Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Mário Magalhães

17/07/2007 na edição 442

‘Não sei se o ex-ministro Silas Rondeau é ladrão.

Ou, melhor dizendo, se ele recebeu propina da empreiteira Gautama quando dirigia a pasta de Minas e Energia.

A Polícia Federal suspeita que Rondeau tenha embolsado suborno de R$ 100 mil, em troca de facilidades no programa Luz Para Todos. Ele nega.

No dia 21 de maio, a Folha noticiou o conteúdo de um vídeo do circuito interno do ministério. A PF o obteve na investigação sobre fraudes em obras públicas que resultou na Operação Navalha.

O jornal afirmou: ‘As imagens mostram uma funcionária da Gautama, Fátima Palmeira, entrando no ministério pelo elevador privativo no dia 13 de março deste ano. Ela carrega um envelope de cor parda, no qual a PF acredita que estavam R$ 100 mil’.

Prosseguiu o texto: ‘Diretora financeira da Gautama, ela se dirige até o andar do gabinete de Silas Rondeau. Lá, encontra-se com o assessor do ministro Ivo Almeida Costa, preso na Operação Navalha. Meia hora depois, as imagens registram a saída de Fátima e de Ivo do gabinete. Aí, quem está de posse do envelope é o assessor’.

Perguntei, e a Redação informou que teve acesso às imagens ‘com uma fonte’. Na véspera, o programa ‘Fantástico’ as havia exibido com ineditismo e as descrito de modo semelhante ao do jornal -a rigor, de boa parte dos jornais- no dia seguinte.

O tal envelope ganhou destaque desproporcional na detalhada apuração da polícia. A PF acompanhou o saque em agência bancária, testemunhou encontros, interceptou telefonemas tratando de dinheiro e da incursão da diretora da Gautama por uma entrada discreta do prédio público. Seria estranho que focasse um envelope, e não a bolsa de razoável dimensão nos braços da visitante.

O ministro pediu demissão em 22 de maio, inexistindo prova conclusiva contra si, embora os indícios estejam longe de ser desprezíveis.

Laudo

No fim de semana passado, a revista ‘Carta Capital’ divulgou laudo encomendado pela defesa de Ivo Costa, ex-assessor de Rondeau. O perito Ricardo Molina de Figueiredo sustenta que não havia envelope com Fátima e que Ivo Costa tinha nas mãos uma folha branca de papel.

No sábado retrasado, o ‘Jornal Nacional’ veiculou reportagem descrevendo a perícia. Na segunda, a Folha titulou: ‘PF não afasta suspeita sobre ex-ministro’.

Contou que, ‘de acordo com a investigação da Polícia Federal, [o dinheiro da propina] foi [levado] ao ministério na bolsa da diretora financeira […]’ da construtora.

O jornal não lembrou ter bancado a impressão original da PF. Mais grave, reafirmou que havia envelope com Fátima Palmeira e Ivo Costa. Disse que Molina ‘concluiu não ser possível colocar R$ 100 mil num envelope como o das imagens’, quando o laudo vai muito além: nega haver envelope e afirma que, além da bolsa, Fátima levava apenas um celular e ‘uma espécie de livro com capa escura’.

Resolvi checar: na internet, vi e revi o vídeo transmitido pela TV Globo, o mesmo analisado por Molina.

Não identifiquei envelope com a representante da Gautama. Com o ex-assessor, há na mão um objeto branco que aparenta ser de fato uma folha de papel. Esquadrinhei o laudo, que parece fiel às imagens. O que o laudo não diz: o volume estimado pelo próprio estudo para um pacote com mil notas de R$ 100 caberia na bolsa feminina.

Para a Redação, a reportagem de maio foi correta: ‘[A Folha] recebeu a informação de fonte qualificada e teve acesso a um pen drive com as imagens. Nelas, Fátima carrega um volume sob o braço, que parece ser um envelope de cor parda, e o assessor também carrega um papel’.

‘É argumentável, como a perícia depois indicou, que não eram envelopes suficientemente grandes para carregar R$ 100 mil, mas a imagem não permite dizer isso. Como a imagem foi analisada em off dos investigadores do caso, foi colocada a versão de que ‘a PF suspeita’.’ A Redação continua a insistir: ‘Há um objeto na mão da assessora que pode ser um envelope’.

Uma deficiência do jornalismo é se associar a algumas versões sem o devido senso crítico. Basta observar o vídeo com atenção para constatar que ele não mostra envelope, pardo ou de qualquer cor.

Ainda que agentes da Polícia Federal dissessem que sim, o jornal não deveria subscrever o engano.

Na hora de reportar suspeitas e acusações, nós jornalistas obedecemos a um certo efeito boiada: um dispara, os outros correm atrás e ecoam.

Quando se trata de corrigir ou recuar, impõe-se uma operação tartaruga, atávica, muitas vezes involuntária. Quem perde são os leitores.’

***

‘Nem oba-oba nem cricri; vaia valia manchete’ , copyright Folha de S. Paulo, 15/07/07.

‘Nunca houve evento esportivo no Brasil que configurasse desafio ao jornalismo como os 15º Jogos Pan-Americanos inaugurados anteontem.

Para os jornais, há um desafio suplementar: a overdose informativa, estabelecida pela TV, se amplificou com os serviços noticiosos on-line.

Se os leitores dos diários merecem receber a melhor síntese dos fatos da véspera, parcela deles já acompanhou -por outros meios- jogos, provas, lutas e apresentações.

A Copa de 2006 confirmou que, sem surpreender, jornais amanhecem enrugados. As surpresas se dão com ‘furos’, opinião, tratamento da informação e narrativas saborosas.

As grandes histórias do esporte são as dos triunfos e das frustrações. Contá-las não implica abrir mão de fiscalizar o poder. A Folha faz bem em monitorar a gastança no Pan com dinheiro público.

Errou ao não dar manchete ontem para as já históricas vaias ao presidente Lula no Maracanã.

Recusar o papel promocional, contudo, não deveria tornar o jornal um colecionador de resmungos. Recomenda-se driblar não apenas o oba-oba, mas também o tom cricri.

Desde a quarta circula um caderno sobre o Pan, com número variável de páginas. A equipe da Folha tem 15 enviados (dos quais seis fotógrafos) e seis repórteres da Sucursal do Rio -estes cobrem, além da competição, os acontecimentos da cidade, incluindo a violência. Colunistas do jornal e convidados escreverão. Em São Paulo, 13 jornalistas cuidam da edição.

O Rio sonha sediar a Olimpíada de 2016. ‘O Pan é um teste não somente para o esporte, mas para a cidade e a mídia’, diz o editor de Esportes da Folha, José Henrique Mariante. ‘Queremos achar na nossa cobertura a boa medida entre a vibração e a crítica, saber valorizar o que é importante e o que é só espuma’.’

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