Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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VOZ DOS OUVIDORES >

Margareth Sullivan

Por Carlos Castilho em 26/01/2016 na edição 887

Se você for Donald Trump, surrar o New York Times sempre deve parecer uma boa ideia.

Portanto, nada teve de surpreendente ouvir uma frase de efeito durante o debate deste mês com os candidatos republicanos à presidência. Ao ser questionado sobre sua proposta – feita durante um recente encontro com a diretoria editorial do Times – de cobrar um imposto de 45% sobre todas as mercadorias chinesas que entrassem nos Estados Unidos, ele disse: “Isso está errado. Eles erraram. É o New York Times. Eles estão sempre errados.” Aparentemente, não. No caso em questão, uma gravação do encontro publicada pelo jornal apoia seu relato do que o candidato disse.

À medida que se desenvolve a mais bizarra campanha presidencial de que se tem conhecimento – com os caucuses de Iowa (encontros em que os eleitores do estado de Iowa elegem delegados para as correspondentes convenções regionais) e a primária de New Hampshire no mês que vem – é mais importante do que nunca que o New York Times não só continue verificando a exatidão dos candidatos, mas que também seja, ele próprio, preciso e imparcial.

Portanto, vamos dar uma olhada. Como foi até aqui e o que dizem os leitores sobre a cobertura da campanha?

1. Checando os fatos

Examinar a verdade – ou falta de – das declarações políticas “é o maior serviço que prestamos aos leitores”, disse-me recentemente Carolyn Ryan, editora de política, quando escrevi sobre o novo esforço do Times de embutir traços de “checagem de dados” na cobertura política. “Portanto, estamos tentando ser implacáveis e agressivos em relação a isso.” A nova maneira de apresentar, assim como a ênfase na checagem de dados, fortalecem a cobertura política do Times e as coisas vão bem, em especial durante e após cada um dos debates.

O Times também precisa corrigir seus erros rapidamente, e em geral o faz. No entanto, numa situação recente, demorou tanto a fazê-lo – uma espera de um mês para corrigir um erro numa matéria de primeira página – que deu a Marco Rubio credibilidade para boicotar o plano de saúde de Barack Obama, inserindo uma provisão para uma lei de gastos completa. Quando o erro foi corrigido, uma versão da matéria já se tornara parte do discurso de Rubio – e publicidade.

2. Pesquisa de voto

Há muito tempo que o Times faz matérias com base em pesquisas de opinião pública durante campanhas; fez isso em conjunto com a CBS News e continua a fazê-lo. Pretende fazer uma pesquisa por mês até novembro – a primeira foi feita no início deste mês.

John Broder, que dirige o departamento de pesquisas de informação, diz que as pesquisas terão como enfoque assuntos e tendências, e não quais os candidatos que aparentemente lideram as expectativas de votação. Em parte devido a isso, explicou Broder, as pesquisas são nacionais, e não estaduais. A pesquisa de janeiro, por exemplo, fornecia os números vinculados a um artigo de primeira página da semana passada sobre a popularidade de Donald Trump com eleitores evangélicos. O artigo fazia a análise dos números com entrevistas.

O Times também aumentou sua dimensão de amostra para incluir mais eleitores latinos, uma parcela cada vez mais importante do eleitorado. E começou a experimentar o uso de pesquisas online. De certa maneira, isso diminui a dependência das pesquisas por telefone e pode se tornar inevitável, na medida em que cada vez menos pessoas usam telefone fixo e não atendem seus celulares quando reconhecem quem está ligando.

Com tantas outras pesquisas tendo por enfoque as previsões, a concentração que o Times faz nos assuntos de uma esfera mais ampla é a abordagem correta. “Queremos o enfoque dirigido para o eleitorado, e não para a corrida de cavalos”, disse-me John Broder.

3. A avaliação da notícia

Uma coisa que ouço incansavelmente dos leitores é o que eles consideram a cobertura inadequada que o Times faz da campanha de Bernie Sanders. Anne Bryan, de Denver, escreveu-me na semana passada: “Recebemos uma cobertura infindável sobre o mau comportamento de Trump, alguma cobertura de Hillary Clinton, mas muito sobre Sanders e seus projetos, propostas e o contínuo apoio de milhares de cidadãos. Ao ignorar o outro único candidato democrata viável, o Times dá a impressão de que se trata de um ‘fato consumado’ e as opiniões de muitas pessoas não são relevantes.”

Há alguns meses, fiz uma leitura atenta da cobertura de Sanders feita pelo Times e do tom de abordagem. Minha conclusão foi de que, embora sua candidatura não tenha sido ignorada, foi minimizada. E, às vezes, a cobertura parecia desdenhosa, ou mesmo ridícula. Na época, Carolyn Ryan chamou a atenção dos leitores para um número significativo de artigos sérios sobre Sanders e discordou veementemente das queixas em relação ao tom de abordagem. Nas últimas semanas, notei algumas melhorias, inclusive o fato de ter sido designado um repórter para a campanha de Sanders em tempo integral. (Por outro lado, o Times retirou um repórter designado para a campanha de Hillary Clinton em 2013.) Um artigo recente destacou o “déficit de entusiasmo” que pode favorecer Bernie Sanders. Porém, como destacam os leitores, sua campanha ainda é frequentemente vista através da lente de como isso afeta Hillary Clinton, e não por seus méritos.

4. Opções de tom de abordagem e escolha de matérias

A cobertura política não precisa, com certeza, ser demasiado séria o tempo todo. Na realidade, deveria refletir a atmosfera surrealista das campanhas presidenciais. Escrever de uma maneira coloquial – e até divertida – é uma mudança de passo bem-vinda. Mas alguns leitores acham que, às vezes, o Times vai longe demais, passando do coloquial ao superficial – e mesmo à fofoca.

Joseph O’Kelly, de Houston, descreveu um artigo sobre as botas brilhantes de Marco Rubio como “reportagem de tabloide”. Escreveu: “Eu espero que o NYT proporcione reportagens de qualidade. Fico espantado que um artigo desses aparentemente possa ser uma notícia de primeira página.” (Para ser justa, a matéria não foi para a primeira página, mas foi para a homepage da edição digital. E foi produzida pela equipe de política; era uma matéria de moda. No entanto, foi um repórter de política do Times que abordou o assunto com um tweet sobre as botas do senador – e posteriormente esse repórter escreveu sobre a reação para o Times Insider.)

Muitos leitores escreveram-me reclamando da introdução, por uma fonte anônima, a um artigo da semana passada sobre o apoio a Hillary Clinton entre as mulheres, e chamaram a matéria de desleal para com a candidata. E Richard Longworth, de Chicago – que se autodescreve como “um democrata ferrenho que não se importaria se Ted Cruz [senador republicano e também candidato presidencial] caísse em baixo de um ônibus” – opôs-se a um artigo sobre Heidi Cruz, esposa do candidato, chamando a citação do seu quase colapso mental “um golpe baixo”.

Carolyn Ryan disse que a matéria sobre Heidi Cruz tinha sido tratada com delicadeza e que “oferecia um perfil equilibrado de sua personalidade, de seu intelecto e experiências de vida, inclusive de momentos em que ela lutou”. Ela destacou que a campanha de Ted Cruz não manifestara reclamações em relação à justiça do artigo e que Heidi Cruz já falara publicamente sobre sua crise no passado. Ela enfatizou que textos mais leves ou mais pessoais complementam a cobertura de notícias e assuntos; não os substituem. E, diz ela, eles são parte da missão do Times: apresentar os vários ângulos dos candidatos para que os eleitores possam ser informados sobre a decisão mais pessoal que eles tomam na política.

Histórias pessoais como essa sobre Heidi Cruz, e mesmo outras mais leves, como aquela sobre as botas de Marco Rubio, têm lugar garantido na cobertura. A matéria sobre Hillary Clinton e as mulheres também era um assunto legítimo – embora sua credibilidade tenha sofrido o golpe da fonte anônima.

À medida que a campanha continua, dizem-me os leitores do Times, eles gostariam de ver menos obsessão com Hillary Clinton, menos cobertura guiada pelas personalidades, menos matérias sobre corridas de cavalos e mais reportagens em profundidade sobre as questões críticas que enfrenta a nação.

Com o predomínio de Donald Trump no lado republicano e a força de Bernie Sanders no lado democrata, esta campanha desconcertou a sabedoria convencional. Haverá mais surpresas pela frente, sem dúvida. À medida que o Times as enfrenta, servirá melhor aos leitores mantendo o enfoque nos assuntos, antes de tudo com precisão e imparcialidade.

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Margaret Sullivan é ombudsman do New York Times

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