Sexta-feira, 24 de Janeiro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1071
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VOZ DOS OUVIDORES >

Marcelo Beraba

08/06/2004 na edição 280

‘Duas notícias desta semana interessam às empresas jornalísticas e, por tabela, aos leitores que consomem informações, serviços e entretenimentos. A Folha deu mal as duas.

Em Istambul, na Turquia, a Associação Mundial de Jornais (WAN, em inglês) divulgou o balanço do desempenho da imprensa escrita em 2003, e o resultado não foi bom. Em Brasília, o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) encaminhou à Comissão de Educação do Senado a proposta do banco para o socorro às empresas de comunicação endividadas. É menos do que queriam.

Circulação em queda

O levantamento feito pela WAN indica que a circulação mundial dos jornais caiu 0,12% em 2003. A queda só não foi maior porque cresceram muito as vendas em vários países asiáticos, como China e Índia. No resto do mundo, o cenário é de queda. Ou de estabilidade, o que é considerado um ótimo resultado.

No Brasil, os jornais deixaram de vender no ano passado uma média de 500 mil exemplares por dia. Em 2000, eles vendiam 7,88 milhões; em 2002, 6,97 milhões; e no ano passado, 6,47 milhões.

Numa série histórica longa, os jornais brasileiros ainda têm um desempenho positivo. Em 1990, por exemplo, vendiam cerca de 4,27 milhões por dia. A queda contínua começa em 2001. A perda nos últimos cinco anos é de 10,7% e afetou principalmente os grandes jornais. Os 15 maiores diários brasileiros tiveram uma queda de 18,1% entre 2001 e 2003.
O que explica tamanha retração? Mudanças de hábitos, preços, concorrência. Em vários países do mundo, o advento de jornais gratuitos, distribuídos nos transportes de massa, causou mais estragos do que a chegada de novas formas de difusão de notícias. Os jornais discutiram nos últimos anos como enfrentar a internet e acabaram sócios. Estão agora diante de um novo desafio, que é a onda ‘mobile’, dos celulares e dos computadores sem fio.

No Brasil, a discussão sobre a queda de circulação dos jornais tende a ficar restrita à qualidade. Mas é evidente que outros fatores também têm pesado, como a queda de renda da população e o enfraquecimento financeiro das empresas, praticamente impedidas de fazer novos investimentos.

As empresas jornalísticas tradicionais terão de fazer algo mais do que esperar a retomada do crescimento. Como os jornais de outros países, precisam pensar em novos conteúdos, novos padrões de qualidade, novas estratégias para manter leitores e atrair os jovens.

O socorro

E, já que toquei na crise, vamos ao assunto mais delicado. O presidente do BNDES, Carlos Lessa, encaminhou para o Senado a proposta do banco para socorrer as empresas de comunicação endividadas. O programa, que não depende da aprovação do Senado para ser tocado pelo governo, ainda provocará muita polêmica.

A proposta encaminhada para a avaliação dos senadores é bem diferente da apresentada pelas empresas de comunicação quando procuraram o banco, meses atrás. Elas queriam uma linha especial de crédito de R$ 5 bilhões para refinanciar as dívidas do setor (calculadas em R$ 10 bilhões), juros de 1,5% e um prazo de dez anos para pagar.

O que o BNDES está oferecendo são R$ 2,5 bilhões, juros de 5% (mais as taxas dos agentes financeiros) e um prazo de cinco anos para a liquidação da dívida. O BNDES acredita ainda que será possível obter das empresas, tradicionalmente fechadas e predominantemente familiares, mudanças de gestão para torná-las mais transparentes e fiscalizáveis.

É certo que as pressões no Senado e sobre o BNDES serão fortes e diversas. Entre as próprias empresas há as que acham que o governo não deveria emprestar para o setor pagar dívidas. E há as que acham que o governo está oferecendo pouco. A novidade é que, desta vez, tudo parece correr às claras. O que é um bom sintoma.’

***

‘‘A veiculação de notícias às vezes me esmaga’’, copyright Folha de S. Paulo, 6/6/04

Carlos Lessa, presidente do BNDES, está envolvido diretamente na formulação do programa de financiamento para as empresas de comunicação. Ele é economista, tem 67 anos, foi reitor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), define-se como desenvolvimentista e se declara ‘leitor compulsivo de livros e jornais’.

Ombudsman – Por que o BNDES tem de emprestar dinheiro para as empresas de comunicação financiarem suas dívidas? Não significa favorecer um setor que tem forte poder de pressão?

Carlos Lessa – O BNDES não tem nenhuma tradição de atuar no segmento. O que nos sensibiliza é o fato de o segmento ser integrado por mais de 2.000 empresas, se somarmos jornais, revistas, radiodifusão e televisão. E o volume de emprego é uma variável não perfeitamente estimada, mas há quem fale em 500 mil empregos diretos e indiretos. O interessante é que emprega desde mão-de-obra não-qualificada até a mais qualificada possível, passando pelo lado tecnológico e pelo lado criativo. Esse setor tem uma outra característica muito importante. Ele é o difusor dos conteúdos que afirmam a identidade de uma nação. Então não podemos deixar esse setor se atrofiar, se desestruturar e eventualmente perder a sua identidade.

A prática da democracia exige que esse setor exista até mesmo com as suas incongruências, as suas divergências, as suas variedades.

O ponto importante é que nós, do BNDES, não queremos ser o balcão disso. Se esse programa vier a ser aprovado, ele será operado por agentes do sistema financeiro, pelos bancos. Quem vai analisar o risco do empréstimo e decidir emprestar ou não serão os bancos.

Ombudsman – Esse tipo de socorro não reforça o modelo que tende para a concentração e o oligopólio?

Lessa – Creio que não. Uma linha como essa é uma linha que deve ligar desde a microscópica empresa até a maior do setor. Não há nenhuma orientação preferencial para nenhum tipo de empresa. Um ponto importante é o seguinte: nós financiamos empresas, não pessoas. E a cultura do setor historicamente é muito associada a pessoas. Tanto que, para atender as regras bancárias de um BNDES, as empresas terão de tomar uma série de providências, como auditoria regular e governança corporativa.

Ombudsman – Significa dizer que essas empresas hoje não têm transparência?

Lessa – Significa dizer que, para o BNDES apoiar, tem de ter uma transparência, que é o normal nas operações dos bancos. O programa pode ser pedagógico na gestão das empresas

Ombudsman – O senhor lê jornais?

Lessa – Leio. O meu problema é que ultimamente não consigo tempo nem para respirar.

Ombudsman – Gosta do que lê?

Lessa – Eu sou um leitor compulsivo de livros e jornais.

Ombudsman – O senhor tem prazer de ler os jornais?

Lessa – Eu tenho prazer de ler muitos cronistas e alguns editorialistas. A veiculação de notícias, eu confesso a você, às vezes ela me esmaga por ser tão superabundante e tratada com tanta ligeireza que em certos momentos ela me parece um pouco excessiva.’

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