Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

10/04/2006 na edição 376

‘A aprovação do relatório final da CPI dos Correios, na quarta-feira, é um bom pretexto para iniciar uma avaliação do trabalho da imprensa na cobertura desses dez meses de investigações e crise política.

Ao longo desse período, fiz diversas críticas aos jornais, particularmente à Folha. Publico hoje, e prosseguirei nas próximas colunas, as avaliações que solicitei a alguns observadores do ambiente político e do comportamento da imprensa. Inicio com três cientistas políticos.

Encaminhei para eles quatro questões que se completam: Como avalia a cobertura da imprensa no caso das denúncias de corrupção no governo Lula e no Congresso? Ela cumpriu o papel que dela se espera numa democracia? Que pontos destaca como positivos na cobertura? E negativos?

As respostas.

GRUPOS DE PRESSÃO

Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político, pró-reitor da Universidade Cândido Mendes

‘Jornalismo é uma das atividades dos órgãos de imprensa. Esses também agem como corporações econômicas e grupos de pressão política. Em decorrência de seus interesses econômicos e políticos, a cobertura jornalística da imprensa foi altamente positiva no que revelou, cúmplice no que encobriu e facciosa no que deturpou. Enquanto a imprensa, como jornalismo, empresa e grupo político, depender tanto do governo, vai continuar assim.’

DECEPÇÃO DO FINAL

Jairo Nicolau, cientista político, pesquisador da Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro)

‘A cobertura da imprensa teve grandes momentos, como as duas entrevistas de Roberto Jefferson na Folha e algumas reportagens especiais nas revistas semanais e no ‘Globo’. Mas a minha impressão é que, em termos de difusão de informação, as matérias muitas vezes correram atrás dos blogs e da cobertura ao vivo na TV, dois concorrentes e tanto.

Minha decepção maior se deveu à cobertura do relatório final, provavelmente ofuscado pela saída do ministro Palocci na mesma semana. Percorri os principais jornais e encontrei resumos modestos e análises muito superficiais. Pouca gente deve ter tido a paciência de ler as centenas de páginas do relatório, mas creio que ele apresenta um retrato poderoso de como áreas significativas do Estado brasileiro foram dominadas pela corrupção.’

ALARME DE INCÊNDIO

Fernando Luiz Abrucio, cientista político e professor da FGV(SP) e da PUC(SP)

‘É possível analisar o papel da imprensa sob três aspectos. Primeiro, ela cumpriu um excelente papel de alarme de incêndio, acompanhando com detalhes as denúncias, os conflitos políticos subjacentes à crise e os resultados do processo -com destaque para a boa cobertura sobre as cassações e as absolvições.

Em segundo lugar, a qualidade da investigação feita pela mídia foi razoável. Alguns furos jornalísticos foram mal apurados, certas denúncias se perderam ao longo do tempo e, o pior de tudo, ninguém foi atrás dos possíveis mensaleiros, isto é, dos mais de 50 deputados que a base governista ganhou do dia para a noite. Também não houve críticas mais sistemáticas e consistentes às apurações feitas pelas CPIs, tomando como verdade assuntos mal analisados pelos parlamentares. Apesar disso, as descobertas da imprensa foram fundamentais para as linhas mais profícuas de investigação, da célebre entrevista de Roberto Jefferson, passando pelos saques no Banco Rural e chegando às matérias de ‘Veja’ e ‘Época’ sobre as lambanças do ex-ministro Palocci.

A maior falha da imprensa diz respeito à análise das causas da crise. A mídia se mostrou, no geral, despreparada para informar ao leitor o que origina fenômenos como o ‘valerioduto’ e o caixa dois. Deveriam ter sido discutidos temas como profissionalização da gestão pública, carreira política clientelista da maioria dos deputados, vigência de monopólios estatais que favorecem a captura dos recursos públicos por entes privados e falta de preparo dos congressistas para o trabalho de investigação.

Os principais jornais foram omissos em relação à forma como a CPI dos Bingos burlou regularmente as leis e ultrapassou seus limites constitucionais. Para recuperar o padrão ético no país, é preciso aperfeiçoar as instituições, e não criar um tribunal inquisitório que transforma a política e a apuração da vida de cidadãos num jogo de vale-tudo.

Num balanço final das CPIs, a imprensa deveria mostrar que as regras que permitiram o ‘valerioduto’ e afins permaneceram, sobrando um legado de fraca investigação parlamentar e de abuso das prerrogativas congressuais.’’

***

‘Jornalistas e jornalistas’, copyright Folha de S. Paulo, 9/4/06.

‘Não está comprovada a participação do ex-assessor de imprensa do Ministério da Fazenda, Marcelo Netto, no vazamento do extrato bancário do caseiro Francenildo Costa. Mesmo assim, seu advogado, Eduardo Toledo, adiantou a defesa com uma tese polêmica. Reproduzo o relato da Folha, publicado na quinta-feira.

‘Em entrevista após a passagem de Netto na Polícia Federal, Eduardo Toledo desenvolveu o raciocínio segundo o qual jornalistas que exercem funções públicas respondem também ao código de ética da profissão. ‘O Marcelo é um jornalista e jornalistas têm o dever de informar’.’

Não sei se o ex-assessor participou ou não, e em que medida, da conspiração contra o caseiro. Mas é certo que o seu advogado, ao tentar criar uma justificativa ética para o caso de ele ter vazado a informação, além de indiretamente incriminá-lo, cometeu um equívoco e mexeu com um vespeiro. Jornalistas de assessorias de imprensa não têm os mesmos objetivos nem respondem aos mesmos princípios dos que trabalham em meios de comunicação.

Algumas questões. Um jornalista no cargo de assessor deve agir em função dos interesses de quem o contrata (seja empresa privada, seja órgão público) ou deve permanecer compromissado com a função de ‘divulgar todos os fatos que sejam de interesse público’ (Código de Ética dos jornalistas), mesmo os que não sejam do interesse de quem assessora? Um assessor de ministério que tem acesso a informações estratégicas deve agir como assessor e preservar a reserva ou deve agir como repórter e passar a informação adiante? Há justificativa ética para o vazamento de uma ilegalidade para proteger um ministro sob acusações?

Para colocar lenha nessa fogueira, copio um trecho do livro ‘Sobre Ética e Imprensa’ (Companhia das Letras), do jornalista Eugênio Bucci, hoje na presidência de um órgão federal, a Radiobrás.

‘O assessor de imprensa é um artífice e ao mesmo tempo um divulgador da boa imagem daquele que o contrata. Na prática, não é jornalista. Jornalista é estritamente o profissional encarregado de levar notícias ao público, num serviço que atende, no fim da linha, o titular do direito à informação e mais ninguém. O assessor de imprensa -ainda que possa ter se formado numa faculdade de comunicações com habilitação em jornalismo, ainda que tenha anos de experiência numa redação- exerce tecnicamente um ofício diferenciado. Ele não ganha para perguntar o que o público tem o direito de saber, mas ganha para propagar aquilo que o seu cliente (ou empregador) tem interesse em difundir.

São duas ocupações igualmente dignas, nada de errado com uma ou com a outra, mas são duas ocupações diferentes. Por vezes, opostas.’’

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ENTRE ASPAS > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

10/04/2006 na edição 376

‘A aprovação do relatório final da CPI dos Correios, na quarta-feira, é um bom pretexto para iniciar uma avaliação do trabalho da imprensa na cobertura desses dez meses de investigações e crise política.

Ao longo desse período, fiz diversas críticas aos jornais, particularmente à Folha. Publico hoje, e prosseguirei nas próximas colunas, as avaliações que solicitei a alguns observadores do ambiente político e do comportamento da imprensa. Inicio com três cientistas políticos.

Encaminhei para eles quatro questões que se completam: Como avalia a cobertura da imprensa no caso das denúncias de corrupção no governo Lula e no Congresso? Ela cumpriu o papel que dela se espera numa democracia? Que pontos destaca como positivos na cobertura? E negativos?

As respostas.

GRUPOS DE PRESSÃO

Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político, pró-reitor da Universidade Cândido Mendes

‘Jornalismo é uma das atividades dos órgãos de imprensa. Esses também agem como corporações econômicas e grupos de pressão política. Em decorrência de seus interesses econômicos e políticos, a cobertura jornalística da imprensa foi altamente positiva no que revelou, cúmplice no que encobriu e facciosa no que deturpou. Enquanto a imprensa, como jornalismo, empresa e grupo político, depender tanto do governo, vai continuar assim.’

DECEPÇÃO DO FINAL

Jairo Nicolau, cientista político, pesquisador da Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro)

‘A cobertura da imprensa teve grandes momentos, como as duas entrevistas de Roberto Jefferson na Folha e algumas reportagens especiais nas revistas semanais e no ‘Globo’. Mas a minha impressão é que, em termos de difusão de informação, as matérias muitas vezes correram atrás dos blogs e da cobertura ao vivo na TV, dois concorrentes e tanto.

Minha decepção maior se deveu à cobertura do relatório final, provavelmente ofuscado pela saída do ministro Palocci na mesma semana. Percorri os principais jornais e encontrei resumos modestos e análises muito superficiais. Pouca gente deve ter tido a paciência de ler as centenas de páginas do relatório, mas creio que ele apresenta um retrato poderoso de como áreas significativas do Estado brasileiro foram dominadas pela corrupção.’

ALARME DE INCÊNDIO

Fernando Luiz Abrucio, cientista político e professor da FGV(SP) e da PUC(SP)

‘É possível analisar o papel da imprensa sob três aspectos. Primeiro, ela cumpriu um excelente papel de alarme de incêndio, acompanhando com detalhes as denúncias, os conflitos políticos subjacentes à crise e os resultados do processo -com destaque para a boa cobertura sobre as cassações e as absolvições.

Em segundo lugar, a qualidade da investigação feita pela mídia foi razoável. Alguns furos jornalísticos foram mal apurados, certas denúncias se perderam ao longo do tempo e, o pior de tudo, ninguém foi atrás dos possíveis mensaleiros, isto é, dos mais de 50 deputados que a base governista ganhou do dia para a noite. Também não houve críticas mais sistemáticas e consistentes às apurações feitas pelas CPIs, tomando como verdade assuntos mal analisados pelos parlamentares. Apesar disso, as descobertas da imprensa foram fundamentais para as linhas mais profícuas de investigação, da célebre entrevista de Roberto Jefferson, passando pelos saques no Banco Rural e chegando às matérias de ‘Veja’ e ‘Época’ sobre as lambanças do ex-ministro Palocci.

A maior falha da imprensa diz respeito à análise das causas da crise. A mídia se mostrou, no geral, despreparada para informar ao leitor o que origina fenômenos como o ‘valerioduto’ e o caixa dois. Deveriam ter sido discutidos temas como profissionalização da gestão pública, carreira política clientelista da maioria dos deputados, vigência de monopólios estatais que favorecem a captura dos recursos públicos por entes privados e falta de preparo dos congressistas para o trabalho de investigação.

Os principais jornais foram omissos em relação à forma como a CPI dos Bingos burlou regularmente as leis e ultrapassou seus limites constitucionais. Para recuperar o padrão ético no país, é preciso aperfeiçoar as instituições, e não criar um tribunal inquisitório que transforma a política e a apuração da vida de cidadãos num jogo de vale-tudo.

Num balanço final das CPIs, a imprensa deveria mostrar que as regras que permitiram o ‘valerioduto’ e afins permaneceram, sobrando um legado de fraca investigação parlamentar e de abuso das prerrogativas congressuais.’’

***

‘Jornalistas e jornalistas’, copyright Folha de S. Paulo, 9/4/06.

‘Não está comprovada a participação do ex-assessor de imprensa do Ministério da Fazenda, Marcelo Netto, no vazamento do extrato bancário do caseiro Francenildo Costa. Mesmo assim, seu advogado, Eduardo Toledo, adiantou a defesa com uma tese polêmica. Reproduzo o relato da Folha, publicado na quinta-feira.

‘Em entrevista após a passagem de Netto na Polícia Federal, Eduardo Toledo desenvolveu o raciocínio segundo o qual jornalistas que exercem funções públicas respondem também ao código de ética da profissão. ‘O Marcelo é um jornalista e jornalistas têm o dever de informar’.’

Não sei se o ex-assessor participou ou não, e em que medida, da conspiração contra o caseiro. Mas é certo que o seu advogado, ao tentar criar uma justificativa ética para o caso de ele ter vazado a informação, além de indiretamente incriminá-lo, cometeu um equívoco e mexeu com um vespeiro. Jornalistas de assessorias de imprensa não têm os mesmos objetivos nem respondem aos mesmos princípios dos que trabalham em meios de comunicação.

Algumas questões. Um jornalista no cargo de assessor deve agir em função dos interesses de quem o contrata (seja empresa privada, seja órgão público) ou deve permanecer compromissado com a função de ‘divulgar todos os fatos que sejam de interesse público’ (Código de Ética dos jornalistas), mesmo os que não sejam do interesse de quem assessora? Um assessor de ministério que tem acesso a informações estratégicas deve agir como assessor e preservar a reserva ou deve agir como repórter e passar a informação adiante? Há justificativa ética para o vazamento de uma ilegalidade para proteger um ministro sob acusações?

Para colocar lenha nessa fogueira, copio um trecho do livro ‘Sobre Ética e Imprensa’ (Companhia das Letras), do jornalista Eugênio Bucci, hoje na presidência de um órgão federal, a Radiobrás.

‘O assessor de imprensa é um artífice e ao mesmo tempo um divulgador da boa imagem daquele que o contrata. Na prática, não é jornalista. Jornalista é estritamente o profissional encarregado de levar notícias ao público, num serviço que atende, no fim da linha, o titular do direito à informação e mais ninguém. O assessor de imprensa -ainda que possa ter se formado numa faculdade de comunicações com habilitação em jornalismo, ainda que tenha anos de experiência numa redação- exerce tecnicamente um ofício diferenciado. Ele não ganha para perguntar o que o público tem o direito de saber, mas ganha para propagar aquilo que o seu cliente (ou empregador) tem interesse em difundir.

São duas ocupações igualmente dignas, nada de errado com uma ou com a outra, mas são duas ocupações diferentes. Por vezes, opostas.’’

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