Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > JORNAL DE NOTÍCIAS

Manuel Pinto

25/10/2005 na edição 352

‘Serão os weblogues uma forma de jornalismo? Continuariam os jornalistas a ser necessários, se, por hipótese, qualquer cidadão pudesse tornar-se jornalista ou, ao menos, difusor de informações e comentários sobre si, o seu grupo ou comunidade de pertença? Estará a blogosfera a ameaçar a profissão de jornalista, instituindo uma relação directa entre fontes e audiências?


São perguntas que têm surgido, ao ritmo com que surgem algumas das inovações tecnológicas no plano da comunicação, originando polémicas ainda não suficientemente clarificadas.


Há oito dias, perguntava, neste espaço, o leitor e ex-jornalista Luís Santos ‘como estão os media tradicionais a aproveitar o potencial dos blogues’. A questão que enderecei a vários jornalistas do JN não anda muito longe desta como é que, a partir da Redacção de um grande jornal, como é o JN, são vistos os blogues e de que modo podem eles constituir um empecilho ou uma potencialidade para o trabalho dos jornalistas?


De cinco inquiridos, responderam três – Inês Cardoso, Paulo Martins e Alfredo Leite – e nas três respostas se nota um misto de interesse e de cautela interesse pelo fenómeno em si e pela diversidade desta nova fonte; cautela pela natureza não filtrada dos materiais disponibilizados nos blogues.


De facto, a temática dos blogues como fontes de informação e a reflexão sobre a natureza dessas mesmas fontes recorta-se como um dos problemas mais importantes que estes jornalistas identificam. Funcionando como ‘uma espécie de canal aberto, onde se pode ler sobre todos os temas e mais um’, os blogues constituem, para Inês Cardoso, uma ‘informação que não pode ser ignorada e que pode ser um bom ponto de partida para um determinado trabalho’. Em alguns casos, neles se encontram comentários que ‘mesmo fontes trabalhadas ao longo do tempo se escusam a tecer’. Paulo Martins também reconhece utilidade aos blogues, ‘em especial por proporcionarem um espaço de debate e, por essa via, de exercício de cidadania’.


Mas há um reverso da medalha que os três respondentes sublinham a natureza não filtrada dos blogues. ‘Sendo um espaço de liberdade, de exposição intimista de posições, comentários, tudo o que se queira’, anota Inês Martins, existe sempre o risco de se valorizar excessivamente ‘informações sem fundamento, pistas que se revelam falsas ou enganadoras’. Não se pode ‘apanhar tudo o que vem a rede’… só porque está na ‘rede’, salienta Paulo Martins.


Falando exclusivamente dos weblogues com interesse jornalístico (nomeadamente os de análise e reflexão sobre os media, de intervenção política ou de ‘comunidades’, como os que debatem a vida nas nossas cidades (*) ou os temas de interesse para uma determinada corporação), Alfredo Leite considera que ‘a maioria da blogosfera nacional vive ainda a ‘idade da adolescência’, pelo que, ‘do ponto de vista do utilizador, a partir de uma redacção de um jornal como o JN (?) o importante é retirar o que de bom tem a irreverência da adolescência, observando com cuidado os seus excessos e também os perigos de consumir de uma informação não filtrada, directamente da fonte’. ‘Nos blogues, como em tantas outras fontes de informação ou fóruns de reflexão, o importante é avaliar a sua credibilidade, afinal, um dos parâmetros mais importantes para o exercício do jornalismo’, precisa Alfredo Leite.


Paulo Martins admite que a blogosfera pode contribuir para melhorar o trabalho dos jornalistas e que, de facto, é lá que alguma informação e comentário são buscados e aproveita para, neste contexto aludir a um problema sensível, que é motivo de queixa de muitos ‘bloggers’ ‘a obrigação de citar a fonte’.


Alfredo Leite, que diz observar ‘com bastante atenção o desenvolvimento do fenómeno ‘bloguístico’, sobretudo em Portugal, antevê um cenário que tem por ‘inevitável’ entre nós, seguindo ‘uma tendência crescente nos Estados Unidos ou no Brasil’ ‘os sites da grande imprensa a disputar, em breve, o alojamento dos blogues mais conceituados’. Isso poderia vir a acontecer relativamente aos poucos blogues que considera ‘adultos, ou suficientemente credíveis’.


(*) A propósito deste assunto, o leitor Tiago Azevedo Fernandes enviou por correio electrónico uma mensagem ao provedor do leitor, no qual destaca o papel do blogue ‘A Baixa do Porto’ ( http//porto.taf.net/ ) . Trata-se de um ‘local de acesso público onde qualquer pessoa pode publicar a sua opinião desde que diga respeito à cidade do Porto e esteja expressa em termos minimamente civilizados’. Para este leitor, que é também animador do blogue, estamos perante ‘um exemplo da capacidade real de intervenção da sociedade civil na vida do Porto quando se usam as ferramentas adequadas’.


Na Internet como na pesca, ‘nem tudo o que vem à rede é peixe’’

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