Terça-feira, 23 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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VOZ DOS OUVIDORES >

Marcelo Beraba

14/12/2005 na edição 359


’12/12/2005


A reportagem mais importante desta SEGUNDA-FEIRA não é a manchete do jornal (‘Lula quer elevar mínimo a R$ 350’), mas a revelação de que uma medida tomada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 1998 pode ser uma das causas do aumento no número de casos de tireoidite crônica no Brasil (‘Mudança no sal pode ter estimulado mal da tiróide’).


Entendo que o jornal trate do assunto na sua capa com um pouco de cautela porque não existe um estudo definitivo. Mas o caso é gravíssimo e talvez merecesse algum destaque gráfico que chamasse a atenção da notícia. É claro que o salário mínimo interessa para um número grande de pessoas, mas ainda é uma vontade do presidente, o que se costuma chamar de ‘balão de ensaio’.


Na Folha, Lula quer elevar o salário mínimo a R$ 350. No ‘Estado’, ele quer antecipar troca de ministros candidatos para janeiro.


Manchete do ‘Estado’: ‘Europa acena com concessões na OMC’. O enfoque da Folha é outro: ‘País quer disputar novos mercados com China e Índia’.


Manchete do ‘Globo’: ‘Críticas à economia afastam o PT de Lula’. Segundo o jornal do Rio, ‘críticas a Palocci indicam fim de hegemonia de grupo de Lula no partido’. Os desdobramentos da reunião de sábado do PT foram ignorados pela Folha na sua primeira página de hoje.


Congresso


Segundo o ‘Estado’, ‘Câmara dá cargos a 11 do PC do B em São Paulo’. Entre os beneficiados estariam a mulher e o irmão do presidente da Câmara, Aldo Rebelo.


Governo x PT


O jornal explorou mal, na edição de hoje, os desdobramentos da reunião da direção do PT, no sábado, e suas resoluções. Fez bem em buscar repercussão na oposição (‘Serra desafia Lula a explicar suas contas’), mas faltou trabalhar melhor as contradições e enfrentamentos dentro do PT e entre o PT e o governo (‘Racha do partido deixa o presidente assustado’, pág. A6).


Anúncio


A publicidade do UOL, que serve de moldura aos textos das páginas A30 a A37 de ‘Mundo’ no domingo, é um destes casos de anúncios ‘criativos’ que interferem na edição jornalística e prejudicam o aproveitamento e valorização dos textos.


Saúde


A reportagem sobre o excesso de iodo no sal deveria ter sido a capa da Edição Nacional do caderno ‘Cotidiano’ (‘Sal com excesso de iodo provoca tireoidite’, pág. C4).


Senti falta na reportagem apenas de uma orientação jurídica para as pessoas que possam ter sido vítimas do excesso de iodo no sal. Elas podem tomar alguma medida judicial? Baseado em que leis? Contra quem? Há precedentes?


Marketing


A reportagem ‘Inflacionada’, Copa já mobiliza publicidade’ é pertinente, mas está bastante incompleta. E a ‘mobilização’ nos outros meios? Os jornais, por exemplo, já começaram a vender suas cotas? Terão mais ou menos dificuldades do que em 2002? Como as outras redes de TV vão se virar? Há interesse dos grandes anunciantes em outros meios (rádios, jornais e Internet, por exemplo)? E a Folha?


É errado o jornal tratar os outros veículos como notícia e achar que as informações comerciais sobre ele mesmo não são de interesse público.


09/12/2005


A CPI dos Correios suspeita ou afirma que o lucro com as perdas dos fundos de fundos de pensão foi para o exterior?


São formulações bem diferentes: uma coisa é suspeitar, outra afirmar. A Folha faz uma ginástica, hoje, para tratar do assunto dos fundos, e é visível que ela não sabe se confia ou não nas informações da CPI. Na capa do jornal, a manchete informa que ‘CPI suspeita que dinheiro de fundos foi para o exterior’; na manchete interna (pág. A4) da Edição Nacional, é menos cautelosa, embora atribua a informação à CPI, ‘Lucro com perda de fundos foi para o exterior, diz CPI’; e na manchete interna da Edição São Paulo, tenta arrumar uma forma de não se comprometer com a informação, ‘Suposto desvio de fundos foi para o exterior, diz CPI’.


A informação sobre o rombo dos fundos saiu primeiro no ‘Estado’, na terça-feira, e depois na Folha, na quarta. Hoje, a coluna de Luís Nassif, ‘Um relato ‘fake’ (pág. B4), questiona, sem subterfúgios, a qualidade do relatório: ‘… o relatório do emérito deputado ACM Neto é mais uma peça falsa nesse jogo’. Ele não nega a necessidade de se investigar os fundos. Tal como o editorial de quarta-feira da Folha (‘Investigar os fundos’), ele considera que há um terreno propício a falcatruas. Mas questiona pontos do relatório.


O problema do jornal é que a cobertura até agora se limitou a reproduzir o que a CPI deixa vazar. O trabalho de reportagem apenas acrescentou as versões dos fundos, o chamado ‘Outro lado’. Mas não há, no material de quarta nem no de hoje, um trabalho próprio do jornal. O assunto é complexo, exige ouvir fontes independentes e com grande conhecimento da área, exige um pouco mais de trabalho para se entender as transações. Enquanto isso não for feito pela Redação, o jornal não tem condições de aprofundar os dados vazados por membros da CPI e continuará fazendo esta ginástica nos títulos e na elaboração dos textos.


A primeira página usa um verbo que deveria ser evitado num jornalismo que busca a precisão: ‘Na CPI, já se crê que nem todas as operações que aparentam ter lesado os fundos foram deliberadas (…)’. Este não é um assunto de fé, mas de investigação. Aliás, o trecho dá razão aos que questionam a seriedade do trabalho da CPI.


Painel do Leitor


O ‘Painel do Leitor’ de hoje é praticamente todo destinado ao direito de respostas. Sobrou espaço apenas para um curto elogio de um leitor a uma coluna de ‘Ilustrada’ (‘Moda’). Opinião dos leitores sobre os principais assuntos de ontem ou da semana? Nada.


Terra sem lei


Fica muito estranho o noticiário sobre o início do julgamento dos acusados pela morte da irmã Dorothy (pág. A8) estar espremido entre duas páginas do ‘Escândalo do mensalão’, como ocorreu na Edição Nacional.


Mundo


Gostaria de entender os critérios jornalísticos que expliquem as mudanças ocorridas na página A13 de ‘Mundo’. Na Edição Nacional, a reportagem principal é a Venezuela (‘Governista propõe Chávez no poder até 2030’) e segue com ‘Papa afirma que vida virtuosa não é ‘chata’, com ‘Cristãos radicais ‘defendem’ o Natal’, com, já na parte baixa da página, ‘Presidente do Irã sugere que Israel se mude para o território europeu’ e termina com ‘Croata procurado pela ONU por crime de guerra é detido na Espanha’.


A Edição SP mantém exatamente as mesmas reportagens, mas o texto sobre a Venezuela, que estava no alto, cai para o pé da página, como se fosse a notícia menos importante; e a declaração do presidente do Irã, que estava quase no pé da página, passa a ocupar o espaço mais importante. O que teria mudado das 20h30 para as 23h que justifique um câmbio tão radical? Ou o jornal errou na primeira edição, ou errou na segunda.


07/12/2005


Folha e ‘Globo’ mantêm na manchete o caso Coteminas: ‘Delúbio afirma que ‘valerioduto’ pagou empresa de Alencar’ (Folha) e ‘Delúbio diz que dinheiro para empresa do vice era de Valério’ (‘Globo’). O ‘Estado’ faz apenas um registro do caso na capa e destaca como manchete nova estimativa para o Produto Interno Bruto: ‘Ipea reduz para 2,3% previsão para o PIB’.


Escândalo do ‘mensalão’


O ponto mais importante da defesa da Coteminas neste caso com o PT é o de que registrou o pagamento que recebeu do partido (R$ 1 milhão) na sua contabilidade e forneceu recibo de quitação parcial do débito. Com isso a empresa comprova que não usou o caixa 2 para fazer sumir o dinheiro e tenta passar a idéia de que está agindo de forma transparente e de que a ilegalidade foi cometida pelo PT, que não registrou o pagamento na contabilidade do partido. Este ponto – o do registro do pagamento na contabilidade da Coteminas e do recibo fornecido ao PT – deveria estar contemplado no infográfico ‘O caso Coteminas e o PT’ (pág. A4) e sempre que houver uma memória do caso.


América Latina


A situação na Venezuela pós-eleição ainda justifica uma atenção especial do jornal, mas a cobertura de hoje (‘União Européia aprova eleição venezuelana’, pág. A17) é feita novamente pela Redação. Ou seja, foi breve a passagem do enviado especial à Caracas.


Aliás, a edição de ‘Mundo’ de hoje tem apenas um mísero texto escrito por correspondente do jornal, ‘Espelho de Blair é o novo líder dos conservadores’, de Londres. Todas as outras reportagens são textos escritos da Redação com as informações das agências internacionais.


Os concorrentes diretos – ‘Estado’ e ‘Globo’ – têm as mesmas deficiências.


FGTS


O ‘Estado’ já tinha informado ontem e seguiu com a notícia hoje: o governo estuda liberar o FGTS para mensalidade escolar. É uma medida, segundo o jornal, para beneficiar a classe média e seria adotada para melhorar a imagem do governo. A Folha ignora o assunto que é do interesse de seus leitores.


Educação


Não há uma linha, na Edição Nacional de ‘Cotidiano’, para a greve das universidades federais que completa cem dias. Aliás, ontem também não havia.


Na Edição SP de hoje, o foco é para o fim da greve na Unifesp (pág. C10).


Errei


Li mal a nota ‘É só pedir’, publicada ontem no ‘Painel’. Entendi que se referia à identidade da funcionária do PT que pagou a Coteminas, quando se tratava do funcionário da Coteminas que recebeu o dinheiro do PT. Escrevi: ‘(…) e o ‘Painel’ (vide nota ‘É só pedir’) não foi avisado que o jornal já sabia a identidade da portadora do dinheiro’. Peço desculpas à editoria.


06/12/2005


A Folha errou na notícia que foi a manchete (‘Maia diz que PFL apóia Serra’) de ontem: ‘O prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), fechou acordo com o PFL para concorrer à Presidência da República em 2006’. Pelo que já era possível se perceber ontem, e fica claro nos textos de hoje, não há acordo fechado com o PFL. O que há é a decisão do prefeito do Rio, Cesar Maia, de retirar sua pré-candidatura à Presidência da República pelo PFL caso o candidato do PSDB seja o prefeito de São Paulo, José Serra. É provável que os dois partidos de oposição acabem fazendo uma aliança em torno do candidato do PSDB, mas o que existe até agora, pelo que se depreende do noticiário da Folha de hoje e de outros jornais, são conversas e tratos laterais. A Folha foi precipitada na formulação do texto de ontem.


Afinal, o desmatamento na Amazônia caiu 31% (como está na capa da Edição Nacional da Folha e no infográfico da página A16), 30,5% (como está na capa da Edição São Paulo e no texto principal do jornal) ou 30% (como está na manchete da página A16 de ‘Ciência’)?


Afinal, não podem circular hoje em São Paulo carros com placas cujo final seja 3 e 4 (como está na primeira página do jornal) ou 5 e 6 (como está na página C2)?


Escândalo do ‘mensalão’


Imagino que o jornal tenha sabido tarde o nome da funcionária do PT que teria entregue R$ 1 milhão à Cotominas, Marice Corrêa de Lima. Só assim se explica a confusão de informações na página A4 da Edição São Paulo. O texto principal informa que foi Marice quem levou o dinheiro e que ela é funcionária da Secretaria de Finanças do PT; o infográfico ‘Um depósito e duas versões’ registra que ‘o PT tinha, pelo menos até 2004, uma funcionária’ com este nome; e o ‘Painel’ (vide nota ‘É só pedir’) não foi avisado que o jornal já sabia a identidade da portadora do dinheiro.


Livros


Segundo o ‘Estado’, a editora Planeta pagou 800 mil dólares pelo passe de Paulo Coelho. A reportagem da Folha, ‘Paulo Coelho tem editora nova no Brasil’ (pág. E3 de ‘Ilustrada’), não menciona valores.’

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