Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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VOZ DOS OUVIDORES > JORNAL DE NOTÍCIAS

Manuel Pinto

18/07/2005 na edição 338

‘A cidade de Londres passou, em menos de 24 horas, da euforia ao medo. Da exaltação pelo acolhimento dos Jogos Olímpicos de 2012 ao trauma dos ataques terroristas num dos seus pontos mais vulneráveis a rede de metropolitano em hora de ponta. Falam por si as primeiras páginas deste e de muitos outros jornais dos dias 7 e 8 passados. Os chefes das nações economicamente mais poderosas, reunidos na Escócia, na cimeira do G8, que foi certamente o pretexto imediato deste ataque anunciado, ficaram a falar sozinhos.

Os cérebros do terror moderno actuam com armas destruidoras, mas também com símbolos. No 11 de Setembro todos vimos, ao longe e ao perto, a ameaça chegar das alturas. Em Londres, o horror veio das profundidades. A sua eficácia também adveio da invisibilidade. Quando conseguimos ver, criamos a ilusão de que, de algum modo, controlámos e sabemos. Quando um acontecimento é grande, mas quase nada se vê, soltam-se todos os fantasmas.

‘Foi horrível. Parecia o inferno debaixo da terra’, comentava um responsável da Scotland Yard, citado pela peça de destaque do JN, no passado dia 8. Mas nós não vimos quase nada disso. ‘Vimos pouco sangue, quase ou nenhum pânico, pouca destruição nas ruas (?)’, escrevia o director do JN, na sua coluna do dia seguinte. Podemos colocar os atentados de Londres no mesmo plano e na mesma fileira psicológica e simbólica que o 11 de Setembro de 2001 ou o 11 de Março de 2004, embora a escala seja diversa. Com o 7 de Julho, voltamos ao coração e às profundezas de uma grande cidade uma hemorragia interna que vai deixar marcas profundas.

O lugar dos atentados londrinos permitiu às autoridades policiais controlar muito mais facilmente os espaços e a própria informação. A cidade de Londres mostrou que estava preparada e que, diante da tragédia, era capaz de reagir com contenção e sem cenas de pânico.

Nisso os média deram importante contributo, ao assumir, eles próprios, registos e comportamentos de grande cuidado, num misto aparentemente resultante quer do filtro das autoridades quer do consentimento de editores e jornalistas. A ponto de se ter falado e escrito que terá havido censura, neste caso.

Esse debate está por fazer entre nós e, por essa razão, deve ser prosseguido. Ele aflorou, pelo menos em dois momentos, desde o dia 7, nas páginas deste jornal, em duas posições distintas de dois distintos jornalistas José Leite Pereira, director do ‘Jornal de Notícias’, e Judite de Sousa, jornalista e apresentadora da RTP.

O director do JN distingue a censura instituída dos regimes autoritários das ‘peneiras’ que filtram as imagens chocantes, em situações como a de Londres, cujo objectivo é ‘não explorar nem aumentar a angústia decorrente da tragédia’. Mas esta ‘censura limpa, asséptica, pela melhor das causas’ não pode fazer esquecer que ‘essas imagens existem’. O que não se pode, seguindo Leite Pereira, é adoptar uma ‘censura piedosa’, que ‘quase transforma um atentado miserável num grande acontecimento’ e que ‘cala a nossa revolta’. Em suma, um não claro ao exagero e exploração mediáticos, mas um não, igualmente, a este ‘branqueamento’ (o termo não é do director do JN, mas foi utilizado neste caso).

Curiosamente é a jornalista de televisão que entende que, face à inteligência, sofisticação e profissionalismo dos terroristas, ‘a única resposta possível é a contenção em termos de gestão da informação e da utilização das imagens, o que remete para uma nova atitude dos média face ao terrorismo’. Judite de Sousa concorda, por isso, que não tenham sido mostradas ‘imagens de cadáveres, de corpos desmembrados e, mesmo, as imagens que poderiam exacerbar as emoções’, supondo que tenham existido tais imagens. ‘Mais importante do que mostrar o que aconteceu é pensar nas consequências do acontecimento até para evitar que os terroristas utilizem os média como instrumentos da sua cruzada contra o ocidente’, explica a jornalista.

Contrapõem-se aqui dois argumentos. No primeiro caso, considera-se que toda a limitação ou doseamento da informação traz implícita a ideia de paternalismo e de menoridade dos cidadãos, incluindo os jornalistas. No segundo, entende-se que as imagens – porque é sobretudo das imagens que se trata – divulgadas sem qualquer filtro ou (auto-)limitação ampliam desnecessariamente o sofrimento e podem fazer o jogo dos terroristas. Ou seja, ambas as posições assentam em valores essenciais da cidadania. Nem todas as culturas se pautam por idênticos padrões de sensibilidade face ao difícil jogo de equilíbrio entre as duas ordens de ‘razões’.

Judite de Sousa considera que ‘o terrorismo impõe uma nova deontologia e uma nova prática jornalística’. Julgo que o terrorismo impõe igualmente a procura de novas formas de exercer a cidadania. Com mais vozes a participar nesse exercício.

Um jornalismo mais participado pelos cidadãos

Aquilo que, numa situação de (auto-)controlo informativo dos grandes média, é cada vez mais difícil de controlar é a multiplicação de vozes e de imagens através da Internet. Com os ataques ao metropolitano de Londres, entraram em acção as câmaras digitais e os telemóveis de terceira geração, que permitem fotografar, gravar e enviar imagens vídeo para os mais diversos tipos de destinatários.

Já tínhamos visto algum sinal disso aquando do tsunami, no final de 2004. Mas, nessa ocasião, foram sobretudo as câmaras digitais que se revelaram, nas mãos dos turistas, de uma eficácia extraordinária, logo aproveitada pelos meios de comunicação. Desta vez, mergulhados nos túneis e presos nas carruagens, os cidadãos recorreram às tecnologias que, cada vez mais, nos acompanham no quotidiano e, logo que lhes foi possível, disponibilizaram imagens e testemunhos em weblogues ou em espaços construídos pelos grandes média especificamente para a participação dos cidadãos. Menos de duas horas depois das explosões, o ‘Technorati’, um site que rastreia o que dizem mais de 14 milhões de weblogues, já contabilizava para cima de 1300 textos. Alguns desses documentos tornaram-se matéria de primeira página nas televisões e na imprensa.

Relatos dos que foram surpreendidos ou mesmo apanhados pelos efeitos das explosões, indicações úteis sobre o trânsito ou como voltar para casa, até ao comentário sobre o modo como as televisões estavam a cobrir a situação – esses espaços individuais ou de grupo na Internet revelaram, uma vez mais, as potencialidades de um jornalismo mais participado e menos unidireccional.

A participação dos cidadãos no jornalismo, fenómeno que um livro recente editado em Portugal ajuda a compreender melhor (‘Nós os Media’, Ed. Presença, 2005), amplia e diversifica, mais do que ameaça o jornalismo tradicional. Obriga a recolocar e a repensar de raiz o papel do jornalismo, o que só pode ser salutar.

Ao contrário, porém, do que se pensa e diz frequentemente, não se faz jornalismo porque se dispõe de acesso às tecnologias e à rede da Internet. Na melhor das hipóteses, tal acesso facilita as coisas e permite enriquecer e fazer crescer a informação disponível e o leque de intervenientes. Mas o jornalismo é mais do que um somatório de ‘pólos de enunciação’, é mais do que informação – isso existe nos bancos de dados, nos arquivos, nas bases estatísticas, nas bibliotecas, etc.. O jornalismo é edição de informação de actualidade e de interesse público, validada por processos vários de verificação. E isso exige tempo, competências, critérios e ? dinheiro. O que não quer dizer que não se devam acompanhar com atenção as experiências que, um pouco por todo o lado, estão a ser desenvolvidas.’

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