Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

16/05/2006 na edição 381

‘A 26ª Conferência Anual da ONO (Organização de Ombudsmans de Notícias) e o Fórum Folha de Jornalismo, realizados ao longo da última semana em São Paulo, giraram em torno de um ponto que hoje deveria ser a principal preocupação dos jornalistas e dos meios de comunicação: a credibilidade.

Foram apresentadas várias pesquisas e análises que comprovam que a indústria jornalística tem motivos para se inquietar. Mesmo em países como o Brasil, em que os índices de confiança nos meios são altos (Ibope/Opinião, maio de 2005) e a imprensa goza de mais prestígio que os governos (BBC/Reuters/Media Center Poll, maio de 2006), é tensa a relação entre um público cada vez mais exigente e as empresas envolvidas em uma grande disputa pelo mercado.

Houve muitas críticas em relação ao jornalismo que está sendo feito em várias partes do mundo. Chato, aborrecido, sensacionalista, superficial, desfibrado, distante dos interesses das pessoas, mal apurado, de entretenimento e celebridades, comercial, irresponsável, descontextualizado -a lista de adjetivos negativos é imensa. É curioso que, muitas vezes, o que para uns é virtude, para outros é defeito.

O jornalista Andres Oppenheimer, do ‘Miami Herald’ e especialista em América Latina, foi o mais contundente na crítica aos jornais. Na opinião dele, os diários perdem leitores porque não conseguem atendê-los: são repetitivos, previsíveis e chegam com notícias envelhecidas. ‘Os jornais [como são feitos hoje] estão moribundos, estão a caminho da morte.’ Ele acha que, para enfrentar a velocidade de circulação das informações, eles deveriam ser mais analíticos, mais investigativos e terem um controle mais rigoroso daquilo que editam para que sejam mais confiáveis do que ‘o dilúvio de informações’ que nos afoga.

Transparência

Não há consenso em relação ao futuro do jornalismo, mas os ombudsmans estão de acordo sobre a necessidade de os meios se aproximarem mais de seus públicos e de se tornarem mais transparentes. Transparência, no caso, significa prestar contas, deixar claro os valores que defendem, os interesses econômicos e políticos a que seus grupos empresariais estão associados, seus métodos de trabalho interno, suas fontes de faturamento, seu desempenho econômico e os recursos de que dispõem para melhorar a qualidade do produto que oferecem.

Germán Rey, pesquisador e ex-ombudsman do ‘El Tiempo’, de Bogotá, chamou a atenção, ao falar sobre a imprensa latino-americana, para a incoerência dos meios que cobram a prestação de contas dos governos e exigem comportamento ético dos políticos, das empresas e das pessoas, mas que não se dispõem a prestar contas, não se submetem aos mesmos escrutínios que impõem nem respeitam os mesmos valores que cobram.

Os meios querem vigiar a política, comentou Rey, mas não se deixam vigiar. A questão, claro, não é deixar de fiscalizar, mas de ser coerente com os princípios que elegeram.

A iniciativa de transparência que mais me impressionou foi a do diário britânico ‘The Guardian’. Segundo seu ombudsman, Ian Mayes, presidente da ONO, o jornal contratou uma empresa para fazer uma auditoria social que investigou desde itens como a política de contratação de pessoal até a origem do papel que o jornal compra (para saber se é fabricado por empresas que provocam problemas ambientais). A auditoria revelou, por exemplo, que o jornal nem sempre pagava em dia os seus credores.

Fica a sugestão.’



***

‘Nos Estados Unidos – A conexão com os leitores’, copyright Folha de S. Paulo, 14/5/06.

‘Preocupada com a perda de credibilidade da imprensa nos Estados Unidos, a associação de editores de jornais (Associated Press Managing Editors/APME) organiza, desde 2001, mesas-redondas que reúnem jornalistas, leitores e especialistas para discutir coberturas problemáticas com o intuito de identificar erros e melhorar o noticiário. Nestes cinco anos participaram do Projeto das Mesas-Redondas sobre Credibilidade (www.apme-credibility.org) 193 empresas jornalísticas.

Carol Nunnelley, coordenadora do projeto, apresentou na conferência de ombudsmans algumas orientações elaboradas a partir das discussões das mesas. Um dos documentos tem como objetivo estimular os jornais a ouvirem mais os seus leitores. Seu título é: ‘Conectar-se aos leitores: como e por quê’.

Embora tenham como referência os jornais americanos, que são mais voltados para os interesses comunitários do que os brasileiros, reproduzo parte das recomendações destinadas aos que comandam as Redações por entender que elas podem ajudar a atender melhor os nossos leitores e para saber dos leitores o que acham das sugestões:

‘O compromisso dos jornalistas de servir o público e o apoio que isso deveria receber são prejudicados pela desconfiança entre jornalistas e leitores.

É um ‘segredinho’ das Redações que os jornalistas consideram os leitores ‘uns chatos’, nas palavras do instrutor [do projeto] Edward Miller.

Os leitores julgam os jornalistas e as organizações de mídia hostis e de difícil acesso, seja em relação a uma dica sobre alguma reportagem, seja em relação a uma queixa sobre exatidão. Muitos leitores reclamam, mas não informam aos jornalistas o que pensam.

Uma imprensa livre precisa de apoio do público, quer durante ataques de autoridades públicas, quer nas salas de audiência em julgamentos por difamação. O público terá menor tendência a apoiar a imprensa se as pessoas tiverem pouco conhecimento a respeito do modo de trabalho dos jornalistas, se desconfiarem de seus objetivos ou caso se sintam menosprezadas pelas organizações de mídia.

Faça com que processos básicos na Redação sejam feitos com educação e eficiência -como atender o telefone, responder a e-mails e a perguntas, tratar de queixas.

Indique um bom profissional para atender os leitores por telefone e receber visitantes -alguém capaz e disposto a ser um defensor do leitor.

Incentive os jornalistas a usarem técnicas de entrevista ao falarem com as pessoas que telefonam. ‘Escute, não discuta’ é um mantra mágico.

Oriente a Redação a como agir sobre decisões, erros e outras questões que geram contatos dos leitores relativos ao noticiário.

Adote a iniciativa de conhecer os leitores, na comunidade e na Redação.

Crie um birô do leitor e divulgue-o por meio de anúncios no jornal.

Organize workshops para ensinar as pessoas sobre como fazer para que ‘suas notícias’ sejam publicadas.

Deixe que os moradores organizem excursões para apresentar bairros ou instituições.

Convide leitores insatisfeitos (e outras pessoas também) para participarem de reuniões sobre o noticiário.

Use a internet para ampliar o contato com os leitores.

Publique formulários para encaminhamento de alguma idéia de reportagem ou para apresentação de queixas.

Crie um grupo de e-mail de leitores que possa ser consultado rapidamente no caso de você estar procurando por uma fonte difícil de ser encontrada ou querer um conselho sobre alguma questão jornalística.

Publique mais informações sobre reportagens controvertidas, incluindo documentos adicionais. Ofereça explicações sobre as reportagens. Peça retornos.’ [Tradução de Cláudia Strauch]’

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