Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > PÚBLICO

José Queirós

29/03/2011 na edição 635

‘A acusação de plágio é das mais graves que podem ser feitas a um jornalista. Trata-se, aliás, de uma prática proibida pelas normas éticas a que o PÚBLICO se obriga. No caso de que hoje me ocupo, essa acusação foi dirigida a uma redactora do jornal pelo autor de um blogue. Como irei explicar, considero a acusação injusta, mas penso que os factos que lhe deram origem revelam erros que devem ser corrigidos, tanto na elaboração de textos como na relação do jornal com os seus leitores.

Vamos então aos factos. Nas páginas de abertura do suplemento semanal Cidades, publicado aos domingos, existe uma secção intitulada Antes & Agora, que permite comparar duas fotografias (uma antiga, outra actual) de um mesmo fragmento de paisagem urbana. Um pequeno texto acompanha essas imagens, evocando aspectos da história do local fotografado e sinalizando as transformações nele ocorridas. No passado dia 23 de Janeiro, esse espaço do suplemento foi ocupado, na edição Lisboa, por imagens da Avenida de Roma, sob as quais um apontamento assinado pela jornalista Ana Gomes Ferreira dedicava especial atenção à carreira 7 de autocarros da Carris, que serve há décadas aquela avenida.

Percebe-se, pela leitura desse pequeno texto, que ele foi redigido com base em dados recolhidos ‘na Internet’. A autora escreve, a certa altura que, ‘para esta história fotográfica, interessa-nos o blogue que conta a história das carreiras da Carris’, já que ‘na imagem está a carreira 7, que foi muito importante para esta avenida’. Segue-se uma descrição em traços largos da história da relação entre a avenida e a referida carreira de autocarros, no âmbito da qual se cita, entre aspas, a seguinte frase: ‘Em 1956, a Câmara iniciou finalmente a grande reconstrução da Avenida de Roma; e durante cerca de um ano o 7 viajou com alterações de percurso, quarteirão a quarteirão, enquanto a avenida ganhava um rosto condizente com a modernidade que apregoava’. Essa frase, segundo se explicava, ‘lê-se na página dedicada ao 7’.

Trata-se de uma frase retirada, na íntegra, de um longo texto intitulado ‘7 (e 7A): O autocarro da Avenida de Roma’, publicado em Fevereiro de 2010 num blogue intitulado ‘História das Carreiras da Carris’, cujo conteúdo e valor informativo aliás se recomendam a todos os interessados pela história dos transportes públicos de Lisboa. O seu autor, Luís Cruz-Filipe, queixa-se, em mensagem que me enviou, de não ter sido feita na peça do PÚBLICO qualquer referência ao nome do blogue, ao respectivo link ou à sua própria identidade de autor do texto sobre a carreira 7, e ainda de não ter sido contactado pela jornalista. Afirma, nomeadamente: ‘O corpo do artigo não é mais do que um resumo da história do 7, conforme contada no meu blogue, contendo citações textuais sem indicação da fonte e várias expressões por mim usadas’. E, apesar de anteriormente ter reconhecido não saber ‘se tecnicamente esta situação se considera plágio ou não’, viria afinal a formular essa acusação.

Escreve Luís Cruz-Filipe que a situação criada foi para si ‘extremamente desagradável’, pois, conforme explica, ‘o texto com a história do 7 demorou-me várias horas a escrever, não contando com os vários anos de pesquisa para recolher todos os dados que nela refiro’. O seu desagrado é compreensível, e não apenas pelo modo deficiente como o jornal citou o seu blogue. O autor de ‘História das Carreiras da Carris’ queixa-se também do ‘silêncio’ a que terão sido votadas várias comunicações enviadas ao jornal sobre este caso, que terão ficado sem resposta. O que é lamentável, embora possa também ser fruto de equívocos, a avaliar pelo caso de uma mensagem que diz ter-me endereçado a 27/1, e que de facto não recebi (o endereço electrónico do provedor do leitor é publicado diariamente no jornal impresso e é acessível junto de qualquer notícia na edição on line; quando Luís Cruz-Filipe o utilizou, cerca de um mês depois, recebi a mensagem e respondi-lhe).

A única explicação vinda do PÚBLICO chegou ao autor do blogue a 15/2. Nela, a jornalista que redigira o apontamento sobre a Avenida de Roma salientava que a referência ‘ao blogue que conta a História das Carreiras da Carris’ constava do seu texto, mas reconhecia: ‘Lamentavelmente, o nome do blogue [na peça de 23/1] não está em caixa alta, esse sim um lapso da nossa parte, pelo qual devemos pedir-lhe as maiores desculpas’. A explicação não satisfez o investigador da história dos autocarros lisboetas, para quem o modo como o blogue foi referido não permitiria a sua identificação, e por isso enviou a 21/2 nova mensagem ao jornal, solicitando a publicação, ‘no mesmo suplemento Cidades e na mesma rubrica’, de uma nota que esclarecesse que o texto se baseava num artigo do seu blogue, cujo nome, título e endereço pedia que fossem indicados. Finalmente, a 26/2, surgiu na secção O PÚBLICO errou uma nota em que se reconhecia que, na peça de 23/1, ‘foi indevidamente grafado o nome de um blogue, que surge em caixas baixas em vez de maiúsculas’ e se apresentavam desculpas ‘aos leitores e ao autor do blogue História das Carreiras da Carris’.

Penso que se tratou de uma correcção insuficiente, e que a pequena peça sobre a Avenida de Roma revela a existência de más práticas no recurso a sítios da Internet para a obtenção e divulgação de informações. Se no caso do blogue de Luís Cruz-Filipe a referência à origem de uma frase citada é feita no texto, embora de forma negligente e incorrecta, pior é o facto de a peça fechar com outra citação de uma frase entre aspas, que tem por única indicação de origem as palavras ‘comenta-se na Internet’ — um tipo de expressão que deveria ser pura e simplesmente banido dos textos jornalísticos. A citação do excerto de um texto alheio, por pequeno que seja, deve ser sempre acompanhada da referência clara à sua origem ou autoria. Tratando-se de informações ou opiniões encontradas em sítios da Internet, a referência ao seu endereço deve ser vista como um serviço prestado aos leitores que desejem confirmá-las ou conhecer melhor o tema tratado. Sem descurar, ainda, a aferição da credibilidade das fontes utilizadas.

Dito isto, considero desadequada e injusta a acusação de plágio. No plano da ética jornalística, que é o que para aqui importa, o plágio implica a ocultação deliberada da autoria alheia de um texto. Não foi isso que aconteceu. A jornalista Ana Gomes Ferreira citou entre as devidas aspas a frase que retirou do blogue sobre os autocarros lisboetas, tornando claro que esta não era da sua autoria, e identificou — é certo que de forma deficiente — a sua origem. Se a quisesse ocultar, não teria referido ‘o blogue que conta a história das carreiras da Carris’, que qualquer busca na rede permite de imediato identificar como sendo o que tem por título ‘História das Carreiras da Carris’ e por autor alguém que se identifica apenas como ‘Luís’, e que aliás designa esse blogue, logo à entrada, como um ‘espaço de partilha de dados’. Nem teria escrito, como escreveu, que a frase citada se encontrava ‘na página [do blogue] dedicada ao 7’.

Luís Cruz-Filipe diz que a peça da secção Antes & Agora não é mais do que ‘um resumo’ do seu artigo sobre a carreira 7. Mas não só o que nela se escreve sobre autocarros não é tudo, embora seja parte substancial, como é precedido da referência ao ‘blogue que conta a história das carreiras da Carris’. E, ainda que a jornalista se tenha inspirado principalmente no seu texto (como parece decorrer da própria referência ao blogue), as poucas linhas em que refere um ou outro facto sobre os autocarros na Avenida de Roma não podem ser vistas como um resumo de um extenso artigo de cerca de 20.000 caracteres. Na ausência de utilização de quaisquer excertos, ou adaptações de excertos, do texto consultado, para além do que foi citado entre aspas, considero que a invocação de plágio, neste caso, não é só desproporcionada. É errada. O que não impede que se reconheçam como justificados os motivos de desagrado do responsável pelo blogue, que esperou demasiado tempo por uma explicação do PÚBLICO e tinha o direito a ver os seus créditos de estudioso da história dos autocarros de Lisboa salientados com maior nitidez.’

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