Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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VOZ DOS OUVIDORES >

Marcelo Beraba

20/06/2005 na edição 334

‘A crise que debilitou o governo Lula também atingiu a imprensa. Como em outros escândalos semelhantes, jornais e revistas estão sendo aplaudidos e questionados desde que a ‘Veja’ revelou, em 14 de maio, um vídeo que flagrava um funcionário dos Correios recebendo propina.

Naquela edição e na seguinte, a revista publicou acusações de corrupção que envolviam o deputado Roberto Jefferson, então presidente do PTB, hoje licenciado do cargo, e um dos principais líderes da base de apoio do governo federal.

Ao se sentir desamparado pelo governo, o deputado escolheu a Folha para falar e, em entrevistas publicadas nos dias 6 e 12 deste mês, acusou o PT de pagar mesadas de R$ 30 mil a deputados alidados do PP e do PL.

Enquanto as acusações estavam restritas aos Correios e ao PTB, o governo ainda teve forças para tentar impedir a formação de uma CPI no Congresso. As declarações de Jefferson à Folha e seu depoimento no Conselho de Ética da Câmara, no entanto, acuaram o Planalto, que acabou tendo de aceitar a CPI e o sacrifício do ministro José Dirceu.

As duas reportagens da ‘Veja’ e as entrevistas da Folha foram os fatos mais importantes até agora a sustentar a suspeita de corrupção no governo e no Congresso. Outros jornais, como o ‘O Estado’ e ‘O Globo’, e as revistas semanais também publicaram informações importantes, mas nenhuma ainda com a mesma repercussão.

A imprensa passou a ser alvo de várias críticas. A mais sutil partiu do procurador-geral da República, Claudio Fonteles: ‘O Brasil está passando por momentos difíceis? Está. A imprensa hiperavalia isso, faz um manchetismo danado. Isso é da vida. A gente não deve se apavorar (…) por causa disso’.’

As mais pesadas que li foram as do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, colunista do jornal ‘Valor’. Em entrevista que deu para a ‘Carta Capital’ desta semana, responsabilizou a imprensa por tentar desestabilizar o governo.

Em seu último artigo, ‘Golpismo de resultados é a estratégia da hora’, publicado na quinta, ele faz uma referência direta aos donos dos meios de comunicação: ‘No melhor dos mundos, o escândalo, que, finalmente, pegou, pode viabilizar uma primeira grande sacudida nas estranhas relações entre o privado e o público. Não será ainda desta vez, com certeza, que se esmiuçará o preço pago em instabilidade política pela permanente dependência dos órgãos de informação em relação aos bancos e à propaganda oficiais. Muito menos se aventará a possibilidade de que, tal como os políticos com cargos nos três Poderes, os proprietários de jornais e televisões exponham regularmente as respectivas declarações de bens, iniciativa sugerida pelo jornalista americano James Fallows. Mas alguma coisa pode ser feita, desde que o fim de dar uma faxina no Estado não se transforme em meio de acabar com o governo’.

As críticas que recebi de leitores dirigidas especificamente à Folha podem ser resumidas em frases como as seguintes: ‘A Folha joga contra o Brasil’, ‘Por que o jornal abriu espaço para a difamação sem prova?’ ou ‘Por que o jornal não deu a mesma cobertura e fez as mesmas cobranças em outros escândalos?’.

O jornal respondeu a essas questões no editorial que publicou na terça, ‘Denúncias a apurar’: ‘…a corrupção é um problema que aflige o país de longa data. E este jornal, seja qual for a coloração política dos governantes, tem procurado cumprir sua missão de divulgar os fatos que apura – como ocorreu, para citar um exemplo, com as evidências de compra de voto na apreciação da emenda da reeleição, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Também já se elogiou neste espaço a atuação da Polícia Federal, que tem realizado operações de vulto e desbaratado quadrilhas de corruptos’.

A referência ao escândalo da compra de votos para a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição de FHC em 1997 foi recorrente nestes dias. Por que o jornal poupou FHC naquela ocasião e agora está tão crítico em relação a Lula? Esse foi um questionamento que recebi.

Não é fato. Com a ajuda do Banco de Dados e uma pesquisa na coleção do jornal, pude constatar que as coberturas foram em tudo parecidíssimas. Primeiro, foi a Folha que revelou as fitas que provavam que deputados tinham sido comprados, como agora foi ela que publicou as confissões de crime assumidas por Jefferson e as acusações que fez da existência de um esquema de corrupção.

Nos dez dias que se seguiram à publicação das duas revelações, a de 13 de maio de 97 e a do dia 6 deste mês, a cobertura do jornal foi praticamente igual: nos dois casos, foram dez manchetes, sete editoriais, um editorial de primeira página e aproximadamente 60 páginas de cobertura. O tom também foi parecido: muita cobrança dirigida ao governos FHC (em 97) e Lula (agora) nos editoriais e todos os colunistas e os chargistas foram extremamente ácidos.

Há uma diferença entre 97 e agora: o desfecho. Fernando Henrique, ao contrário de Lula, conseguiu impedir a formação de uma CPI. Mas não acho que se possa culpar a Folha por isso. Talvez a explicação esteja no ambiente político distinto. Naquela ocasião, a Folha era uma das poucas vozes críticas e suas reportagens não tiveram tanta repercussão nos outros meios como agora. Na entrevista para a ‘Carta Capital’, o professor Wanderley Guilherme atribui a dois fatores essa diferença: ‘Vivemos um período democraticamente muito mais vivo do que no governo passado. A oposição agora é uma oposição forte. (…) Por conseqüência, a maioria da imprensa está com a oposição’.

Imprensa de oposição e imprensa oficial (como Jefferson chamou as Organizações Globo) são rótulos e, como tais, não dão conta do que de fato está ocorrendo. O ponto principal é que a imprensa está sob observação e é importante que seja assim. Embora tenha constatado que a cobertura da Folha no escândalo do ‘mensalão’ tem as mesmas características da cobertura da venda de votos, isso não significa que esteja indo bem.

O que o jornal apresentou até agora de mais relevante foram as entrevistas concedidas pelo deputado. Os esforços de investigação do jornal não tiveram resultado até sexta, exceto reportagens apenas valorizadas pelo calor da competição.

Há um problema de equilíbrio. Em várias edições, as defesas dos acusados não tiveram o destaque que deveriam ter. O ‘Painel do Leitor’ passou dois dias desta semana publicando apenas cartas contra o governo.

O esforço de provar que está à vontade para investigar o deputado Roberto Jefferson resultou em duas reportagens periféricas, a revelação de que Jefferson deixou de declarar à Justiça Eleitoral dois apartamentos em Cabo Frio (RJ) e a descoberta de que seu genro tem uma empresa-fantasma.

A imprensa se joga agora na cobertura das investigações da CPI. O momento exige cabeça fria para avaliar a qualidade das informações que vazam. As edições de ontem dos jornais mostravam que estão atirando para todos os lados.

E é bem provável que a correria da disputa faça com que os jornais releguem mais uma vez a grande discussão que está por trás da crise: a reforma política que garanta a governabilidade sem que seja necessário recorrer à corrupção ou ao fisiologismo.’

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