Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Margareth Sullivan

Por Carlos Castilho em 12/01/2016 na edição 885

Qual é a principal matéria do ano que começa para o New York Times? É bastante óbvio: é a eleição presidencial. E qual é a matéria mais significativa de âmbito internacional? É a das rivalidades e tensões no Oriente Médio, inclusive a da luta contínua contra a organização Estado Islâmico. E qual é, em termos abrangentes, a principal questão da época que vivemos? A de como as mudanças climáticas afetam o planeta.

Os leitores do Times terão suas respostas a estas questões, mas estas são as que foram citadas pelo editor-executivo do jornal, Dean Baquet. Já que 2016 acaba de começar e sabe-se que será um ano cheio de acontecimentos, conversei com Dean Baquet na semana passada e pedi-lhe uma previsão para o futuro – não só em relação ao jornalismo que os leitores podem esperar, mas também às mudanças dentro do jornal, na medida em que este continua lutando com um panorama em que a mídia vem mudando rapidamente.

Uma das preocupações do editor-chefe é como continuar o processo de transformação da redação do Times de forma a reconhecer as rápidas mudanças nos hábitos de leitura. “Nós seríamos malucos se não disséssemos que temos que fazer as coisas de outra maneira, quando as pessoas nos estão lendo de outra maneira”, disse-me ele.

A maior mudança, provavelmente, é que muitas dessas pessoas não só estão lendo o Times online, mas num smartphone. Isso significa que o jornalismo visual – inclusive os vídeos que são oferecidos – se tornará mais central do que nunca. E também significa que ainda mais jornalismo deverá ser apresentado com ferramentas digitais em primeiro plano, e não como uma reflexão tardia.

Provavelmente teremos que diminuir um pouco”

Dean Baquet deu o exemplo de um trabalho feito por Michael Kimmelman, crítico de arquitetura do jornal, no ano passado. Algumas de suas matérias afastaram-se dos limites tradicionais da prosa, fazendo-se acompanhar por fotografias. Sua crítica do novo prédio do Museu Whitney, por exemplo, destacava elementos de multimídia detalhados, anexados ao texto, e seu trabalho sobre arquitetura e som ganhava uma experiência melhor com o uso de fones de ouvido.

“Nós temos que continuar perguntando: ‘Qual é a melhor maneira de contar uma história?’”, disse Dean Baquet. Isso significa que a própria redação precisa de mudar – consideravelmente.

Em 2015, as mudanças estruturais incluíram a montagem de um dispositivo de impressão que interligava os computadores de uma rede local para tratar da produção do jornal impresso [print hub], que ainda é muito importante para muitos leitores e para a lucratividade da empresa. Entretanto, uma equipe de “notícias imediatas” se encarrega de atualizar imediatamente o desenvolvimento da notícia e cria a versão do próprio Times de temas candentes que ganham a atenção das redes sociais.

Paralelamente a isso, os editores do Times também continuam enfatizando a reportagem investigativa, disse Dean Baquet. Um exemplo disso foi a série de matérias investigativas sobre o crescimento da mediação individual legal (empresas buscam descartar direitos de justiça, substituindo-os por acordos que lesam os consumidores).

O Times teve a sorte de conseguir manter sua numerosa equipe de redação – cerca de 1.300 pessoas. Muitas outras equipes de jornais são uma sombra do que eram há 15 anos, com metade, ou até menos, do pessoal dessa época. Dean Baquet disse que espera que esse número seja mantido durante este ano, mas com o passar do tempo não será realista devido à queda da receita publicitária que embalava toda a indústria jornalística. “Considerando a realidade do mundo do jornalismo em que estamos, definitivamente não poderemos crescer e provavelmente teremos que diminuir um pouco”, disse ele. “Mas continuaremos sólidos.”

Fontes anônimas como “último recurso”

O Times está em vias de modernizar sua operação de vídeo e Alexandra MacCallum, editora de primeiro escalão, foi recentemente nomeada para a chefiar. Considerando o potencial do vídeo para gerar dinheiro em publicidade, ela deverá prestar contas a Dean Baquet e a Meredith Kopit Levien, responsável pelo departamento de receita do jornal. Isso seria impossível de acontecer dez anos atrás, mas atualmente há uma cooperação muito maior entre o lado comercial e a redação, o que inclui a nomeação de um editor da redação para responder por projetos de desenvolvimento que atraiam patrocinadores empresariais.

Os puristas podem sentir calafrios com esses acordos. E isso é compreensível, uma vez que há um perigo intrínseco de que o jornalismo seja guiado pelos interesses comerciais da empresa; é uma preocupação semelhante àquelas que envolvem empresas que fazem incursões em publicidade com conteúdo jornalístico [native advertising], que se parece com o conteúdo do noticiário. Tudo isso exige uma vigilância firme.

Dean Baquet frisou que as decisões jornalísticas sobre os vídeos serão suas. Também disse que estava cada vez mais consciente de um grande perigo da mídia atual: que o aumento da velocidade e a concorrência brutal ponham em risco a exatidão. “Temos que ser capazes de desacelerar o trem”, disse ele. Disse ainda que está sintonizado com necessidade de “editar de maneira mais agressiva e ser mais cauteloso”. Isso veio à superfície no ano passado com dois erros de primeira página em artigos da filial de Washington, sobre os quais escrevi em posts em meu blog.

Os editores reconheceram que uma parte desses problemas envolvia o uso excessivo de fontes anônimas e, nas últimas semanas, começaram a avaliar como usá-las de maneira mais cuidadosa. Dean Baquet disse que espera adotar em breve uma nova política, mais rigorosa, de acordo com a qual os artigos que dependem desse tipo de fontes sejam examinados por um entre uma meia dúzia de editores antes de serem publicados. (Essa é uma boa ideia; eu também gostaria de ver o Times adotar em seu manual de redação que essas fontes só devem ser utilizadas como “último recurso”.)

Da qualidade e da credibilidade depende tudo o mais

Um dos pontos altos do ano passado, segundo o editor-executivo, foi a contratação de três críticos de cultura excepcionais: James Poniewozik, Jennifer Senior e Wesley Morris. “Demos um passo importante no sentido de melhorar nossa editoria de cultura”, disse ele. “É incomum contratar três críticos em um ano e todos eles são fabulosos.”

Outra prioridade é aumentar a audiência global do Times, um aspecto fundamental de sua meta de duplicar a receita digital para 800 milhões de dólares até 2020. Parte disso envolve a tradução do Times para várias línguas para atrair novos leitores, assim como tentar alcançar mais leitores de língua inglesa pelo mundo afora.

É muita coisa para equilibrar, principalmente num ano que, com certeza, será cheio de acontecimentos políticos, em especial na frente política. Porém, nos negócios atuais e no ambiente jornalístico, não há um momento a perder. “Tenho uma sensação de urgência”, disse Dean Baquet. E com razão. Um comunicado do mês de outubro de Baquet para Mark Thompson, diretor da empresa, estabelecendo metas para o futuro, tinha uma frase que considerei arrepiante: “Numa avaliação do que conseguimos, nossos negócios digitais não estão nem perto de confirmar a escala de nossas ambições.”

No entanto, e ao mesmo tempo, muito se perderia se essas mudanças rápidas e necessárias prejudicassem a qualidade e a credibilidade do Times. Como a maioria das pessoas no Times (e também certamente seus leitores) está plenamente consciente, é disso que depende tudo o mais.

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