Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

13/02/2007 na edição 420

‘As edições desta semana mostram com clareza as prioridades da Folha. Educação, por exemplo, é uma prioridade.

O jornal levou, na quarta-feira, o que chamamos, no jargão jornalístico, de furo. ‘O Globo’ e o ‘Correio Braziliense’ publicaram antes de todos os resultados das avaliações do ensino brasileiro feitas pelo Ministério da Educação. As conclusões foram bastante negativas, indicando uma queda grande na qualidade do ensino fundamental e do ensino médio.

A reação habitual dos jornais quando são furados é de ignorar ou subestimar a informação dada com exclusividade pelo concorrente, o que é um erro grave porque pune o leitor. Não foi o que fez a Folha neste caso.

O jornal não se deixou abater pelo revés da véspera e deu os resultados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) e do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) com o destaque que o assunto merecia: manchete da Primeira Página (‘Educação do país piora em 10 anos’), quatro páginas de notícias e análises na Edição Nacional e um caderno especial com seis páginas na Edição São Paulo. No final, fez uma cobertura, que ainda se estendia pela edição de sexta-feira, melhor do que os seus concorrentes, inclusive os que obtiveram os dados antes.

Não tenho dúvida de que a Folha e os principais jornais brasileiros estão atentos à importância da educação na transformação do país e que têm o tema como uma de suas prioridades. Essa consciência é explicitada em todos os editoriais, e a edição de quinta-feira, no caso da Folha, é uma comprovação. Mas também é evidente, para quem acompanha diariamente os jornais, que o compromisso esbarra na falta de pessoal e de especialização.

A cobertura diária é irregular e a antena do jornal nem sempre está ligada. Na quarta-feira, por exemplo, o jornal publicou mal, na Edição Nacional, uma pesquisa da Unesco que mostrava que a diferença de rendimento entre jovens brancos e negros nas escolas brasileiras é maior entre ricos do que entre pobres. A notícia simplesmente sumiu na Edição São Paulo.

Brasil e EUA

Relações exteriores não é uma prioridade para a Folha.

A pouca atenção do jornal em relação ao assunto ficou evidente na cobertura errática das visitas ao Brasil, ao longo da semana, de três representantes graduados do governo dos Estados Unidos, dois do Departamento de Estado e o secretário da Justiça. A agenda da ofensiva norte-americana coincidiu com a crescente tensão entre Washington e países próximos ao Brasil, como a Venezuela, o Equador e a Bolívia, e incluiu encontros com representantes do governo federal e com governadores. Da pauta constaram itens econômicos e políticos, cooperação na área da Justiça e do combate à criminalidade e foi confirmada a visita do presidente Bush ao Brasil.

A Folha não tem uma cobertura regular do Itamaraty e da política externa brasileira. A descontinuidade do acompanhamento, característica do jornalismo brasileiro, é ainda mais evidente nessa área. O interesse é desperto quando estoura uma crise, e quase sempre o jornal chega atrasado.

Na terça-feira, o jornal anunciou as visitas em Mundo. Na quarta, deu manchete para o resultado de um dos encontros bilaterais (‘EUA querem parceria estratégica no etanol’), mas diluiu a cobertura por três editorias (Dinheiro, Mundo e Cotidiano). Como escrevi na Crítica Interna, a fragmentação enfraqueceu a edição e prejudicou a compreensão dos vários aspectos em jogo da política dos Estados Unidos e de sua relação com o Brasil e a América do Sul.

Manchete na quarta, o relato das visitas e de seus desdobramentos já não era do interesse da Primeira Página na quinta-feira. E o noticiário novamente foi espalhado. Um pedaço em Brasil, a editoria responsável pela cobertura da política externa brasileira, mas que na véspera ignorara as visitas, e outra parte continuou em Dinheiro.

A edição de sexta, depois de tanta confusão, teve o mérito de chamar o assunto novamente para a capa do jornal, concentrá-lo em Brasil, com um prolongamento em Dinheiro, e arriscar algumas análises. Mas desconfio que àquela altura os leitores deveras interessados no tema já haviam desistido de acompanhá-lo pela Folha.’

***

‘Prestação de contas’, copyright Folha de S. Paulo, 11/2/07

‘A prática não é comum na imprensa em geral, menos ainda na brasileira. Por isso, são dignas de registro as iniciativas da Folha de nomear uma equipe para rever os textos do repórter José Messias Xavier publicados no jornal e de tornar público o resultado do trabalho de revisão.

Xavier está sendo acusado pelo Ministério Público de pertencer a uma das duas máfias que dominam a exploração ilegal de caça-níqueis no Rio. Segundo a polícia, ele passaria informações para os criminosos e faria textos que os protegiam. O repórter tem negado as acusações. Segundo ele, a proximidade com um advogado do chefe da quadrilha tinha como objetivo obter dados para o livro ‘A Águia e o Burro’ que acaba de escrever.

Quando foi preso, Xavier trabalhava na TV Globo, no Rio. Na sucursal da Folha, prestou serviço como free-lancer entre junho e outubro de 2005, quando produziu, segundo levantamento tornado público pelo jornal na quinta-feira, 81 textos. Antes, trabalhara durante sete anos no diário ‘Extra’, também no Rio.

A Folha encontrou quatro erros factuais em dois textos, nenhum importante, corrigidos na seção ‘Erramos’, e informações que não se confirmaram. Segundo o Ministério Público, Xavier tinha como uma de suas funções publicar notícias desfavoráveis a um dos bandos. Segundo o resumo publicado pela Folha, em um dos textos o repórter sugeria que o então chefe de Polícia Civil do Rio, Álvaro Lins, estaria ajudando a quadrilha adversária. O texto do jornal adverte, no entanto, que ‘não é possível concluir que os equívocos’ encontrados ‘tenham sido cometidos com o propósito de prejudicar uns e favorecer outros’.

Não é a primeira vez que a Folha faz um trabalho interno como esse, mas é a primeira vez que o torna público. Segundo Otavio Frias Filho, diretor de Redação, ‘desde meados dos anos 80 a Folha cultiva o compromisso de corrigir erros de informação que comprovadamente tenha cometido’. Frias Filho informou que os 81 textos escritos por Xavier ‘foram meticulosamente reexaminados’. ‘Constatamos erros em apenas dois textos, publicados no dia 24 de outubro de 2005. Embora não sejam erros relevantes, foram retificados na edição de quinta-feira.’’

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