Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

17/10/2005 na edição 351

‘Comentei, na semana passada (‘As armas da imprensa’), a cobertura jornalística do referendo do ponto de vista da isenção. Em resumo, a minha avaliação é a de que a imprensa, majoritariamente a favor da proibição da comercialização de armas e munição, não consegue esconder essa preferência nas reportagens que faz.

Há outro aspecto nesta cobertura que merece reflexão: a dificuldade que têm os jornais e as revistas (as TVs e rádios mais ainda) em coberturas que exigem capacitação técnica e especialização. A situação fica crítica quando os meios são obrigados a acompanhar e a esclarecer para seus leitores, simultaneamente, vários temas complexos -como acontece, neste momento, com o referendo (que coloca a questão da segurança pública em discussão), a transposição do rio São Francisco, a seca na Amazônia e a febre aftosa- em meio à cobertura de uma crise política longa e gravíssima.

Que efeitos reais o resultado do referendo poderá ter na segurança pública? Afinal, o projeto da transposição é bom ou ruim, o Nordeste melhorará ou não com a sua implementação? Como explicar a seca numa região coberta de florestas e cortadas por grandes rios? O que provocou de fato o ressurgimento da febre aftosa no gado mais bem cuidado do país do gado? As pessoas estão confusas e a imprensa nem sempre ajuda a esclarecer.

As causas

Atribuo a dificuldade de entender e explicar os assuntos complexos a várias razões. A primeira, estrutural, é a própria formação deficiente dos jornalistas, o que não chega a ser uma exclusividade da profissão.

Outra razão é a resistência das empresas e dos próprios jornalistas à especialização. É próprio do jornalismo a valorização da capacidade de improviso, a convicção de que devemos estar preparados para enfrentar qualquer situação ou assunto e de que somos generalistas. São atributos indispensáveis, mas os melhores jornalistas são os que, além disso, têm uma ou mais áreas de especialização, o que implica domínio dos conceitos, de legislações, de estudos, de políticas públicas e de fontes de informação.

A especialização das redações vem ocorrendo de forma irregular. Algumas áreas estão bem avançadas, principalmente no jornalismo econômico e no jornalismo científico. Há ilhas de especialização na cultura, em áreas como saúde, educação e ambiente, como exemplos. Mas, em momentos como agora, ficam flagrantes as lacunas nas redações. Temos excelentes repórteres nas ruas cobrindo a violência e a criminalidade, mas pouquíssimos preparados para entender os aspectos sociais, políticos, econômicos e jurídicos da violência e da criminalidade. Temos repórteres corajosos, mas poucos que sabem trabalhar com as estatísticas e conseguem acompanhar os estudos especializados. Sabemos descrever uma ocorrência, mas não estamos preparados para cobrar das polícias eficácia nos procedimentos técnicos e de inteligência.

No caso do referendo, leitores e telespectadores já devem estar enlouquecidos. As leis, experiências e estatísticas de países como EUA, Suíça e Austrália servem para argumentos das duas correntes que disputam a consulta popular, são usadas sem-cerimônia, e jornais e revistas têm dificuldades para avaliar o que é fato e o que é manipulação. A Folha anunciou para este domingo um caderno especial sobre o referendo. Espero que me desminta.

Outro problema é o encolhimento das redações ao longo da crise financeira das empresas jornalísticas nos últimos anos. As equipes estão menores e, no caso da Folha, menos especializadas.

O foco de febre aftosa numa fazenda de Mato Grosso do Sul foi coberto à distância. O correspondente da Folha em Campo Grande, Hudson Corrêa, conhece bem o assunto, mas está em Brasília reforçando a equipe que acompanha a crise política. Sua ausência foi preenchida por uma free-lance que se saiu bem, mas até sexta-feira a cobertura era toda feita a partir de Campo Grande e de Brasília. O jornal não tinha ainda conseguido deslocar um jornalista para Eldorado, a 446 km de Campo Grande, onde ocorreu o foco.

O caso da seca na Amazônia é diferente. A repórter de Manaus, Kátia Brasil, já vinha acompanhando a falta de chuvas desde setembro e apontado que se avizinhava a maior estiagem dos últimos 30 anos na região. O jornal, no entanto, não deu tanta importância. Desde o dia 8 de outubro há registros quase diários da evolução da seca e de suas conseqüências, mas não há um investimento do jornal para entender o aparente paradoxo do fenômeno. A repórter deixou Manaus e se embrenhou nos municípios isolados mais atingidos, mas o aproveitamento do jornal foi frustrante. Na quinta-feira, ainda deu uma página com relatos da viagem, mas sem análises. E na sexta, mesmo os relatos já não tiveram destaque.

A descontinuidade também marcou a cobertura do projeto de transposição do rio São Francisco, outro assunto que poucos conseguem entender. Como se posicionar a favor ou contra a transposição diante de argumentos essencialmente técnicos?

Ao iniciar a greve de fome, no dia 26 de setembro, o bispo Luiz Flávio Cappio ressuscitou o assunto na imprensa. A Folha chegou a publicar um caderno especial, ‘Caminho das águas’. O assunto, no entanto, continua controverso, como registraram os editoriais do jornal e as colunas que Luís Nassif vem publicando desde terça-feira num esforço de destrinchar o projeto. As reportagens sumiram e provavelmente só reaparecerão em nova crise. Mas não serão suficientes para esclarecer as dúvidas, apenas cumprirão a pauta.’

***

‘A especialização – ‘Os jornais não estão piores’’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05.

‘O secretário de Redação da Folha Vinicius Torres Freire comenta as dificuldades da cobertura especializada.

‘Pouquíssimos jornais do mundo contam com recursos para dar conta da diversidade de temas. Esses pouquíssimos jornais são os enormes jornais americanos e japoneses.

A crescente diversificação de interesses do público leitor e a segmentação do leitorado pedem cada vez mais especialização. A difusão veloz e a oferta maior de informações apresentam cada vez mais temas para o leitor e, portanto, para os jornais. A internet e a tecnologia, em si mesmos assuntos enormes, criam cada vez mais oferta e demanda de informação: o leitorado sabe cada vez mais de mais coisas, e mais rapidamente.

Mesmo diante desse quadro, as equipes de jornalistas estão cada vez menores, pelo menos em jornais americanos, brasileiros e da Europa ocidental. Em vez de haver mais recursos para acompanhar o crescimento da complexidade e da quantidade do noticiário, há menos gente e menos dinheiro, pois há relativamente menos publicidade e menos leitores.

É, sim, difícil cobrir tantos assuntos importantes e complexos ao mesmo tempo. O que alivia um pouco tal dificuldade é que os jornalistas, na média, estão mais qualificados, recebem mais treinamento, dominam mais assuntos e com mais profundidade, por incrível que possa parecer. Mas pular de um tema para outro, de uma semana para outra, quando não de um dia para outro, ter de acompanhar vários casos complexos ao mesmo tempo, é difícil e é um desgaste humano grande.

Nunca haverá especialistas suficientes em jornais. Nunca foi possível e será cada vez mais difícil ter especialistas e gente o suficiente para cobrir tudo. A crise dos jornais, e a dos brasileiros em particular, fez as menores redações desde o século passado. No entanto, os jornais não me parecem piores, pois estão mais criteriosos, os jornalistas são mais bem preparados e estão trabalhando mais.’’

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JORNAL DE DEBATES > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

17/10/2005 na edição 351

‘Comentei, na semana passada (‘As armas da imprensa’), a cobertura jornalística do referendo do ponto de vista da isenção. Em resumo, a minha avaliação é a de que a imprensa, majoritariamente a favor da proibição da comercialização de armas e munição, não consegue esconder essa preferência nas reportagens que faz.

Há outro aspecto nesta cobertura que merece reflexão: a dificuldade que têm os jornais e as revistas (as TVs e rádios mais ainda) em coberturas que exigem capacitação técnica e especialização. A situação fica crítica quando os meios são obrigados a acompanhar e a esclarecer para seus leitores, simultaneamente, vários temas complexos -como acontece, neste momento, com o referendo (que coloca a questão da segurança pública em discussão), a transposição do rio São Francisco, a seca na Amazônia e a febre aftosa- em meio à cobertura de uma crise política longa e gravíssima.

Que efeitos reais o resultado do referendo poderá ter na segurança pública? Afinal, o projeto da transposição é bom ou ruim, o Nordeste melhorará ou não com a sua implementação? Como explicar a seca numa região coberta de florestas e cortadas por grandes rios? O que provocou de fato o ressurgimento da febre aftosa no gado mais bem cuidado do país do gado? As pessoas estão confusas e a imprensa nem sempre ajuda a esclarecer.

As causas

Atribuo a dificuldade de entender e explicar os assuntos complexos a várias razões. A primeira, estrutural, é a própria formação deficiente dos jornalistas, o que não chega a ser uma exclusividade da profissão.

Outra razão é a resistência das empresas e dos próprios jornalistas à especialização. É próprio do jornalismo a valorização da capacidade de improviso, a convicção de que devemos estar preparados para enfrentar qualquer situação ou assunto e de que somos generalistas. São atributos indispensáveis, mas os melhores jornalistas são os que, além disso, têm uma ou mais áreas de especialização, o que implica domínio dos conceitos, de legislações, de estudos, de políticas públicas e de fontes de informação.

A especialização das redações vem ocorrendo de forma irregular. Algumas áreas estão bem avançadas, principalmente no jornalismo econômico e no jornalismo científico. Há ilhas de especialização na cultura, em áreas como saúde, educação e ambiente, como exemplos. Mas, em momentos como agora, ficam flagrantes as lacunas nas redações. Temos excelentes repórteres nas ruas cobrindo a violência e a criminalidade, mas pouquíssimos preparados para entender os aspectos sociais, políticos, econômicos e jurídicos da violência e da criminalidade. Temos repórteres corajosos, mas poucos que sabem trabalhar com as estatísticas e conseguem acompanhar os estudos especializados. Sabemos descrever uma ocorrência, mas não estamos preparados para cobrar das polícias eficácia nos procedimentos técnicos e de inteligência.

No caso do referendo, leitores e telespectadores já devem estar enlouquecidos. As leis, experiências e estatísticas de países como EUA, Suíça e Austrália servem para argumentos das duas correntes que disputam a consulta popular, são usadas sem-cerimônia, e jornais e revistas têm dificuldades para avaliar o que é fato e o que é manipulação. A Folha anunciou para este domingo um caderno especial sobre o referendo. Espero que me desminta.

Outro problema é o encolhimento das redações ao longo da crise financeira das empresas jornalísticas nos últimos anos. As equipes estão menores e, no caso da Folha, menos especializadas.

O foco de febre aftosa numa fazenda de Mato Grosso do Sul foi coberto à distância. O correspondente da Folha em Campo Grande, Hudson Corrêa, conhece bem o assunto, mas está em Brasília reforçando a equipe que acompanha a crise política. Sua ausência foi preenchida por uma free-lance que se saiu bem, mas até sexta-feira a cobertura era toda feita a partir de Campo Grande e de Brasília. O jornal não tinha ainda conseguido deslocar um jornalista para Eldorado, a 446 km de Campo Grande, onde ocorreu o foco.

O caso da seca na Amazônia é diferente. A repórter de Manaus, Kátia Brasil, já vinha acompanhando a falta de chuvas desde setembro e apontado que se avizinhava a maior estiagem dos últimos 30 anos na região. O jornal, no entanto, não deu tanta importância. Desde o dia 8 de outubro há registros quase diários da evolução da seca e de suas conseqüências, mas não há um investimento do jornal para entender o aparente paradoxo do fenômeno. A repórter deixou Manaus e se embrenhou nos municípios isolados mais atingidos, mas o aproveitamento do jornal foi frustrante. Na quinta-feira, ainda deu uma página com relatos da viagem, mas sem análises. E na sexta, mesmo os relatos já não tiveram destaque.

A descontinuidade também marcou a cobertura do projeto de transposição do rio São Francisco, outro assunto que poucos conseguem entender. Como se posicionar a favor ou contra a transposição diante de argumentos essencialmente técnicos?

Ao iniciar a greve de fome, no dia 26 de setembro, o bispo Luiz Flávio Cappio ressuscitou o assunto na imprensa. A Folha chegou a publicar um caderno especial, ‘Caminho das águas’. O assunto, no entanto, continua controverso, como registraram os editoriais do jornal e as colunas que Luís Nassif vem publicando desde terça-feira num esforço de destrinchar o projeto. As reportagens sumiram e provavelmente só reaparecerão em nova crise. Mas não serão suficientes para esclarecer as dúvidas, apenas cumprirão a pauta.’

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‘A especialização – ‘Os jornais não estão piores’’, copyright Folha de S. Paulo, 16/10/05.

‘O secretário de Redação da Folha Vinicius Torres Freire comenta as dificuldades da cobertura especializada.

‘Pouquíssimos jornais do mundo contam com recursos para dar conta da diversidade de temas. Esses pouquíssimos jornais são os enormes jornais americanos e japoneses.

A crescente diversificação de interesses do público leitor e a segmentação do leitorado pedem cada vez mais especialização. A difusão veloz e a oferta maior de informações apresentam cada vez mais temas para o leitor e, portanto, para os jornais. A internet e a tecnologia, em si mesmos assuntos enormes, criam cada vez mais oferta e demanda de informação: o leitorado sabe cada vez mais de mais coisas, e mais rapidamente.

Mesmo diante desse quadro, as equipes de jornalistas estão cada vez menores, pelo menos em jornais americanos, brasileiros e da Europa ocidental. Em vez de haver mais recursos para acompanhar o crescimento da complexidade e da quantidade do noticiário, há menos gente e menos dinheiro, pois há relativamente menos publicidade e menos leitores.

É, sim, difícil cobrir tantos assuntos importantes e complexos ao mesmo tempo. O que alivia um pouco tal dificuldade é que os jornalistas, na média, estão mais qualificados, recebem mais treinamento, dominam mais assuntos e com mais profundidade, por incrível que possa parecer. Mas pular de um tema para outro, de uma semana para outra, quando não de um dia para outro, ter de acompanhar vários casos complexos ao mesmo tempo, é difícil e é um desgaste humano grande.

Nunca haverá especialistas suficientes em jornais. Nunca foi possível e será cada vez mais difícil ter especialistas e gente o suficiente para cobrir tudo. A crise dos jornais, e a dos brasileiros em particular, fez as menores redações desde o século passado. No entanto, os jornais não me parecem piores, pois estão mais criteriosos, os jornalistas são mais bem preparados e estão trabalhando mais.’’

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