Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

24/08/2004 na edição 291

‘A revista ‘IstoÉ’ publicou, na semana passada, uma reportagem de capa em que pretende fazer justiça ao ex-deputado Ibsen Pinheiro, cassado em maio de 1994 pela Câmara. Na capa, em letras fortes, a revista considera que Ibsen foi ‘massacrado’: ‘Como o mau jornalismo transformou US$ 1 mil em US$ 1 milhão e levou à cassação de um forte candidato a presidente do Brasil’.

Dentro, a revista traz o seguinte enunciado: ‘A verdade aparece – Onze anos depois de ser cassado, Ibsen Pinheiro descobre que mau jornalismo provocou seu martírio’.

A principal peça de revisão do julgamento do político é um depoimento de Luís Costa Pinto, em 1993 repórter da revista ‘Veja’, em Brasília. No texto, cedido por Ibsen à ‘IstoÉ’, Pinto declara que recebeu de Waldomiro Diniz, então assessor da CPI do Orçamento, a informação de que Ibsen transferira US$ 1 milhão de um conta da Caixa Econômica Federal para outra, também sua, do Banrisul. Pinto não refez a operação da conversão da moeda para o dólar e enviou a informação, como a recebeu, à edição. Ainda segundo ele, de madrugada o programa de checagem da ‘Veja’ percebeu que a conversão estava errada e que Ibsen transferira apenas US$ 1.000.

Segundo Luís Costa Pinto, mesmo assim a revista decidiu distribuir a edição com a reportagem errada. Ele atribui a esse fato a cassação de Ibsen. ‘O texto de ‘Veja’ repercutiu nos jornais por dois dias, a dolarização incorreta foi protocolarmente corrigida pela CPI na semana seguinte, mas Ibsen fora arrastado definitivamente para o centro das investigações.’

Contestação

Há algo de errado nessa revisão da história e, antes que vire um novo caso emblemático da irresponsabilidade da imprensa, é bom que seja mais bem estudado e analisado.

Não tive condições de fazê-lo como gostaria, mas há alguns aspectos que precisam ser levados em conta. Li os depoimentos e artigos que saíram ao longo da semana e busquei, no Banco de Dados do jornal, as edições de ‘Veja’, ‘IstoÉ’ e da Folha daquele período, novembro de 1993.

O fato que mais chama a atenção está no depoimento do jornalista Adam Sun. Segundo Luís Costa Pinto, Sun teria detectado o erro, avisado à direção da revista e, mesmo assim, a revista teria rodado com a cifra milionária.

Adam contesta o depoimento de Luís Costa Pinto. Segundo ele, houve de fato, naquela madrugada, a detecção de um erro de conversão de moeda, mas não daquela ordem de valores e, segundo garante, por essa razão a informação foi descartada e não constou da reportagem final.

O valor de US$ 1,1 milhão que a ‘Veja’, a Folha e outros jornais utilizaram não provinha da transferência entre as duas contas de Ibsen, que realmente era insignificante, mas da sua movimentação bancária entre 1989 e 1993.

A ‘IstoÉ’ não usou esse total, mas relacionou, na edição que circulou na mesma semana da reportagem da ‘Veja’, valores movimentados por Ibsen que chegavam perto da cifra de US$ 1,1 milhão fornecida pela CPI.

Esse número foi corrigido nos dias que se seguiram, mas o valor que permaneceu ainda era alto. Ibsen conseguiu explicar algumas movimentações, não todas. E sua situação complicou-se.

Ambiente político

Não foi o erro do repórter – que, segundo a ‘Veja’, nem sequer foi publicado – que cassou o mandato de Ibsen Pinheiro. Ele foi cassado, segundo a representação da Mesa da Câmara, porque ‘comprovou-se a prática de atos passíveis de caracterizar incompatibilidade com o decoro parlamentar, notadamente o enriquecimento sem causa e prática de infração fiscal’.

Ibsen era acusado de ‘movimentação bancária e variação patrimonial não condizente com os rendimentos declarados’, de remessa de dinheiro para o exterior e de sonegação fiscal.

É possível que ele fosse inocente e que o julgamento tenha tido um curso exclusivamente político? É possível. O momento era extremamente tenso e radicalizado. Mas a história dos 1.000 dólares que viraram um milhão não se encaixa bem até agora.

A antropóloga Carla Costa Teixeira, da UnB (Universidade de Brasília) e do Núcleo de Antropologia da Política, estudou o caso Ibsen Pinheiro no livro ‘A Honra da Política – Decoro Parlamentar e Cassação de Mandato no Congresso Nacional (1949-1994)’, editado em 1998 pela editora Relume Dumará.

A propósito da cassação do deputado, ela escreveu: ‘(…) suas explicações truncadas, a contratação de uma empresa particular de auditoria para ajudá-lo a explicar sua movimentação bancária e os seguidos adiamentos de seu depoimento à CPI foram decisivos para o domínio crescente de uma opinião, dentro e fora do Congresso Nacional, pela sua culpa’.

Denuncismo

Não há dúvida de que a imprensa, e não só a ‘Veja’, errou na época. Não sei se nesse episódio, mas é certo que a corrida pela informação exclusiva e o que se convencionou chamar na época de ‘fúria denuncista’ provocaram erros não corrigidos e injustiças.

No caso levantado pela ‘IstoÉ’ na semana passada, de concreto mesmo, até agora, vejo dois pontos. Primeiro, Luís Costa Pinto errou, porque ele mesmo confessou um erro. Segundo, não foi esse erro confessado que condenou e cassou o mandato de Ibsen Pinheiro. No mais, como disse, é uma história que precisa ser mais bem contada.’

***

‘Um retrato da corrupção’, copyright Folha de S. Paulo, 22/8/04

‘Os jornais vivem um eterno dilema: quando persistem na cobertura de casos de corrupção, os leitores reclamam do excesso de notícias negativas; quando diminuem as denúncias, os mesmos leitores os acusam de acobertar os escândalos.

É normal e, desde que me entendo por jornalista, tem sido assim. O ponto é este: os jornais dão a atenção devida ao assunto, cumprem a contento uma de suas funções sociais, que é o de vigiar o destino dos recursos públicos? Mais ou menos.

A Transparência Brasil publicou na semana passada um estudo, ‘Noticiário sobre Corrupção em Jornais Diários: um Retrato das Desigualdades Brasileiras’, que mostra como essa cobertura varia de Estado para Estado e é irregular. A íntegra do estudo pode ser encontrada em www.deunojornal.org.br.

Durante o período analisado, de 14 de julho a 13 de agosto, foram contadas 2.865 reportagens sobre corrupção em 56 jornais diários de todos os Estados. Essas reportagens trataram de 213 casos e assuntos correlatos.

Um terço das reportagens (1.048) foi publicado nos jornais de São Paulo, do Rio e de Brasília. Na outra ponta, jornais de Mato Grosso do Sul, Rondônia, Amazonas, Roraima e Sergipe publicaram juntos 139 reportagens, ou 5%.

Os números mostram uma vigilância rarefeita nos Estados do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste. Em Mato Grosso do Sul foram editadas, nos jornais locais, ao longo de um mês, 21 reportagens que de alguma maneira sugeriam suspeita de corrupção. E assim mesmo, em textos curtos.

Outro problema que a pesquisa mostrou é a falta de continuidade das coberturas. Os jornais começam os casos, fazem grandes estardalhaços, e os esquecem. Segundo o estudo, apenas 35% dos 213 casos cobertos no período ficaram mais de dois dias nas páginas dos diários.

Na Folha, volta e meia isso acontece. Agora mesmo, o caso Kroll, reportagem exclusiva do jornal que mostrou que a espionagem entre empresas privadas atingira figuras públicas e que foi manchete dias seguidos, desapareceu do noticiário.’

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