Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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VOZ DOS OUVIDORES >

Marcelo Beraba

13/06/2005 na edição 333

‘A semana da Folha teve dois campeões de audiência, ambos publicados na segunda-feira: a entrevista exclusiva em que o deputado Roberto Jefferson mergulhou de vez o governo Lula numa crise sem precedentes e o relato, na coluna Mônica Bergamo, da inauguração, no sábado, da nova loja Daslu em São Paulo. Começo pelo escândalo político.

O principal fato da semana foi a entrevista concedida pelo deputado à editora do ‘Painel’, Renata Lo Prete. A manchete do jornal resume o teor bombástico das declarações de Jefferson: ‘PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson – Presidente do PTB, envolvido no escândalo dos Correios, afirma que avisou Lula e ministros de esquema de compra de apoio’.

A denúncia, que atingiu diretamente o presidente, aprofundou a crise do governo, obrigou o Planalto a ficar de vez na defensiva, esgarçou o relacionamento do PT com os outros partidos aliados e tornou irreversíveis as investigações de corrupção no governo e no Legislativo.

Recebi muitas mensagens protestando contra a publicação da entrevista por entender que o deputado tem um passado polêmico e não apresentou provas das denúncias que fez. Discordo. A importância do cargo de Roberto Jefferson e seu envolvimento direto com o governo petista legitimam a entrevista.

O PTB era um dos principais partidos da base de apoio ao governo Lula. Cabe agora ao governo e ao Congresso investigar. O jornal cumpriu o seu papel.

A minha avaliação é que a Folha se comportou bem nesta primeira semana. Houve a nítida preocupação, principalmente nas manchetes e chamadas da primeira página, de evitar títulos sensacionalistas.

O jornal tem agora outros desafios, além de perseguir de forma obsessiva o equilíbrio. O principal deles é realizar um trabalho jornalístico próprio, ou seja, que não dependa do jogo de interesses e pressões que marcarão os trabalhos da CPI.

O papel da imprensa é fundamental no combate à corrupção. Mas, para isso, é necessário que os jornais trabalhem com seus melhores quadros e não se cansem de investigar e de checar e rechecar as informações. Como escrevi em outra coluna, é em momentos como este, de intensa competição por informações exclusivas, que a imprensa pode cometer grandes erros.’

***

‘… e a nova Daslu’, copyright Folha de S. Paulo, 12/6/05.

‘Nada pode ser comparado em luxo à nova Daslu, a julgar pelas colunas sociais que a descrevem como ‘o maior templo de consumo do país’ e ‘o maior parque de diversões dos endinheirados brasileiros’.

E nada pode ser comparado com a cobertura que a Folha deu ao empreendimento, inaugurado no fim de semana (dias 4 e 5) para convidados, mas que já vinha sendo bem noticiado ao longo dos últimos meses.

Um levantamento feito pelo Banco de Dados registrou, só neste ano, 21 notas nas colunas ‘Mônica Bergamo’ (Ilustrada) e ‘Mercado Aberto’ (Dinheiro), cinco reportagens (em Cotidiano e Dinheiro), uma coluna inteira de domingo na ‘Mônica Bergamo’ (24 de abril) e uma chamada na capa do jornal.

Isso antes da inauguração. No fim de semana da abertura da loja e nos dias que seguiram, a Folha publicou mais três colunas (meia página no sábado, uma página inteira na segunda e uma entrevista na terça) e duas reportagens em Cotidiano e Veículos.

Na quarta-feira, a loja e seus principais parceiros inundaram a Folha e o ‘Estado’ de anúncios. Contei nove na Folha.

Na quinta-feira, foram publicados dois textos críticos: a reportagem ‘Morador de favela vizinha à Daslu pede ajuda’ e um comentário da colunista Danuza Leão, ‘Daslu: um outro mundo é possível’.

Por mais que se entenda o interesse jornalístico num empreendimento econômico com a dimensão da nova Daslu e com suas características de opulência e ostentação, o volume de papel gasto pela Folha é um exagero.

Nenhum outro grande projeto de luxo, como a nova ala do Shopping Iguatemi (2004), o Hotel Fasano (2003) ou o Pátio Higienópolis (1999), mereceu tamanha cobertura.

É evidente que recebi muitas mensagens de leitores questionando o espaço dado pelo jornal e a falta de um enfoque crítico na maioria das reportagens e notas. O maior número de críticas foi provocado pelo relato da inauguração da loja publicado na coluna ‘Mônica Bergamo’ da segunda-feira, no dia 6.

No texto, ‘Com Alckmin, passeando na Daslu’, a jornalista acompanha os convidados VIPs pelos andares da loja e pinça preços (um casaco de pele custa R$ 54.580) e detalhes que comprovam o exclusivismo do projeto. No final, ela descreve a pressa da primeira-dama, que tem de correr para o Palácio Bandeirantes para trocar de roupa (‘colocar um jeans’) para o próximo compromisso, um evento ‘em que caminhões de vários bairros entregarão agasalhos doados para as crianças pobres da cidade enfrentarem o inverno que se avizinha’.

Na quarta-feira, o jornal publicou duas cartas no ‘Painel do Leitor’ com críticas ao empreendimento e à presença do governador de São Paulo na inauguração, mas com elogios ao texto. Uma delas achou que a reportagem revelou ‘o porquê de o Brasil ser o segundo país com maior desigualdade social do mundo’. A outra considerou a coluna ‘uma aula completa de sociologia e de antropologia política sobre a nossa elite e seus serviçais’.

Nem todos fizeram a mesma leitura. O professor Tony Queiroga, do Rio, enviou mensagem ao ombudsman em que perguntava: ‘Em momento tão delicado da vida pública nacional, com escândalos de desvios e mau uso do dinheiro público (…), a mídia dar tanto destaque à ostentação esquizofrênica da nova loja da Daslu não é um pouco de exagero? Ela, de certa forma, não corrobora para que esse tipo de acontecimento seja incentivado cada vez mais? (…) Ou será que a postura da Folha é a de evidenciar esse traço para que ele possa ser mais bem entendido e criticado?’.

A Redação não quis comentar a crítica ao espaço dado ao assunto ao longo dos meses. Mas a jornalista Mônica Bergamo falou sobre o seu trabalho: ‘O objetivo perseguido pela equipe da coluna é oferecer ao leitor informações sobre o universo do poder político, econômico, cultural e social do país. É retratar, em especial, os personagens desse universo, ou o que chamamos de elite, em todas as suas dimensões: o que essas pessoas fazem publicamente, quais são suas opiniões, como vivem. A Daslu faz parte do cotidiano de muitos desses personagens e é até um símbolo de boa parte desse universo.

Na reportagem sobre suas novas instalações, procuramos relatar da forma mais objetiva possível o que é a Daslu, o que é vendido em suas lojas, quais são os preços cobrados, não para que o empreendimento possa ser ‘entendido e criticado’, como diz o leitor, mas para que possa ser simplesmente conhecido, cabendo a cada um julgá-lo de acordo com seus próprios valores e convicções’.

Na sexta-feira, os jornais informaram que, segundo o banco Merrill Lynch, o número de milionários (pessoas com mais de US$ 1 milhão investido) brasileiros pulou de 92 mil em 2003 para 98 mil em 2004.’

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