Sábado, 20 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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VOZ DOS OUVIDORES >

Marcelo Beraba

20/07/2004 na edição 286

‘A Folha é provavelmente o jornal brasileiro que mais publica correções. Apenas no primeiro semestre deste ano, foram 551, o que dá uma média aproximada de três erros de informação reconhecidos por dia. Mas o tempo que leva para editar suas emendas é demasiadamente longo, em alguns casos desrespeitoso.

Levantamento feito pelo setor de Pesquisa do Banco de Dados do jornal na edição São Paulo, a meu pedido, mostra que, em média, um erro leva quase nove dias para ser reconhecido pela Redação e corrigido na seção ‘Erramos’, na página A3.

O recorde nesses seis meses pesquisados é do caderno dominical Mais!. Seus erros foram corrigidos, em média, depois de duas semanas de terem sido publicados. Grandes editorias diárias como Brasil, Ilustrada, Cotidiano e Dinheiro levam em média de dez a 12 dias para retificar um erro.

É muito tempo, mesmo levando em conta que uma correção não deve ser automática porque às vezes exige um trabalho de checagem para saber se é erro mesmo ou não. Pior que uma correção é a correção da correção.

Mas a cautela não explica, por exemplo, como o erro em uma legenda de foto publicada na coluna ‘Mônica Bergamo’ tenha levado exatos 126 dias para ser corrigido. E saiu assim, no dia 8 de março: ‘Diferentemente do publicado na coluna ‘Mônica Bergamo’ do dia 3/11/03 (Ilustrada, pág. E2), o nome da foto de Nan Goldin é Valerie Crying, 2001, Paris; a foto está à esquerda da página, e não à direita’. Quem há de se lembrar do que se trata, exceto os diretamente prejudicados?

Esse é caso mais demorado nos seis meses analisados deste ano. Mas há outros igualmente incompreensíveis.

O Mais!, já citado, levou 101 dias para reconhecer um erro geográfico: ‘Diferentemente do que informou legenda na pág. 13 do caderno Mais! em 2/11, Kuala Lumpur não fica na Indonésia. A cidade é a capital da Malásia’.

O caderno Dinheiro tem um mais grave. Levou 88 dias para publicar a seguinte correção: ‘O texto ‘Mulher negra tem pior situação no mercado de trabalho’ (Dinheiro, pág. B4, 19/11/2003) informou incorretamente que, em São Paulo, as mulheres negras levam, em média, 14 semanas para encontrar emprego, enquanto os homens não-negros demoram 12 semanas. De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Ecônomicos), ambos gastam o mesmo tempo à procura de trabalho: 12 meses, em média -e não semanas’.

Quem utilizou o jornal como fonte nesse período reproduziu o equívoco. Se foi numa prova de vestibular, o erro pode ser fatal. Veja esse outro caso, corrigido depois de 70 dias: ‘Diferentemente do que foi publicado em ‘O movimento de 1964 e as formas de resistência’ (Fovest, 29/1, pág. Especial 7), a TV Excelsior organizou festivais de música popular brasileira somente em 1965 e em 1966. Em 1967 e em 1968, eles foram organizados pela TV Record’.

Há um outro em que tive que me envolver diretamente porque tinha participado da apuração antes de ser nomeado ombudsman. Mesmo com as cobranças, foram 73 dias até a editoria reconhecer que errara: ‘Diferentemente do publicado nos textos ‘Perícia identifica diálogos de Waldomiro’ (Brasil, pág. A9, 23/ 3) e ‘CPI decide fazer acareação entre Waldomiro e empresário do jogo’ (Brasil, pág A6, 15/4), o publicitário Armando Dile, apontado como beneficiário de propina pelo ex-assessor do Planalto Waldomiro Diniz, não morreu em um acidente de trânsito, mas de aneurisma cerebral -no dia 21 de dezembro de 2002’.

É verdade que há erros graves e erros leves, mas todos devem ser retificados com presteza porque o jornal é uma fonte de informação e de prestação de serviços.

O levantamento feito pelo Banco de Dados mostra uma preocupação maior com a correção rápida em três áreas do jornal. O Guia da Folha, revista de bolso que circula às sextas-feiras na cidade de São Paulo com a programação cultural e de entretenimento, corrige seus erros quase em tempo real, com uma média que não chega a dois dias. Como a revista é impressa de quarta para quinta-feira, é possível fazer uma checagem dos erros e corrigi-los na própria sexta-feira.

Os outros dois casos são os que têm a obrigação de dar exemplo para o resto da Redação: a Primeira Página e Opinião, que redige os editoriais. Ambos levam em média três dias.’

***

‘Sem eufemismos’, copyright Folha de S. Paulo, 18/7/04

‘A secretária de Redação Suzana Singer explica que parte da demora na publicação de retificações pode ser atribuída aos procedimentos internos do jornal: ‘Temos uma série de controles internos para checar até informações que nem foram questionadas pelos leitores. Todas as correções passam pelas editorias responsáveis antes de serem publicadas.

É uma forma de descobrirmos a origem do erro. Esse processo leva algum tempo porque muitas vezes os casos são complicados’. Mas ela mesma considera que esse tempo não pode resultar em protelação: ‘É obrigação da Redação agilizar ao máximo esse procedimento para que o leitor tenha informação corrigida o quanto antes’.

O jornal criou, em fevereiro de 1991, a seção ‘Erramos’ (na pág. A3), onde concentra as suas emendas. Foi a forma escolhida para dar visibilidade às correções e facilitar a sua localização.

O ‘Manual da Redação’ recomenda que os erros sejam retificados ‘sem eufemismo’ e que a retificação deve ser publicada ‘assim que a falha for constatada, mesmo que não haja pedido externo à Redação’.

Como vimos, o processo não é tão simples. No dia 30 de abril, o coordenador do Programa de Qualidade, Rogério Ortega, distribuiu para todos os jornalistas da Folha um comunicado em que relembrava que ‘os editores têm cinco dias úteis para encaminhar ao ‘Painel do Leitor’, as erratas solicitadas pelo Programa de Qualidade -ou para contestá-las, quando for o caso’. Diz ainda o comunicado que, se esse prazo findar sem nenhuma manifestação dos editores, o jornal publicará o ‘erramos’.

O jornal publicou no primeiro semestre do ano passado 528 correções. Neste ano, foram 551. Isso mostra que há uma disposição da Folha em acertar. Precisa ser mais rápida.’

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