Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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VOZ DOS OUVIDORES >

Marcelo Beraba

03/04/2007 na edição 427

‘Esta última coluna como ombudsman é dedicada aos leitores da Folha que procuraram com insistência, nos últimos três anos, a intermediação desta ouvidoria para exigir do jornal mais qualidade e equilíbrio, para manifestar seus pontos de vista e para sugerir temas de artigos e reportagens. Foram 7.286 mensagens em 2004, primeiro ano do mandato, e 13.280 ao longo de 2006, um crescimento de 82% num período em que o jornal esteve com sua circulação estagnada.

Como era impossível ouvir a todos, pedi a dez dos leitores mais assíduos que me enviassem uma lista com os pontos que mais lhes agradam na Folha e aqueles que mais os incomodam.

A professora Doralice Araújo, de Curitiba, foi quem mais escreveu nos três anos, 110 mensagens. Além dela, pedi a opinião da artista plástica Maria Gilka (São Paulo), dos professores José Augusto Lisboa (São Paulo) e Carlos Brisola Marcondes (Florianópolis), do bancário Pedro Eugênio Beneduzzi Leite (Brasília), da educadora Márcia Meireles (São Paulo), do representante comercial Adilson Minossi de Oliveira (Florianópolis), da escritora Sylvia Manzano (São Paulo), de Celso Balloti (São Paulo) e do contador Ney José Pereira (São Paulo).

Críticas e elogios

O rol de queixas foi maior do que o de elogios. Dois leitores foram exclusivamente críticos, Ney José e Celso Balloti. Ney José foi o primeiro leitor com quem conversei às vésperas de assumir a função de ombudsman. Perguntei se confiava na imprensa e editei sua resposta na primeira coluna (‘Imprensa, crises e desafios’, 11/ 4/2004): ‘Confio, mas com um pé atrás, desconfiando muito’. Agora, respondeu de forma sucinta ao que mais lhe agrada na Folha: ‘Nada’.

Entre os dez comentários que recebi, quatro acham que o jornal é antipetista ou pró-PSDB. ‘Incomoda o eterno antipetismo, o eterno viés negativo de tudo que diga respeito ao PT e a Lula’, diz José Augusto. A pergunta de Celso Balloti vai na mesma direção: ‘Assumindo (…) que o tratamento dado aos petistas seja o correto, por que não houve o mesmo carnaval quando dos muitos e não menos cabeludos escândalos do governo tucano?’ Márcia Meireles acha que é ‘evidente o desequilíbrio na cobertura entre as administrações petistas e as de outros partidos’. Sylvia Manzano destaca a diversidade de assuntos tratados pela Folha, mas avalia que o jornal ‘quer a todo custo desqualificar o presidente Lula’.

Ney José acha o jornal ‘ambíguo’: ‘A Folha não é plural’. Pedro Eugênio acha que o jornal é plural nas opiniões, mas se sente incomodado com o fato ‘de a Folha não deixar claro, em editorial, que candidato está apoiando nas eleições’. Ainda em relação a posições editoriais, Carlos Marcondes elogia ‘a pluralidade de assuntos’ abordados, ‘a profundidade com que eles são tratados e a honestidade’, mas se diz incomodado ‘por um certo viés antiservidor público e simpatia excessiva por privatização’.

Quase todos reclamam do pouco espaço que os leitores têm no jornal. Márcia Meireles acha o ‘Painel do Leitor’ ‘muito pequeno’, Doralice aponta para a presença de ‘leitores afamados’ em detrimento do ‘leitor comum’, mesma queixa de Ney José (‘o ‘Painel do Leitor’ não é do leitor e sim dos mais-que-leitor’) e de Adilson de Oliveira (‘…o espaço destinado ao leitor é usado por medalhões (…) e falta espaço para quem de fato sustenta o jornal’). E José Augusto o considera ‘tendencioso’.

Márcia Meireles explica que escolhe diariamente a Folha pelo quesito ‘conjunto’: acha importante a função do ombudsman (quatro outros leitores destacaram a iniciativa do jornal), avalia que há pluralidade de opiniões, que o jornal busca equilíbrio (‘essa quimera!’) nas coberturas políticas, gosta do projeto gráfico, dos editoriais contundentes, dos debates públicos que o jornal promove, mas lhe incomoda ‘a dificuldade [da Folha] de assumir erros’, de lidar com críticas e o ‘tom arrogante’.

As outras reclamações são pontuais: ‘as legendas mal redigidas’ e ‘os temas fúteis de domingo’ (Doralice), ‘as apurações sem fonte’ (José Augusto), o ‘Painel’, ‘que se presta a todo tipo de fofocas e balões de ensaio’ (Pedro Eugênio), a página inteira de publicidade na capa da Ilustrada (Márcia Meireles), alguns colunistas (Adilson), ‘fotos escandalosas e obscenas’ e ‘a apologia que a Ilustrada e o Mais! fazem das drogas’ (Maria Gilka).

Entre os pontos positivos, além dos já citados, estão o projeto editorial do jornal e a qualidade informativa (Doralice), a diagramação e os quadrinhos (José Augusto), a seção ‘Tendências/Debates’ (Pedro Eugênio), as reportagens de denúncia e o caderno Ciência (Adilson) e a correção de erros (Maria Gilka).

O futuro

Impulsionada pelas facilidades da internet e da telefonia, a crescente participação dos leitores está transformando a produção jornalística. Não é possível fazer mais o jornalismo como entendíamos há uma ou duas décadas, de mão única. Os leitores têm mais informações, estão mais preparados para questionar e têm canais que facilitam as intervenções.

É evidente a dificuldade que os diários estão tendo para compreender e enfrentar as transformações que interferem no seu desempenho. Na minha primeira coluna, assinalei que o mandato iniciava em meio à maior crise da história das empresas jornalísticas. Deixo a função sem que a crise tenha sido de todo superada e sem que os jornais tenham dado o salto de qualidade que eu esperava e desejava.

Eles estão conscientes de que devem mudar, mas ainda não têm clareza da direção. A impressão que tenho, nestes três anos de observação, é que as empresas estão com o foco completamente voltado para a parte comercial, e a discussão sobre o conteúdo do novo jornal deixou de ser prioridade com a fragilização das Redações. Mas a saída terá de vir das Redações.

É fato que os jornais perderam uma grande fatia do bolo publicitário. Em 1996, tinham 25,64 % de participação no total do faturamento com publicidade de todos os meios. A televisão aberta tinha 60,13%. No ano passado, as TVs abertas continuavam no mesmo patamar (59,37%), enquanto os jornais caíram para 15,46% -o nível mais baixo desde que o Projeto Intermeios, da revista ‘Meio & Mensagem’, faz o levantamento.

Isso justifica uma ação forte de recuperação de mercado. Mas o principal patrimônio dos jornais continua a ser a credibilidade de suas Redações, que está associada à confiança nas informações e nas análises (qualidade) e ao equilíbrio das coberturas (pluralismo, apartidarismo).

É bom nos acostumarmos: a pressão dos leitores veio para ficar, e é bom que assim seja. Os novos tempos exigem das empresas jornalísticas equipes mais fortes, mais transparência, mais abertura para a sociedade, mais prestações de contas, mais responsabilidade social.

O apoio indispensável

O trabalho do ombudsman depende de apoios em várias áreas do jornal. A todos que facilitaram o exercício do mandato, meus agradecimentos: Rosângela Pimentel e Ricardo Perrota (assistentes); Ana Estela de Sousa Pinto, Rogério Ortega, Benedito Carlos de Almeida e Wayne Fernandes (Treinamento e Qualidade); Paulo Ramos e Thaís Nicoleti de Camargo (consultores de português); Carlos Henrique Kauffmann, Flora Pereira, Danilo Alves e Daniel Tremel (Banco de Dados); Fábio Marra (Arte), Carvall e Osvaldo (ilustradores), John Wright e Claudia Strauch (tradutores); Mauricio Puls e Paula Lago (redatores de Brasil), Alba Bruna Campanerut e Suzana Singer (Secretaria de Redação). Desejo boa sorte ao novo ombudsman, Mário Magalhães.’

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