Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

José Queirós

08/03/2011 na edição 632

‘Esta é uma queixa que, à partida, parece estranha. O leitor José Albino Nogueira, de Vila Nova de Gaia, leu a notícia que no passado dia 21 de Fevereiro o PÚBLICO dedicou, na secção Local da sua edição Porto, à abertura do 31º Fantasporto, que hoje chega ao fim nas salas do Teatro Rivoli. Leu e protestou, não para objectar a qualquer passagem do texto, mas para se insurgir ‘contra a opção editorial de colocar (…) na secção Local’ o texto sobre o conhecido festival de cinema portuense.

Argumentando que o Fantasporto será ‘o festival de cinema português mais conceituado no estrangeiro’, que ‘é único no género’, um ‘dos mais antigos’ e ‘dos que tem mais público’, sendo procurado ‘por espanhóis e estudantes Erasmus’, e além do mais ‘não é em Lisboa (razão para celebrarmos a descentralização cultural)’, este leitor sublinha que ‘o PÚBLICO tem feito uma cobertura exaustiva de outros dois grandes festivais de cinema: Doc Lisboa e Indie Lisboa’ e ‘dado a devida atenção a outros mais antigos’, que enumera. ‘Coloca-os’, refere, ‘na secção Portugal, no P2 e Ípsilon’. E pergunta: ‘Mas então porque não fazer o mesmo com o Fantasporto?’. Conclui sugerindo que se trata de uma ‘discriminação’, que reflectiria ‘o velho aforismo’ segundo o qual ‘Lisboa é Portugal, o resto é paisagem’.

Dois dias depois, em nova mensagem, comentava que ‘o copo entornou’. Referia-se, já não ao cinema, mas à publicação, na mesma secção Local, de uma notícia sobre um acontecimento que considera de importância ‘nacional e internacional’ no âmbito do sector vinícola: o certame ‘Essência do Vinho’, que também hoje encerra no Porto a sua 8ª edição.

José Albino Nogueira vê a paginação destas peças na área do noticiário Local como sintomas do que chama um ‘complexo centralista’. Será assim? Terá na verdade alguma importância discutir em que página ou secção surge uma determinada notícia, quando o essencial será encontrá-la no jornal? Creio que a resposta passa por analisar duas ideias sugeridas pelo raciocínio do leitor: a de que o PÚBLICO tenderia a desvalorizar acontecimentos, nomeadamente de índole cultural, exteriores à região de Lisboa, e a de que a secção Local seria uma área menos importante ou menos nobre do jornal. Penso que a primeira é uma questão em aberto, que vale a pena discutir. E que a segunda corresponde a uma percepção errada, que o jornal deveria aliás combater de forma mais efectiva. Vamos por partes.

O PÚBLICO é certamente o diário português em que o jornalismo cultural, atento ao que se passa no país e no mundo, tem mais forte expressão. É reconhecido e apreciado por essa opção editorial, que está em sintonia, tudo o indica, com os interesses dos seus leitores. No plano nacional, é uma evidência que o espaço dedicado a espectáculos e acontecimentos culturais na área de Lisboa é esmagadoramente superior ao que é concedido ao que se passa no resto do país. E é natural que assim seja: este é de facto um país altamente centralizado, e as actividades culturais não são excepção.

Há pois, nesta matéria, uma diferença quantitativa que se limita a espelhar a realidade. Resta saber se ela esconde uma falta de equidade no serviço prestado pelo jornal ao conjunto da sua audiência, que, ao contrário do que é regra nos diários, se reparte equilibradamente entre o norte e o sul do país, e terá perfil e interesses semelhantes. A avaliar pelas mensagens que recebo sobre este tema, com queixas sobre a omissão ou a desvalorização de acontecimentos na metade norte do país, uma parte dos compradores da edição Porto pensará que sim, que o PÚBLICO não dá a atenção suficiente nem afecta os recursos necessários à vida cultural que lhes é mais próxima ou aos espectáculos relevantes, e já de si escassos, a que podem de facto assistir na região onde vivem. A espelhar de novo a realidade — a da oferta cultural, mas também a dos recursos mediáticos —, registo que são mais frequentes as reclamações de leitores de Braga, Guimarães ou Coimbra, por exemplo, do que as que têm origem, como neste caso, na área do Porto.

No caso da presente edição do Fantasporto, e sem conhecer ainda a matéria eventualmente dedicada às sessões finais e à tradicional entrega dos prémios, verifica-se que o jornal antecipou as linhas gerais da programação nas suas páginas nacionais e deu depois pouca atenção e nenhum acompanhamento crítico à evolução do festival, que durou duas semanas e mostrou ‘uma selecção de três centenas de filmes’, apresentando-se, nas palavras do jornalista Sérgio C. Andrade, ‘como espelho da mais recente produção cinematográfica mundial no domínio do fantástico’. A peça citada pelo leitor, de que extraí a citação antecedente, destinava-se essencialmente a apresentar o programa ‘dos quatro dias que antecedem o início das secções competitivas’ e foi publicada no Local Porto (e em forma resumida na edição Lisboa). Quatro dias depois, uma notícia no caderno P2 antecipava a fase de competição, e três dias mais tarde, de novo no Local (e apenas na edição Porto), reportava-se, ao fim da primeira semana da mostra, a já habitual grande afluência de público às sessões do festival.

Tudo somado, pode concluir-se que o investimento editorial foi fraco e discutir-se se foi o adequado. Admitindo que esta é ‘matéria de grande sensibilidade’, o director adjunto Manuel Carvalho garante que o facto de se tratar de um festival que decorre no Porto ‘não implica, por isso, qualquer tipo de discriminação’. Assegura que ‘os grandes eventos culturais da cidade (…) têm no PÚBLICO um tratamento semelhante aos que ocorrem (…) em Lisboa ou qualquer outra cidade do país’. E coloca o problema no plano da relevância jornalística.

Reconhecendo que o Fantasporto ‘é um sucesso em termos de público’ e ‘um importante factor de animação cultural da cidade, o que justifica a atenção da secção Local’, o director adjunto explica a opção do jornal: ‘O relevo concedido a eventos culturais depende não apenas do seu sucesso junto do público, mas também da sua importância artística, ou cultural. Não se pode ignorar um festival de relevância cultural discutível que mobiliza 100 mil pessoas, como tem de se valorizar um acontecimento de evidente valor artístico que convoca 200 ou 300. (…) Se até 2004/2005 o Fantasporto era, de facto, um festival de impacte nacional e internacional (e nesses anos era inclusivamente primeira página do suplemento ípsilon), nos últimos anos, no nosso entendimento, foi perdendo parte desse fulgor’.

Fica explicada com clareza a opção editorial. É legítima e cabe aos leitores julgá-la. Por mim, noto que haveria outras formas de a afirmar, a começar pela aposta no acompanhamento crítico do festival. Julgo que o seu ‘sucesso em termos de público’, não sendo determinante no plano da avaliação artística, justificaria uma cobertura que fosse além da apresentação rotineira do programa e das notas de reportagem sobre a procura de bilhetes. E penso que não deveria ser subestimado o factor de proximidade territorial que está aqui presente para uma parte muito significativa dos leitores. Segundo me informa a direcção, a edição Porto representa quase metade (45%) das vendas do jornal impresso, e esse facto deverá pesar nas escolhas editoriais.

Finalmente, e regressando à queixa do leitor, a secção Local não é um espaço menor do jornal. Faz parte da matriz editorial do PÚBLICO dar às notícias de proximidade, sobretudo nas grandes áreas metropolitanas, o tratamento próprio de um jornal de referência. Mas faz igualmente parte dessa matriz — e portanto da natural expectativa dos que fizeram deste o ‘seu’ jornal — a comunicação sem barreiras entre regiões. No caso de um festival de cinema, faz pouco sentido que o espaço territorial onde decorre seja um critério que, no plano da paginação, prevaleça sobre o interesse que o tema pode despertar a leitores de todo o país. A publicação de peças sobre o Fantasporto no Local, para além de poder contrariar hábitos de leitura, significa sobretudo que essas notícias não chegarão (a não ser, por vezes, em forma de resumo) a um pouco mais de metade dos leitores. Que o facto possa causar estranheza é tanto mais compreensível quanto é a própria reportagem do PÚBLICO que dá conta, em notícia só publicada a norte, de que abundam nas bilheteiras do festival os cinéfilos vindos do sul.’

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