Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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VOZ DOS OUVIDORES >

Manuel Pinto

12/07/2005 na edição 337

‘O que se passou ao certo na praia de Carcavelos, no último 10 de Junho, dia de Portugal? A resposta é fácil, porque os media repisaram os acontecimentos até à exaustão e não pouparam na carga dramática o que aconteceu foi um ‘arrastão’.

Faz hoje precisamente um mês, a partir do fim da tarde, rádios e televisões chamaram o assunto para a abertura dos seus serviços noticiosos centenas de jovens de idades compreendidas entre os 12 e os 20 anos teriam invadido aquela que é uma das maiores e mais frequentadas praias da linha do Estoril, atacaram os banhistas, roubaram e desapareceram. Cerca de quinhentos, disseram quase todos. Do que se passou não foram divulgadas imagens em movimento. Apenas fotos, em que, no essencial, se vê numerosos jovens negros a correr pela praia.

Da onda de choque que se gerou com tais notícias, todos estarão certamente recordados. O caso chegou à CNN, coisa rara para o nosso país. Uma operação de tais dimensões fazia abater sobre o país um sentimento de insegurança. Políticos e autarcas apareceram de imediato com um ar de catástrofe, chamando a atenção para o facto de a criminalidade ter, com este caso, e por assim dizer, ascendido à primeira divisão. Nos dias que se seguiram ao Dez de Junho, o clima só se adensou, sobretudo depois de ser noticiado, logo no dia seguinte, que um grupo de perto de meia centena de jovens ‘de origem africana’ e provenientes de bairros da zona da Amadora, preparava um novo arrastão, desta vez na praia da Quarteira. Para condimentar e amplificar o caso, era tornado público que sectores nacionalistas e xenófobos estavam a organizar uma manifestação em Lisboa, para sublinhar o ‘orgulho de ser branco’ e em que se fazia equivaler imigração a criminalidade.

Com o passar dos dias, porém, começam a surgir sinais que põem em causa o ‘retrato’ dos acontecimentos da praia de Carcavelos, traçado pela generalidade dos media, incluindo o JN. Feito o balanço de tanto alvoroço, começa a ver-se que praticamente não houve vítimas do célebre ‘arrastão’. A PSP, que terá tido papel determinante na difusão das primeiras notícias do caso, vem reconhecer que a esmagadora maioria dos jovens negros que se viam a correr pela praia fugiam afinal da polícia e apenas escassas dezenas teriam praticado ilícitos. Mais que este tipo de criminalidade não é sequer fenómeno raro na zona. Ao mesmo tempo, são conhecidos testemunhos de pessoas que se encontravam no local que dão uma versão dos factos muito diversa daquela que havia sido difundida.

Chegados a este ponto, somos obrigados a perguntar afinal onde estão o ‘terror’ e o ‘pânico’? Na praia de Carcavelos ou nas televisões, rádios e jornais? Onde está o ‘arrastão’? Teremos, afinal, sido enganados e manipulados pelos media?

É triste dizê-lo, mas a verdade é que, um mês depois, continuamos a não saber. Certamente que algo se passou e que terá havido, pelo menos, alguns focos de medo e até de pânico, numa praia que, em começo de verão e fim-de-semana prolongado, se encontrava sobrelotada, com gente de todas as cores.

A ideia de uma operação concertada dos media, no sentido de manipular e fabricar o acontecimento não faz qualquer sentido. Mas que praticamente todos afinaram pelo mesmo diapasão é indesmentível. Logo há um ‘reflexo’ ou uma ‘lógica’ mediática que leva os distintos meios a formatar, etiquetar e apresentar o acontecimento de modo idêntico, mesmo que os factos disponíveis não permitam fazê-lo. O mimetismo e a concorrência económica não bastam como factores explicativos. A agenda do dia das grandes redacções tinha um assunto considerado pouco interessante do ponto de vista jornalístico – as cerimónias do 10 de Junho. Mas isso só em parte levaria a enfatizar distúrbios numa praia dos arredores da capital. Creio que a indagação deverá ser feita, considerando entre os jornalistas e as percepções do público relativamente aos problemas da segurança e da criminalidade e aos factores causais desses problemas. Há aqui muito trabalho para sociólogos e para estudiosos do jornalismo.

O que se me afigura, todavia, mais grave e injustificável, em todo este caso, nem é que os media tenham feito o que fizeram, no dia 10 e nos dias seguintes. Se a polícia deu informação à agência Lusa e se os media tomaram por boa a informação destas duas instituições, apoiada que estava numas fotos colhidas por fonte não independente, nós podemos admitir que tenham, num primeiro tempo, ‘metido a pata na poça’. Mas já é inaceitável que não tenham começado, de imediato, e perante ocorrência de tamanhas proporções, a bater porta a porta, a interrogar fontes diversas, a recolher depoimentos, a reconstituir os factos. Esse trabalho de casa seria imprescindível em qualquer circunstância se confirmasse o que havia sido dito, permitiria, depois, ir investigar os bastidores do arrastão; se não confirmasse, teria de averiguar igualmente os bastidores do embuste. Em qualquer dos casos, faltou-nos o essencial e os media prestaram-nos, assim, um deplorável serviço.

UM CASO EM QUE OS MEDIA SE PORTARAM DE FORMA DEPLORÁVEL’

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