Domingo, 09 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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VOZ DOS OUVIDORES >

Manuel Pinto

13/04/2004 na edição 272

‘Uma andorinha pode fazer a Primavera. Ao contrário do conhecido provérbio, num jornal ou numa revista, meia dúzia de telefonemas, de cartas ou de ‘e-mails’ já fazem mossa. Recordo-me de um caso do tempo em que trabalhava como jornalista no JN. Um domingo, um lapso qualquer levou a que o jornal se tivesse esquecido de publicar o horóscopo. Pela manhã, éramos poucos os que nos encontrávamos na Redacção e coube-nos, por isso, aguentar a tormenta. O telefone tocou vezes sem conta: alguns leitores manifestavam-se indignados com a falta daquilo que era, para eles, sustento e apoio, e outros mostravam-se assumidamente desorientados pelo súbito vazio que assim desabava sobre a sua manhã dominical. O mais provável é que não tenham sido mais de duas dezenas os telefonemas. Mas a ideia que ficou – e que se recortava em situações idênticas – foi a de que um ror de gente se aborreceu, nesse dia, com o seu jornal.

A explicação para este fenómeno de multiplicação de vozes, para este ‘efeito de ampliação’, advém, provavelmente, do facto de, pelo menos, entre nós, não ser muito frequente reagir (para aplaudir ou para protestar) ao que nos proporcionam. De modo que se dois ou três protestos ou louvores já são de assinalar, uma ou duas dúzias adquirem foros de multidão. É como se um valesse por mil. E nós não temos ainda muito difundida a prática, que já é frequente noutros países, de os consumidores e utilizadores dos media se organizarem em ‘lobbies’ para promover campanhas de pressão ou de protesto.

Foi algo de semelhante o que acabou de acontecer com o JN. Uma pequena peça publicada na última página, no passado dia 28 de Março, escrita num tom jocoso e crítico, desencadeou a ira de uma série de apreciadores e cultores do ‘hip hop’. De nada adiantou o facto de o apontamento vir inserido num espaço (‘Caras & Casos’) dedicado a factos pitorescos, a ‘indiscrições’, a comentários sobre figuras conhecidas, frequentemente veiculados, nas palavras do director-adjunto do JN, David Pontes, num ‘registo de escrita muito livre onde se procura a ironia e humor’. A matéria foi considerada achincalhante e ofensiva, quando, como os responsáveis por essa publicação reiteraram aqui na semana passada, o objectivo estava longe de ser esse. Ter havido cerca de dezena e meia de leitores que se dispuseram a ir para o computador e a enviar ao jornal a expressão dos seus sentimentos é, em si mesmo, um facto extremamente positivo e saudável. Assim como é positivo e saudável que o JN não tenha feito ‘ouvidos de mercador’ aos protestos que recebeu.

Há algumas facetas deste caso que suscitam e constituem pretexto para algumas reflexões. Umas dizem respeito aos leitores, nomeadamente aos que lavraram o seu protesto; outras referem-se ao JN e aos media em geral.

Um dos factores que agravou a irritação de alguns dos leitores que se pronunciaram sobre o tratamento dado à revista de ‘hip hop’ deveu-se ao facto de a peça em questão ter sido considerada uma notícia ou, mais amplamente, um tratamento jornalístico do hip hop. Ora, se é verdade que o leitor não tem que dominar com mestria os códigos de cada tipo de escrita, como se passa ou deveria passar com os jornalistas, também não faz mal nenhum – pelo contrário, pode ser bem importante – que tenha presente que os vários géneros jornalísticos têm, cada um deles, funções e objectivos distintos. No caso em análise, a pequena peça, retirada do contexto e da natureza da rubrica em que se inscreve – de sua natureza ligeira, com uma escrita livre, que não chega a ser verdadeiramente uma opinião, e menos ainda uma reportagem ou uma notícia – pode induzir leituras completamente distorcidas. É entendimento do provedor do leitor que, salvaguardado o aspecto aqui referido há oito dias, foi em boa parte o que se passou. De resto, tudo indica que vários dos leitores se sentiram induzidos a reagir não porque tenham folheado o jornal, mas porque o texto em questão foi copiado e posto a circular na Internet, acompanhado do apelo à mobilização.

A Internet é, de resto, um excelente meio para que os leitores possam não só ler o jornal, ou pelo menos o que dele se encontra cada dia ‘on-line’, mas também para interagir com quem o dirige e com quem nele escreve. Foi o que fizeram, neste caso. Esqueceram-se, porém, ou talvez nem soubessem, que o jornal não quer estar de costas voltadas para os seus leitores e que uma das formas que adoptou para escutar os seus comentários, críticas e sugestões é precisamente o provedor do leitor. Ora o facto de os numerosos protestos chegados ao jornal terem sido dirigidos ao provedor, não pelos que os enviaram, mas pelos próprios responsáveis do JN, revela, pelo menos, que estes quiseram levar a sério as críticas recebidas.

Mas há um ponto com que este provedor gostaria de confrontar o JN. Várias das mensagens recebidas, oriundas de adolescentes e jovens, dão conta de uma distância face aos grandes meios de comunicação social que deveria fazer pensar e agir os responsáveis do jornal. Aparece repisada a demarcação de fronteiras entre um ‘nós’ e um ‘vós’ que, não sendo inesperado nem surpreendente, não é tranquilizador. Várias mensagens aludem a um alegado ‘desinteresse total’ dos meios de comunicação por uma ‘cultura’ que seria vista como ‘de pretos, marginais, ignorantes, ladrões’, que não dão ênfase ‘às coisas positivas que por aqui vão ocorrendo’. Uma delas adianta mesmo que ‘o hip hop não é da vossa laia’. Há, no entanto, quem sugira que o jornal corrigiria o ‘tiro’ se passasse a abordar o ‘hip hop’ de forma clara, imparcial e fundamentada, ‘realçando as virtudes e os defeitos’. A linguagem codificada de parte das mensagens recebidas, estilo SMS, exprime o modo como ocorre alguma da comunicação entre estes jovens, que passa muito pelo telemóvel, chats, fóruns, blogs e mails, configurando ‘universos’ que são insuficientemente trazidos para o espaço público.

Um jornal generalista e aberto como é o JN não pode deixar de estar atento a estas formas de expressão dos mais novos. Deverá fazê-lo sem paternalismos nem subserviências, nem preconceitos. Ou seja, deve fazê-lo jornalisticamente. Profissionalmente. O todo social beneficiará em conhecer melhor o que são, querem e fazem as jovens gerações. Os jovens sentir-se-ão porventura reconhecidos na sua identidade e na sua voz. E o jornal sairá com vantagens do investimento nesse terreno.

Ao encontro dos problemas dos leitores

Na terça-feira passada, a manchete do JN era diferente de todos os outros diários portugueses: ‘Escolas fogem a programas para férias’. Nas três páginas seguintes, na secção ‘Em foco’, o tema era desenvolvido tomando como paradigma o caso de Maria, que, uma vez chegadas as férias, ficava fechada em casa, ‘horas a fio, a olhar para o ecrã colorido, pijama vestido, falando para bonecas e espreitando às janelas’. No caso de Maria, condensava-se o drama de milhares de crianças que, uma vez chegadas as férias lectivas, não têm para onde ir. E isto porque boa parte das escolas, fora do tempo de aulas, não fazem – com motivos justificados ou sem eles – o que um despacho ministerial de 2002 prevê. Seja porque não há alternativas, seja porque os pais não as podem pagar, o ‘remédio’ é os filhos ficarem fechados em casa, entregues aos cuidados de um irmão mais velho ou de um vizinho ou pura e simplesmente entregues a si próprios.

As peças publicadas sobre este assunto e o destaque de primeira página que lhes foi dado revelam uma atenção deste diário àquilo que, por si mesmo, não era ‘acontecimento’, mas de que foi feito ‘acontecimento’ quando o jornal decidiu trazer o assunto para a ribalta.

Chamou a atenção para o problema terrível de inúmeros pais e crianças; deu a conhecer exemplos de iniciativa tomadas para enfrentar o problema; publicou testemunhos; ouviu responsáveis. Talvez devesse ter indagado mais sobre o que é preciso fazer para que esta grave situação mude e a quem devem ser pedidas responsabilidades. E eventualmente ter tomado esta iniciativa antes de as férias terem início, a fim de que ainda pudesse surtir efeitos nestes dias.

Seja como for, o JN mostrou, com este trabalho, como um jornal pode assumir-se como um verdadeiro serviço à colectividade. E mostrou igualmente que um jornal não tem de ser um mero espelho das iniciativas de outrem. Ao fazer de uma situação problemática um acontecimento jornalístico está a assumir-se como protagonista da vida pública. Neste sentido, o protagonismo é não só aceitável como bem-vindo.’

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