Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

José Queirós

05/10/2010 na edição 610

‘O PÚBLICO vai alterar o modelo de gestão dos comentários às notícias publicadas na sua edição na Internet. Segundo a directora do jornal, Bárbara Reis, uma equipa constituída para o efeito irá passar a assegurar, a curto prazo, a leitura e aprovação (ou não) desses textos.

Aos leitores que tenham presente a minha crónica anterior, dedicada a este tema, não causará surpresa que eu diga que se trata de uma excelente notícia. Como então escrevi, ‘a publicação automática — isto é, sem edição prévia — de comentários às notícias em linha’ estava a tornar-se um factor de deterioração da imagem do jornal. A desejável e enriquecedora participação dos leitores no debate da actualidade, que contribuíra para fazer do Publico Online um sítio de referência, vinha a ser degradada por uma minoria de comentadores que escolheram este espaço para exibir, de forma grosseira, a sua incivilidade e intolerância. De acordo com diversos testemunhos, o crescimento desse lixo retórico estava já a afastar das caixas de comentários muitos dos que, querendo genuinamente participar na discussão dos temas noticiados, recusavam ver-se acompanhados por quem confunde a expressão livre e frontal das opiniões com a desqualificação e o insulto.

Para além de uma boa decisão, esta é uma decisão corajosa, que implica certamente um esforço editorial considerável e singulariza o PÚBLICO num ambiente mediático que tem privilegiado a abertura total aos comentários não editados, em nome da conquista de audiências e consequentes proveitos publicitários. Creio que o tempo mostrará que essa é uma estratégia errada, mesmo no plano comercial, para os meios de referência. Mas, como aqui defendi, mesmo que assim não fosse, há alturas em que é preciso escolher entre audiência e qualidade.

Por isso saúdo a decisão tomada, e passo a transcrever a resposta da directora do PÚBLICO à pergunta que lhe fiz sobre se iriam ou não ser alteradas as ‘regras do jogo’ neste domínio.

‘Estamos’, esclarece Bárbara Reis, ‘prestes a mudar as regras dos comentários. O PÚBLICO tem acompanhado o debate internacional sobre o tema e, mais do que acompanhado, tem discutido internamente formas de o resolver. Há jornais que encontraram a solução no outsourcing, outros contratando batalhões de editores: 40, 50, 60 pessoas cem por cento dedicadas aos comentários on line. São luxos impossíveis para nós. Encontrámos uma solução interna e estamos a dias de pôr em prática um novo modelo de gestão dos comentários. Montámos uma equipa de 25 pessoas da redacção que, de acordo com um horário pré-definido, vão ficar responsabilizadas pela leitura e aprovação dos comentários. Desta pool, um jornalista ficará responsável por aprovar comentários durante a madrugada. Ou seja, vamos poder cobrir a quase totalidade das 24 horas do dia. Estamos neste momento a finalizar questões de pormenor e nos próximos dias anunciaremos a mudança. Passaremos assim de 3 para 25 editores de comentários on line. Numa primeira fase, vamos manter os comentários num regime de livre publicação – mas com este reforço de editores já a funcionar em pleno. O objectivo final, porém, é ler previamente todos os comentários antes de estes serem publicados’.

Vários leitores me manifestaram, nos últimos dias, o seu apoio a uma decisão deste tipo, embora alguns não ocultassem o seu cepticismo sobre a possibilidade de o PÚBLICO se decidir — como decidiu — a navegar contra a corrente da maré de lixo nas caixas de comentários. E houve, naturalmente, quem se mostrasse preocupado com a hipótese de esse espaço interactivo vir a ser fechado, alternativa que eu aqui considerara indesejável, mas no limite preferível à manutenção de um regime de ‘vale tudo’. Foi o caso do leitor Ludwig Krippahl, que publicou no meu blogue um comentário em que sugere que ‘alguns moderadores que, conforme a sua disponibilidade, vão apagando os comentários que não contribuam para o tópico’ bastariam ‘para manter a um nível tolerável o ruído causado’.

É essa, afinal, a solução que o jornal irá começar por adoptar, e de um modo mais efectivo e exigente do que o sugerido pelo leitor. É um avanço muito significativo, mas que creio ser ainda insuficiente. Por isso sublinho e apoio a afirmação de Bárbara Reis, segundo a qual o objectivo a atingir deverá ser o da análise dos comentários ‘antes de estes serem publicados’.

É claro que valerá a pena aguardar os resultados do que a directora do jornal define como ‘primeira fase’ da mudança: a manutenção do regime de livre publicação de comentários, com um grande reforço dos meios para a sua moderação a posteriori. Mas temo bem que, apesar da dimensão dos meios anunciados, essa venha a revelar-se uma luta desigual, com algum do lixo afastado a reaparecer sem qualquer reciclagem, e as técnicas já conhecidas da sua propagação viral a inundarem repetidamente o espaço de comentário a diferentes notícias, tornando um tanto inglório o esforço dos moderadores. Em contrapartida, a leitura prévia tornará possível evitar a publicação, por minutos que seja, dos textos de quem apenas pretenda ofender e insultar — o que, a prazo, será a melhor forma de desincentivar os seus autores e tornar compensador o esforço investido na edição.

Dou um exemplo recente para ilustrar o problema — e também para alertar para a importância (e as dificuldades) de uma moderação criteriosa dos comentários. Na manhã da passada quinta-feira, podia ler-se no Publico Online (tal como na edição em papel) uma notícia sobre as propostas discutidas na véspera, no Parlamento, que visavam, cito, ‘simplificar a mudança de sexo e do nome próprio no registo civil’ das ‘pessoas a quem tenha sido clinicamente diagnosticada uma mudança na identidade de género’. Ao início da tarde, alertava-me o leitor Francisco Serra: ‘Peço encarecidamente que moderem os comentários homofóbicos e transfóbicos’ à notícia em questão.

Consultei a edição em linha e verifiquei que, entre mais de uma dezena de comentários, alguns teriam de ser considerados impublicáveis face às regras definidas pelo PÚBLICO, que podem ser consultadas junto de cada notícia. Alguém, na redacção, terá escutado a reclamação que recebi, ou outra semelhante. Ao fim do dia, tinham desaparecido todos os comentários à notícia, incluindo, infelizmente, os que respeitavam as regras… Havia apenas um, anónimo, a questionar a importância do tema dos transexuais. Voltei a consultar, 24 horas depois, a mesma caixa de comentários. Encontrei um debate mais útil, em que reaparecera um dos textos que não deveriam ter sido apagados e surgiam dez novas intervenções. Algumas desrespeitavam, a meu ver, as regras em vigor. Mas deve reconhecer-se que só o tempo e a experiência — e o escrutínio dos leitores — tornarão mais seguros os passos a dar no território ainda movediço da interpretação dos critérios de publicação.

O novo caminho encetado pelo jornal na sua relação interactiva com os leitores não é, já se percebeu, o da facilidade. Mas é, sem dúvida, o do respeito por quem o lê. Permito-me sugerir que o anúncio da mudança se faça acompanhar da divulgação, com maior visibilidade, dos critérios aprovados para a publicação de comentários.

Oito menos um

A 22 de Setembro, no âmbito da comemoração do 15º aniversário da presença do PÚBLICO na Internet, oito políticos — os que aceitaram o convite feito a dirigentes partidários e candidatos presidenciais — responderam directamente, no Publico Online, às perguntas dos leitores deste jornal, num diálogo inédito e interessante, moderado pela jornalista São José Almeida. No dia seguinte, a edição em papel deu destaque a um resumo das respostas dos oito convidados.

A capa dessa edição desagradou ao leitor Carlos Vaz, que me enviou uma mensagem intitulada ‘Boicote a candidato’, em que critica o facto de nela surgirem as fotografias ‘de todos os protagonistas, excepto a do candidato Fernando Nobre’.

Confrontada com esta queixa, a directora do jornal nega qualquer ‘discriminação’ e explica:’Nobre não estava na primeira página apenas porque, no próprio dia e depois de tudo combinado há várias semanas, (…) foi nessa manhã para Santarém. Estava inicialmente previsto que viesse falar com os leitores à própria redacção do PÚBLICO em Lisboa. (…) Concluímos que usar uma fotografia de Nobre numa outra situação que não a do acontecimento propriamente dito seria demasiado artificial e contrário ao espírito da primeira página que queríamos fazer. No interior, porém, usámos uma fotografia de todos os candidatos’.

Poderia acrescentar-se que no anúncio da iniciativa, na capa da edição anterior, em destacada composição fotográfica, Nobre aparecia junto dos outros sete participantes. É de facto excessivo ver ‘discriminação’ ou ‘boicote’ no facto de o jornal ter mantido, apesar do contratempo provocado pela mudança na agenda de um dos protagonistas, a sua aposta gráfica para a primeira página: uma sucessão de imagens dos políticos convidados, marcada pela hora a que foram fotografados, sentados frente ao computador, em pleno diálogo com os leitores.

Ainda assim, é legítimo perguntar se a preocupação com a equidade não se deveria ter sobreposto à renitência em sacrificar uma boa ideia gráfica. Ou, olhando para o dilema de outro lado, o empenho em manter a solução projectada para a capa não aconselharia a fotografar Nobre no seu diálogo com os leitores, em Santarém ou onde quer que se encontrasse, a uma distância razoável da redacção do PÚBLICO?

Creio que a consideração devida a quem se convida para uma iniciativa do jornal deveria ter inspirado, mesmo face a um contratempo de responsabilidade alheia, um maior esforço na busca de uma solução equitativa.’

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