Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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VOZ DOS OUVIDORES >

Mais atrapalha do que ajuda

25/07/2005 na edição 339

A seção de cidade do Washington Post publicou, terça-feira passada, uma trágica história sobre uma série de assaltos seguidos de duas mortes. Os criminosos fugiram. A matéria do Post descrevia os assassinos como homens jovens com um carro de modelo novo e cor clara. Já os dados divulgados pelo departamento de polícia do condado de Prince George, onde se deram os crimes, eram bem mais específicos: restringia a idade dos homens para entre 22 e 25 anos, apontava a altura aproximada de um deles, a roupa que vestia e o corte de cabelo. O mais importante: dizia que os quatro suspeitos eram negros – informação que foi cortada pelo Post.

O ombudsman do jornal, Michael Getler, conta em sua coluna de 24/7 que recebeu mensagens de leitores estranhando falta de informação tão específica, já que ela havia sido liberada pela própria polícia. Uma das mensagens, escrita por um morador da região em questão, dizia que a descrição que o Post fez dos assassinos ‘não é verdadeira’. ‘A decisão do Post de cortar informações importantes de identificação de suas matérias sobre crimes me parece não só errada como paternalista’, completa o leitor.

Getler diz que situações como esta já ocorreram diversas vezes, e foram tema de uma de suas colunas, em agosto de 2001. As pessoas vêem descrições de criminosos procurados mais completas na televisão ou em outros jornais, ou têm acesso às informações divulgadas diretamente pela polícia, e escrevem para o ombudsman. ‘Algumas pessoas talvez tenham motivos raciais. Mas outras parecem expressar preocupação genuína com as práticas de edição do Post, e neste ponto eu concordo com elas’, afirma ele.

Os editores responsáveis costumam citar as orientações do jornal sobre raça e relevância. Estas orientações dão conta de que ‘em geral, raça e etnia não devem ser mencionadas, a não ser que sejam claramente relevantes. Elas são obviamente relevantes em histórias sobre questões de direitos civis, problemas ou conquistas de minorias, história cultural e conflito racial. São também relevantes e devem ser usadas em matérias sobre crimes quando há informação especificada o bastante para que seja publicada uma descrição do suspeito procurado’. Ou seja, as orientações não ajudam muito neste caso.

Questionados, editores da seção de cidade afirmam, diz Getler, que decidiram cortar a informação sobre a raça dos suspeitos porque há ‘centenas, se não milhares, de homens negros’ com as mesmas características próximos ao local dos crimes. ‘Não há detalhes suficientes para evitar que uma massa de jovens negros inocentes sejam apontados como ‘suspeitos’’, explicam eles.

O ombudsman concorda que a decisão a ser tomada pelos editores sobre esta questão é complicada. ‘Estas descrições podem úteis para os moradores, ou ajudam a alimentar perigosos e injustos estereótipos raciais que inflamam o preconceito?’, pergunta ele, para logo completar: ‘Há algo estranho em segurar informações que foram tornadas públicas pela polícia em um caso como este. A mim, parece que a chance de que estas informações possam ajudar é mais importante e que as pessoas entenderão desta forma’.

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