Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Mário Magalhães

04/09/2007 na edição 449

‘Metade dos leitores já teve a chance de ver os desenhos acima. A Revista da Folha, cuja circulação se limita a parte do país, publicou-os no domingo retrasado. As ilustrações emolduraram o relato sobre levantamento do Datafolha que indagou aos paulistanos sua opinião sobre gays exercerem 11 profissões ou funções.

Os entrevistados se revelaram mais tolerantes com a sexualidade de cada um do que o magistrado segundo o qual futebol é coisa de macho. Em suas palavras, ‘jogo viril, varonil, não homossexual’.

No mesmo dia, o jornal veiculou na seção ‘Tendências/ Debates’ um artigo do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal.

Intitulado ‘A igualdade é colorida’, abria com o que a terminologia militarizada do antigo esporte bretão denominaria de petardo. ‘São 18 milhões de cidadãos considerados de segunda categoria: pagam impostos, votam, sujeitam-se a normas legais, mas, ainda assim, são vítimas de preconceitos, discriminações, insultos e chacotas.’

A mesma edição da Folha robusteceu a assertiva páginas adiante, na revista. Pois o que são, se não preconceito e chacota, as imagens sobre os homossexuais investidos nos cargos elencados na pesquisa?

O presidente da República, meio traseiro de fora, equilibra-se sobre um salto plataforma e colore a cabeça à Pequena Notável. O ministro delineia as pernocas com meia-calça arrastão. O senador ou deputado federal infla peitões exuberantes e siliconados.

O militar combina bigodão, sunguete e jaqueta com barriguinha de fora. O professor, o padre católico, o pastor evangélico e o juiz ou promotor de Justiça desmunhecam com afetação capaz de fraturar ossos do pulso. O jogador de futebol, pelado, se senta na bola.

Só faltou um chicotinho.

Não existem gays assim? Existem. Mas as caricaturas não sintetizam os homens e as mulheres que optaram pelo amor entre iguais. Os estereótipos reproduzem o olhar mais rasteiro sobre a diferença. Lenga-lenga politicamente correta? Quem dera fosse. Essa amarra do pensamento em nome do alegado bom-tom é uma patrulha que sufoca os espíritos e tolhe as ações.

Por outro lado, desqualificar a recusa à homofobia rebaixando-a ao mal do politicamente correto muitas vezes não passa de escudo de ocasião para justificar a lança discriminatória. O deboche dos homossexuais é velhaco. A novidade é o não a ele.

Intriga-me nas ilustrações seu contraste com um diário cuja tradição é dedicar espaço noticioso e opinativo a todas as preferências sexuais. A própria Revista da Folha acolhe a coluna ‘GLS’, iniciais de gays, lésbicas e simpatizantes.

Ao seu lado, na página sob a rubrica ‘Plural’, um colunista escreveu em maio, tratando da carta de mulher seduzida pelo coito anal com o marido: ‘A sensação de entrega, para quem gosta [dessa relação], é inigualável, e será fonte de prazer para vocês dois’.

Leitores se insurgem? Nesse caso, dois. Mas o projeto editorial da Folha contempla a diversidade. Faz bem.

A motivação para o trabalho do Datafolha foi o despacho de um juiz sobre queixa-crime do futebolista Richarlyson contra um cartola do Palmeiras que insinuou a homossexualidade do atleta são-paulino.

Além das lições a respeito de virilidade, Manoel Maximiano Junqueira Filho sentenciou que, se gay, ‘melhor seria que [o jogador] abandonasse os gramados’.

Na contramão, 79% dos moradores da capital paulista, quase quatro em cinco, aprovam os homossexuais no futebol (margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos).

A Folha incentivou o debate sobre a decisão judicial e o artigo do ministro. Nela, contudo, saíram os desenhos que, para tantos leitores que me procuraram, vitaminam o preconceito e insultam.

Esse jornalismo bipolar rejeita a homofobia, mas imprime lugares-comuns homofóbicos. Filiam-se a ele os assuntos noticiados com exagero que logo são esquecidos; o desequilíbrio editorial que se move entre os pratos da balança; a leniência que se alterna com a postura inquisitorial.

O cartunista Caco Galhardo, autor das ilustrações, as defende: ‘As pessoas estão mais abertas em relação ao politicamente correto. Baseado nisso, me senti ainda mais à vontade para brincar com os profissionais homossexuais’.

‘Fiz o trabalho com liberdade, jamais pensei em ofender, principalmente os gays, contra os quais não nutro o menor preconceito. Achei divertido, jamais ofensivo, e apostei no espírito da drag queen. Talvez esses desenhos possam ser mais bem assimilados daqui a dois anos.’’

***

‘Para autor, desenhos derrubam preconceito’, copyright Folha de S. Paulo, 2/9/07.

‘Seguem mais comentários de Caco Galhardo, cartunista que admiro e respeito, embora divirjamos nesse episódio.

A idéia era retratar profissionais homossexuais. O que diferencia um profissional homossexual de um heterossexual? Não vejo diferença. A única forma que encontrei para criar essa diferença foi no exagero, na brincadeira, no humor. Retratar a matéria de um modo bem-humorado. É claro que os homossexuais não são como os personagens desenhados, que os gays não se comportam dessa maneira, mas, se você vai a uma festa e vê uma drag queen maluca soltando a franga, é sempre muito divertido. Foi esse espírito que eu trouxe para ilustrar a matéria. Ele é ótimo para derrubar preconceitos. Matá-lo seria um tremendo passo para trás. Vamos desenhar gays soltando a franga, por que não? Gays não podem soltar a franga? É um estereótipo? Talvez amanhã deixe de ser e passe a ser visto como algo comum. Desenhei os personagens soltando a franga, estão todos sorrindo e felizes, e achei que a brincadeira, mesmo com exageros, seria bem assimilada. Mas eis que leitores se sentiram ofendidos, acharam os desenhos preconceituosos e homofóbicos. Certamente muitos entenderam a brincadeira e se divertiram com ela.’

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