Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

VOZ DOS OUVIDORES > JORNAL DE NOTÍCIAS

Manuel Pinto

Por Porto, Portugal em 02/11/2004 na edição 301

‘Dia 18 de Outubro: vivia-se ainda, entre os adeptos do futebol nacional, o rescaldo do jogo Benfica – F.C. Porto. As televisões haviam passado repetidas vezes a imagem de um lance que suscitou a polémica: teria ou não sido golo um fortíssimo remate feito a 35 metros da baliza pelo jogador benfiquista Petit, que poderia ter empatado o jogo? O árbitro entendeu que não. Muitos adeptos, especialmente do Benfica, acharam que sim. Estava encontrado o caso de um jogo que já tinha sido marcado, nas semanas antecedentes, por viva polémica. O JN titulava, nesse dia, na capa do caderno ‘Desporto’: ‘Clássico entornado’, um título suficientemente ambíguo para admitir distintas leituras.

Vejamos como o jornal tratou este assunto. Nessa segunda-feira, dia 18, a posição do jornal não deixa margem para dúvidas. O repórter que esteve no estádio alude, logo no início da sua crónica, ao ‘caso da partida quando Olegário Benquerença não validou um golo de Petit que Baía deixou entrar na sua baliza’. Sublinha o comportamento ‘lutador e ambicioso’ das ‘águias’, na segunda parte do jogo, em busca do empate ‘que só não conseguiram a dez minutos do fim, porque Olegário Benquerença não validou um golo de Petit, num remate do médio que Vítor Baía, infeliz, deixou entrar na sua baliza. O clássico estava entornado’. O ante-título da peça reforça a ideia do imputado erro do árbitro, ao ajuizar: ‘Dérbi ficou marcado por decisão errada de Olegário Benquerença, ao não validar um golo de Petit, a dez minutos do fim do encontro’.

Temos, assim, que o JN, na cobertura do acontecimento, não teve dúvidas: houve, segura e indiscutivelmente, um erro do árbitro. Clamoroso e grave, porquanto decisivo para o desfecho do resultado final e, o que poderia ser ainda mais grave, susceptível de incendiar os adeptos, depois de tudo o que se havia passado anteriormente.

Contudo, os comentários e as análises continuaram e eis que o jornal, no dia 19, publica matéria que contradiz o que havia dito na véspera aos seus leitores. Um conhecido ex-árbitro de futebol conclui, através da análise das imagens disponíveis, que ‘a bola bate em cima da linha [de golo], mas não a ultrapassa totalmente. Baía defende, mas não se pode avaliar se a bola estava ou não dentro da baliza’. Por sua vez, um ouro analista conclui: ‘não há nenhuma imagem a mostrar a bola totalmente dentro da baliza; assim, na dúvida, o árbitro agiu bem. Sem certezas não pode haver golo’.

Podemos concluir, pelos desenvolvimentos do caso, na edição do dia 19, que, perante os dados disponíveis, o árbitro não terá cometido erro.

Nesse mesmo dia 19, o leitor engº João Medina, contacta o provedor por e-mail, perguntando ‘com que direito pode um jornalista (e não um comentador), e o JN, apresentar uma notícia em que falam persistentemente num ‘golo’ e de ‘erro’? Recorrendo à Geometria Descritiva, envia uma imagem na qual havia feito um exercício que procura mostrar visualmente que a bola não tinha, de facto, transposto completamente a linha de golo. Termina observando: ‘Acho que todas as pessoas sensatas (e incluo aqui os jornalistas do JN) deviam no mínimo concordar que nenhuma imagem é esclarecedora e [que] persistem muitas dúvidas. Não há nenhuma câmara que mostre o ângulo correcto para se verificar se a bola entrou ou não’. O provedor fez seguir a carta e a imagem para a secção de Desporto e, no dia 20, a foto era publicada, acompanhada de um texto que, além de não citar o autor do trabalho (referia-se apenas a ‘anónimos’ que pretendem ‘esclarecer o país’), voltava atrás no reconhecimento, constante da edição da véspera, de que não havia provas claras da existência de golo. E colocava as coisas numa mera questão de gostos ou de perspectivas.

O editor de Desporto do JN considera que a peça do dia 18 ‘mais não é do que a opinião, no estádio, do autor da crónica do jogo’. E acrescenta: ‘Os textos sobre os jogos de futebol mais não são do que textos de opinião, que procuram dar uma interpretação do que foi o jogo de futebol’. Sobre a não atribuição da autoria da imagem com o estudo da posição da bola, salienta que houve dúvidas sobre a respectiva autoria, uma vez que várias circulavam pela Internet, adiantando ainda, quanto ao texto, que ‘o objectivo não era garantir que a bola entrou ou não entrou, mas mostrar as brincadeiras que circulam na net sobre o assunto’.

Mudança de posição deve ser explicada ao leitor

A análise deste caso suscita ao provedor os seguintes comentários:

Quando um texto de reportagem veicula uma determinada interpretação dos acontecimentos, é também o jornal que está assumir essa interpretação. O JN disse, no dia a seguir ao jogo, que, se o árbitro tivesse sido correcto, o jogo Benfica-Porto poderia ter terminado empatado.

Sobre saber se o remate de Petit deu origem a um golo ou não deu, o jornal disse, num dia, uma coisa e, no dia seguinte, o seu contrário. O JN é feito por gente de carne e osso e pode, portanto, enganar-se e ter de mudar de posição, mas os leitores também têm o direito a ter uma explicação acerca dos motivos dessa mudança. Ora o JN, além do esforço, inquestionavelmente louvável, que fez de dar espaço, no dia 19, a análises daquilo que se havia passado, não disse nada sobre o facto de, no dia anterior, ter não apenas sugerido o contrário, mas tê-lo afirmado de modo peremptório e sem margem para dúvidas.

É no mínimo discutível o argumento de que aquilo que os repórteres escrevem, quando vão cobrir um jogo de futebol, mais não é do que ‘textos de opinião’. Pode-se admitir que essa seja a prática corrente. Se assim é, conviria que o jornal se interrogasse se a entende como a mais correcta. É evidente que é e será sempre uma perspectiva do jogo, aquela que é restituída e publicada. É igualmente certo que um acontecimento tão complexo, num espaço em que o repórter tem necessariamente que estar numa determinada posição, cria condicionalismos na percepção daquilo que se passa. Mas não acontece o mesmo em vários outros sectores da vida pública? E, no entanto, não se exige a todos os jornalistas relatos o mais equilibrados possível? Por outro lado: em matéria tão sensível e controversa como a do caso referido, não seria prudente ser menos categórico e taxativo? Ao tomar como boa a interpretação do repórter, o JN comprometeu-se com uma interpretação que, pelos dados disponíveis, teve de concluir não ser verdadeira.

Relativamente ao caso do leitor, que aqui foi apresentado, o provedor regista que o editor do Desporto do jornal teve o cuidado de o contactar por via electrónica e que não foi desprezado o contributo recebido. Mas o modo como o assunto foi tratado nas páginas do JN, na edição do dia 20 poderia ter tido outra elevação. Este diário só ficava a ganhar com isso.

É muito ARRISCADO SER CATEGÓRICO EM MATÉRIAS CONTROVERSAS’

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