Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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VOZ DOS OUVIDORES >

José Queirós

30/11/2010 na edição 618

‘A edição nº 7537 do PÚBLICO, do passado dia 23, ficou marcada por um dos erros mais nocivos para a reputação de um jornal: uma manchete falsa. ‘Um erro muito grave’, na expressão, que só posso subscrever, da sua directora. Talvez porque a admissão e a correcção do erro não se fizeram demorar, nem foram acompanhadas de justificações duvidosas, não me chegaram, a este respeito, protestos significativos. Recebi, em contrapartida, a reclamação de uma leitora, que considera que ‘o destaque dado à notícia falsa não é compensado pela correcção posterior’.

Para analisar o erro e a correcção convém começar por recordar os factos. Na passada terça-feira, o jornal anunciava em manchete: ‘Passivo financeiro de Lisboa aumenta 275 milhões em 2011’. O tema era desenvolvido com grande relevo na secção ‘Local’, onde a notícia da alegada derrapagem das contas da Câmara de Lisboa se fazia acompanhar de uma infografia em que se destacava erradamente o número de 353 milhões como sendo o valor previsto pela autarquia como passivo financeiro na execução orçamental de 2011. A partir de um erro grosseiro inicial (‘Lemos mal os documentos oficiais’, viria a explicar uma Nota da Direcção), a notícia partia para interpretações inquinadas e para a audição de vereadores da oposição com base em pressupostos falsos.

O erro só foi detectado na própria terça-feira, quando a manchete já estava na rua e marcava a actualidade, dando origem a uma conferência de imprensa do presidente da Câmara, António Costa, expressamente convocada para desmentir o PÚBLICO. Ainda nesse dia, a direcção do jornal fazia publicar na edição on line o seu próprio desmentido, explicando: ‘Lemos na rubrica ‘passivos financeiros’ dois números: 77,9 milhões para 2010 e 353,5 para 2011. Subtraímos 77,9 aos 353,5 e chegámos a 275 milhões de euros. A leitura correcta, porém, é que os 353,5 milhões são o valor que a câmara prevê amortizar da sua actual dívida’.

‘Não gostamos de falhar e de dar a informação errada aos leitores. E também não gostamos de não assumir os erros’, concluía, com as devidas desculpas, a Nota da Direcção, retomada no dia seguinte na edição em papel, ao lado de uma notícia intitulada ‘Passivo da Câmara de Lisboa vai baixar e não aumentar no próximo ano’. A mesma informação, antecedida da menção ‘Público errou’, figurava na capa da edição de quarta-feira.

Aceitando-se que a ‘má leitura’ da previsão orçamental da Câmara de Lisboa explica o desastre jornalístico subsequente, é preciso dizer que o caso indicia vulnerabilidades sérias nos mecanismos que devem garantir a qualidade da informação publicada. Casas decimais à parte, só a fatal subtracção operada sobre pressupostos errados parece ter sido bem feita. A notícia desmentida não prima pela clareza e é muito marcada pelo jargão do ‘economês’, vício sempre a evitar e particularmente criticável no texto de uma manchete. A leitura correcta de orçamentos, por outro lado, exige alguns conhecimentos básicos, que não podem deixar de existir na redacção de um jornal. ‘É uma competência obrigatória’, reconhece a directora, Bárbara Reis, acrescentando: ‘Não houve um segundo olhar dentro da própria redacção, o que devia ter acontecido e só aconteceu no dia seguinte’.

A escolha de uma manchete, por sua vez, não pode resultar da simples descoberta de um número num documento oficial, sem mais preocupações pelo contexto e pelas necessárias informações complementares. Ainda que a leitura tivesse sido correcta, e não foi, ela obrigaria os responsáveis editoriais a formular as perguntas adequadas e a procurar as respostas possíveis: é essa a lógica do bom jornalismo, que teria provavelmente evitado o erro cometido. Fica a ideia de que nada se procurou averiguar e aprofundar fora das paredes do jornal, num tema a que se dedicou o espaço nobre da capa e os textos de abertura do ‘Local’, acompanhados de uma destacada infografia que os desmentidos tornaram inútil.

Um título como o que foi escolhido e um texto que não se furta à interpretação exigiam a busca do contraditório e não podiam dispensar a procura de esclarecimentos junto dos responsáveis pela proposta orçamental. ‘O PÚBLICO tentou obter explicações para estes números (…), mas ninguém na câmara se mostrou disponível para o fazer’, escreveram os autores da peça. Quis saber que esforços foram realmente feitos para obter essas explicações, e Bárbara Reis respondeu-me: ‘Os jornalistas do PÚBLICO ligaram repetidas vezes para a assessora de imprensa da câmara, a partir das 13h00, e, não tendo conseguido contactá-la, ligaram e deixaram recado junto da vereadora das Finanças. A assessora de imprensa só nos atendeu ao fim da tarde e a das Finanças não devolveu a chamada. Tentámos? Sim. Fizemos o suficiente? Não’.

Também me parece que não, e permito-me acrescentar que a invocação de telefonemas e recados sem resposta pronta não pode ser aceite com ligeireza como justificação para o não cumprimento de deveres profissionais. Até para que não se confunda com a conhecida técnica do mau jornalismo, que recorre aos ‘contactos infrutíferos até à hora do fecho’ para evitar ver desmentidas em tempo útil ‘informações’ não fundamentadas. Acresce que nenhuma especial urgência informativa justificaria neste caso o risco de uma atenção menor às boas práticas, quer por parte de quem redigiu e editou a peça, quer de quem a escolheu para manchete. O preço dessa leviandade paga-se em danos à credibilidade, como ilustra a frase — que será injusta mas é nestas circunstâncias compreensível — da leitora Maria Fernanda Almeida, que reagiu à explicação da ‘má leitura’ dos documentos comentando que ela lhe parece ‘um acto falhado’, e perguntando: ‘Leram aquilo que gostariam de ter lido?’.

Na reclamação que me fez chegar, a mesma leitora mostra-se insatisfeita com a correcção efectuada. Escreve: ‘ O destaque dado à notícia falsa não é compensado pela correcção posterior. Embora tenha sido feita uma chamada na primeira página (O Público errou) remetendo para a correcção da notícia feita no ‘Local’, a sua visibilidade é quase anulada pela opção de a colocar por baixo de um título enorme’.

A directora do PÚBLICO discorda: ‘Sentimos que, pelo contrário, reagimos ao erro como um jornal sério’. E argumenta: ‘Precisamente por ter sido um erro muito grave, decidimos fazer uma coisa rara, e talvez inédita. Sem esperarmos pelo regulador, pelo provedor ou por um pedido formal de direito de resposta da Câmara de Lisboa, fizemos duas coisas: publicámos no online e no papel, com muita visibilidade, uma notícia a admitir o erro, a explicar como ele tinha acontecido e a dar a informação correcta e, em simultâneo, uma nota da direcção a pedir desculpa ao presidente da Câmara e aos leitores. No online, publicámos no próprio dia 23. No papel, no dia seguinte, publicámos uma correcção na primeira página que consideramos visualmente muito distintiva: porque o título tinha um tamanho de letra maior do que é normal, porque não era acompanhado por texto (fazendo com que se demarcasse dos restantes títulos) e porque o antetítulo — ‘Público errou’ — era encarnado, uma cor forte e diferente da usada tipicamente na primeira página’.

Esta questão da proporcionalidade dos desmentidos é um problema clássico dos jornais. Parece-me justo reconhecer que a direcção do PÚBLICO reagiu com seriedade e de modo célere, e que as várias iniciativas tomadas para remediar o erro, descritas por Bárbara Reis, devem ser assinaladas, até porque contrariam as práticas infelizmente instaladas em boa parte da imprensa. O PÚBLICO não ocultou nem tentou minimizar a falha grave de uma manchete falsa. E nisso não fez mais que o seu dever.

Poderia ter dado maior destaque ao desmentido na capa da edição de 24? Certamente que sim, e penso que teria sido desejável. O que não me leva no entanto a subscrever, excepção feita a casos muito especiais, a tese de que um desmentido deverá ter sempre um relevo gráfico pelo menos igual ao da notícia que corrige. Uma tal regra obrigaria a fazer da correcção de uma manchete uma nova manchete, ainda que preterindo temas noticiosos mais relevantes. Num caso como este, o respeito pelos leitores (por todos os leitores) aconselha que a visibilidade e honestidade do desmentido sejam garantidas sem prejuízo de a escolha da manchete do dia se subordinar ao critério do maior interesse jornalístico.

A meu ver, o PÚBLICO enfrentou no essencial de forma positiva o teste exigente e sempre desagradável de se desmentir a si próprio. Importa, agora, concentrar a atenção na revitalização dos mecanismos editoriais que falharam, para evitar ter de voltar a fazê-lo. A precipitação e o insuficiente escrutínio interno sobre o processo de produção das notícias são inimigos da competência e do rigor.’

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