que passarão a ser exclusivos para assinantes on line’, explicou ainda a directora.’

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