Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Margaret Sullivan

Por Leticia Nunes em 30/06/2015 na edição 857

Escrever livros deve estar no DNA dos jornalistas do Times. Até o editor-fundador do jornal, Henry J. Raymond, os publicou, inclusive sua History of the Administration of President Lincoln [História do governo do presidente Lincoln], em 1864. No ano seguinte, ele voltou com outro título igualmente chamativo: The Life and Public Services of Abraham Lincoln [A Vida e os Serviços Públicos de Abraham Lincoln].

A tradição de escrever livros continua com a próxima publicação de Objective Troy, no qual Scott Shane explora a morte de Anwar al-Awlaki por um drone lançado pela CIA, e Power Wars, no qual o repórter Charlie Savage, de Washington, faz uma avaliação da presidência de Barack Obama.

Mas atualmente surgem questões que Henry J. Raymond não poderia ter previsto. Por exemplo, ouvi de muitos leitores comentários sobre o best-seller The Road to Character, de David Brooks, que o Times Book Review descreveu da seguinte maneira: “O colunista do Times exalta virtudes pessoais como bondade e honestidade numa época materialista.”

Há alguns meses que leitores se queixam da maneira pela qual David Brooks direciona os leitores de sua coluna no Times para o website do livro, onde podem compartilhar suas experiências – e comprar o livro.

Henry Hamman, de Sewanee, no Tennessee, escreveu dizendo que estava “espantado” com a autopromoção feita por Brooks no recente texto “What Is Your Purpose?” [Qual é seu objetivo?]. “David Brooks deixa seu objetivo para escrever a coluna muito claro: ele quer vender mais livros”, disse ele.

“Furos no livro” são sutis

E pouco depois que foi divulgado um artigo do site Salon pormenorizando erros factuais no uso feito pelo livro de uma estatística importante, a leitora Connie Boyd, de Denver, Colorado, escreveu-me perguntando se isso implicava questionar a exatidão das colunas de David Brooks.

Falei com David Brooks e com o editor da página de Opinião, Andrew Rosenthal, sobre estas queixas. Brooks disse-me que passou por duas correções para as novas edições (segundo ele, uma correção inicial não foi suficiente) e que uma coluna no Times que divulgava a mesma informação também seria corrigida. Depois, após uma decisão de Andrew Rosenthal, ele disse que não iria mais usar um link em sua coluna, vinculando-a ao website do livro; ao invés disso, ele disse que vai convidar a uma participação num blog do Times.

David Brooks discordou que as colunas que citassem o livro fossem de autopromoção. “Não é um desserviço aos leitores escrever sobre esse assunto”, disse ele, destacando que uma coluna que teve o título The Moral Bucket List [sobre experiências que levem a uma vida interior mais rica] talvez tenha sido a mais popular que escreveu até hoje. Os fatos citados nas colunas são checados duas vezes antes de ser publicados, disse ele. Num ano em que escreveu 100 colunas, disse David Brooks, teve apena meia dúzia de correções.

O que acontece se os repórteres encontrarem notícias enquanto fazem pesquisas para seus livros? Perguntei a Scott Shane e Charlie Savage, cujos livros abordam a segurança nacional, como tratariam disso. Ambos disseram que, se tivessem desenterrado notícias quentes, teriam enviado para o jornal sem hesitação alguma. “Meu livro tem uma tonelada de novas informações, mas se eu tivesse descolado um texto específico com notícias urgentes – a existência de um programa secreto e ilegal, por exemplo –, eu teria enviado um artigo para o jornal na mesma hora”, disse Charlie Savage. Scott Shane disse que os “furos de seu livro” eram relativamente sutis – nada que fornecesse “alimento para matérias escandalosas de primeira página”.

Escrever livros beneficia os jornalistas

À medida que se aproximam as datas em que serão publicados seus livros, os jornalistas do Times muitas vezes propõem matérias relacionadas à pesquisa que fizeram aos editores do Times Sunday Review – na capa ou em textos internos.

É inevitável que existam estratégias de pressionar e puxar. Scott Shane relembra: “Quando Anwar al-Awlaki se tornou uma influência no tiroteio que ocorreu no Charlie Hebdo, em janeiro, escrevi uma matéria que se inspirava em livros-reportagem. Era um momento óbvio para escrever o texto e não me opus.” Porém, disse ele, isso complica, e bastante, seus esforços para encontrar um texto jornalístico numa revista com base em seu livro.

É de se esperar que um bom repórter, que passa meses ou anos fazendo pesquisas para um livro, acabará produzindo material jornalístico. Num caso famoso, a proximidade da publicação do livro State of War, de James Risen, levou os editores a acabarem imprimindo em 2005, contra a vontade, uma matéria de grande sucesso que vinha sendo adiada, sobre o programa ilegal de grampos telefônicos no governo Bush. E uma importante matéria de 2012, de David Sanger, sobre o programa nuclear do Irã, foi publicada na primeira página imediatamente antes da publicação de seu livro, Confront and Conceal.

É claro que escrever livros beneficia os jornalistas do Times. Ao mesmo tempo, o destaque de seus jornalistas melhora a reputação do Times, e, às vezes, o seu jornalismo. A competência de Scott Shane, por exemplo, ficou óbvia num artigo de primeira página que dava continuidade à notícia, em abril passado, de que um ataque por drone norte-americano matara, por engano, dois reféns ocidentais no Paquistão.

O jornal e os leitores em primeiro lugar

No entanto, a questão aparece: será que é possível servir a dois amos – o Times e o negócio de vender livros? Os jornalistas do Times respondem rapidamente que suas prioridades são corretas. “Minha principal missão é a coluna”, disse David Brooks. Um livro bem pesquisado, disse ele, aprofunda a experiência de um escritor e enriquece o seu jornalismo.

No entanto, Andrew Rosenthal disse-me que ele identifica um perigo: “A coisa é delicada. Os livros são, intrinsecamente, um empreendimento comercial.”

William Hamilton, editor do primeiro escalão da sucursal de Washington, reconhece que membros da equipe escrevendo livros “podem provocar uma porção de complicações”, inclusive na necessidade de contratar pessoas para preencher o lugar dos repórteres durante as ausências por conta do livro. E “poderia dizer-se”, afirma ele, que pode atrasar a divulgação da notícia junto ao público. Porém, no geral, pelos motivos acima citados, “é ótimo para os jornais e para seus repórteres”.

Fazer a coisa certa exige vigilância. Os jornalistas e seus editores devem proteger-se da autopromoção ou o que pareça sê-lo. E quando emerge algo de importância jornalística, é de suprema importância colocar o jornal e seus leitores em primeiro lugar. Qualquer outra coisa só pode desvirtuar a credibilidade do Times, que deve ser protegida – e não apenas porque, em última instância, ajuda a vender livros.

***

Margaret Sullivan é ombudsman do New York Times

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