Segunda-feira, 27 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº938

VOZ DOS OUVIDORES > "The New York Times"

Liz Spayd

26/07/2016 na edição 913
Why Readers See The Times as Liberal”, copyright The New York Times, 23/07/2016; tradução de Jô Amado

Estou aqui há menos de um mês, mas já descobri algo que, com certeza, é ruim para os negócios, caso o seu negócio seja dirigir o New York Times. É uma coisa que chega por e-mail ao ombudsman e é enviada por pessoas como Gary Taustine, de Manhattan, que escreve: “O NY Times está afastando seus leitores independentes e imparciais e, ao fazê-lo, está limitando o alcance de sua mensagem e sua possível influência.”

Uma leitora da Califórnia, que pediu para seu nome não ser mencionado, acha que os repórteres e editores do Times vêm tentando guiar a opinião pública para aquilo em que acreditam. “Nunca pensei que, um belo dia, de tão frustrada com a parcialidade das reportagens, eu passaria a ver a página da Fox News para ler um artigo e acessar o resto da matéria que o NYT se recusou a publicar”, diz ela.

E aqui, o máximo da frustração, de um leitor do Arizona, James: “Vocês perderam um assinante por causa da parcialidade implacável contra Trump – e eu nem sou republicano.”

Dá para imaginar o que são as cartas de conservadores autênticos.

E-mails como esses me chegam aos montes diariamente. A percepção de que o Times é parcial provoca a queixa mais frequente dos leitores. Só que a queixa chega tão frequentemente, e há tanto tempo, que o peso dos protestos já não é tão grande.

Assim como faz o chato durante uma festa, fui perguntar a vários jornalistas da redação o que achavam destas denúncias de que o Times estaria se inclinando à esquerda. A maioria deles fez um gesto de enfado. Odeiam-nos de todos os lados, disseram. Somos duros para todos eles. Nada de novo aí.

A diferença entre opinião e notícia

Essa reação pode ser tentadora, mas a menos que a estratégia seja a de tornar a New Republic [uma revista quinzenal de esquerda] uma revista diária, essa percepção de muitos leitores me parece um veneno. Um jornal cujo jornalismo agrada apenas a metade do país tem sua missão pública perigosamente cortada. E uma organização jornalística que tenta sobreviver a partir da receita proporcionada por seus leitores não deveria eliminar os conservadores norte-americanos de sua lista de possibilidades.

Ninguém comentou comigo o fracasso ideológico da audiência total do Times ou de sua base de assinantes, números que são considerados exclusivos dos proprietários. Só sei que há um certo mal-estar, pelo menos em algumas editorias, sobre a relevância – suficiente ou não – do Times para uma ampla porção de leitores.

Por que os conservadores, e mesmo muitos moderados, acham que o Times transmite uma visão geral simpatizante do Partido Democrata? Ponhamos de lado, por enquanto, o aspecto central das críticas – de que a cobertura é realmente parcial. Voltarei a esse assunto à medida que me vá adaptando ao meu cargo. Hoje, centrarei minha atenção nas percepções. Isso porque, embora seja possível debater a essência das denúncias, a razão de ser delas está à nossa frente.

A homepage é um bom lugar para começar. Ao alto do canto direito está a seção de Opinião, com as colunas e editoriais de seus jornalistas mais liberais. Muitas vezes, você escuta “Os leitores sabem a diferença entre opinião e notícia”. Não tenho tanta certeza disso, principalmente quando no website uma está ao lado da outra e as plataformas sociais tornam impossível separá-las.

Pequenos passos numa caminhada mais longa

Talvez não devêssemos nos preocupar com isso. Portanto, voltemo-nos para o toque de tambor dos anúncios de campanha e do website de Hillary Clinton. Mesmo para mim, uma pessoa que sabe perfeitamente distinguir um anúncio de uma matéria jornalística, a visão da cara sorridente de Hillary Clinton – quando vim para ler a notícia – pode ser chocante.

Os leitores frequentemente deparam com anúncios como esse na homepage do New York Times.

E quanto aos comentários dos leitores agregados aos artigos políticos? Na maioria dos dias, os conservadores ocupam apenas alguns assentos nas fileiras de trás desta gigantesca caixa de ressonância liberal – não porque os republicanos sejam descartados pelos editores, mas porque eles não aparecem. Bassey Etim, que supervisiona o fórum de comentários, faz questão de falsificar algumas vozes conservadoras para o topo da lista de comentaristas. “Torna a conversa mais dinâmica e interessante”, diz ele.

Para alguns leitores do jornal impresso, a colocação de um editorial a favor do controle de armas na primeira página em dezembro do ano passado – que acumulou um número recorde de comentários – foi uma prova gritante do tipo de parcialidade que eles esperam por parte do Times. Houve um debate interminável acerca da conveniência da localização do editorial.

Perguntei ao editor-executivo, Dean Baquet, sobre a percepção de uma parcialidade liberal que paira sobre sua redação – tanto em relação ao editorial sobre as armas quanto aos anúncios de Hillary Clinton e ao trabalho propriamente dito de seus jornalistas. Ele não acha que, na maioria dos dias, a cobertura tenha uma tendência liberal, nem acha que os anúncios de campanha ou um eventual editorial de primeira página criem essa percepção.

Mas ele quer que o alcance do Times seja amplo. “Temos que tomar o maior cuidado para que as pessoas sintam que podem se ver no New York Times”, disse ele. “Quero que a percepção que os leitores tenham de nós seja justa e honesta, e não apenas uma parte dela. É um objetivo bastante difícil. Conseguimos fazê-lo sempre? Não.”

Concordo com Baquet: não é fácil. Mas não é difícil imaginar alguns pequenos passos numa caminhada mais longa – deixar editoriais na página dos editoriais, eliminar anúncios de campanha da homepage ou construir uma melhor mistura de valores no setor da redação que trata da reforma imobiliária.

Uma voz que não fala por todos?

Mark Leibovich, um veterano jornalista político da equipe do Times Magazine e cujo trabalho implica conversar com eleitores de todas as tendências, acha que, de uma maneira geral, a cobertura do Times é equilibrada. Mas a percepção de que não é complica o seu trabalho. “Vem se tornando um fator ameaçador”, disse. “Você é alvo de queixas de parcialidade sempre que vai à rua, principalmente num comício republicano.”

O que vem acontecendo com o Times não tem só a ver com o Times. Faz parte do ambiente de uma mídia fraturada que reflete um país fraturado. O que, por sua vez, leva liberais e conservadores a procurar fontes de notícias separadas. Uma pesquisa feita pelo Centro Pew há dois anos detectou um fluxo de liberais para o Times – 65% dos leitores teriam valores políticos à esquerda do centro.

Isso significa que o Times deveria descartar os conservadores e fingir que não tem interesse para a esquerda, e talvez para a centro-esquerda? Espero que essa pergunta não esteja em jogo. Mudaria tudo sobre o que o jornal é e sobre a força de seu jornalismo.

Imagine o que se iria perder se os jornalistas não se sentissem pressionados a ver o mundo pelos olhos dos outros. Imagine as matérias que se iriam perder, como a onda de isolamento que projetou um candidato como Donald Trump e o levou a ganhar a nomeação por seu partido. Imagine um país em que a maior e mais poderosa redação no mundo livre ocidental fosse vista não como uma voz que fala por todos, mas que toma partidos.

Ou será que isso já aconteceu?

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