Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Mário Magalhães

25/09/2007 na edição 452

‘No dia 2 de junho de 1976, poucas semanas antes de completar 48 anos, o jornalista americano Don Bolles acionou a ignição do seu carro na cidade de Phoenix. Uma bomba explodiu, e 11 dias depois os ferimentos causaram a morte do repórter do diário ‘Arizona Republic’. Ele investigava o crime organizado, e provavelmente sua morte foi encomenda de mafiosos.

Em uma reação inédita que jamais se repetiria nos EUA, 38 profissionais de 28 jornais e redes de TV se uniram no que seria conhecido como ‘Projeto Arizona’: retomar e aprofundar a apuração que o colega assassinado tocava sobre fraudes em registro de terrenos.

Isso mesmo: embora buscassem informações e cobrassem das autoridades a elucidação do homicídio, eles se concentraram em desvendar as falcatruas. Seu recado: se matarem um jornalista, muitos outros virão para contar mais sobre os fatos cujo interesse em ocultar custou uma vida.

Os participantes produziram uma série de reportagens, reconhecida por numerosos prêmios jornalísticos.

No começo da noite da quarta-feira, um dos mais premiados jornalistas brasileiros, Amaury Ribeiro Jr., 44, estava em um bar em Cidade Ocidental (GO), na região conhecida como Entorno de Brasília, nas proximidades da capital.

Um adolescente entrou armado com um revólver calibre 38 e apressou o passo rumo ao repórter. Ribeiro Jr. pulou sobre o agressor, mas uma das balas disparadas perfurou-o na barriga. Até anteontem, vivo e ansioso para retomar o trabalho, ele seguia no hospital. O atirador fugiu.

O trabalho que o jornalista desenvolvera nas semanas anteriores para o ‘Correio Braziliense’ fora um mergulho na violência do Entorno.

No balanço dos seis últimos meses, publicado no dia 4 passado, Ribeiro Jr. informou que foram assassinados no local 41 jovens de 13 a 18 anos e mais 109 de 19 a 26. Total de 150. Na maioria dos casos, os suspeitos são narcotraficantes.

Foi o prelúdio de uma seqüência de reportagens. A repercussão foi tamanha que o governo anunciou o envio da Força Nacional de Segurança.

Até a sexta-feira, os indícios sugeriam que a tentativa de assassinato foi um atentado contra o jornalismo. Um ato de represália à revelação de crimes e criminosos. Ribeiro Jr. escrevera no ‘Correio’: ‘Na disputa com grupos rivais, bandidos obrigam jovens usuários de merla [subproduto da cocaína], endividados pelo vício, a trabalhar como pistoleiros do tráfico’.

Entidades do Brasil e do exterior qualificaram o episódio como uma ação contra a liberdade de imprensa e exigiram a punição dos autores.

Editoriais e manifestos são justos e bem-vindos. Não é esse, porém, o papel mais relevante do jornalismo. A descoberta de quem tentou matar o repórter é urgente, mas a tarefa é, na essência, policial. Fazer justiça é prerrogativa da Justiça.

Há interesse público em reportar a barbárie vigente nas cercanias da sede do poder. Os municípios do Entorno perfilam entre os mais violentos do país. Afundam-se em uma degradação social temperada pela pobreza e a droga.

O ataque a um jornalista que se dedica a expor essa tragédia é também uma tentativa de calar o jornalismo. Deve ser enfrentado com mais reportagens, mesmo sem uma força-tarefa como a de 1976.

A imprensa cumpre sua vocação quando fiscaliza o poder, seja encarnado em um figurão do Senado ou em um exterminador da periferia. As agressões físicas a jornalistas precisam ser respondidas com jornalismo, monitorando e incomodando quem tem motivos para isso.

***

‘Anotações sobre corporativismo’, copyright Folha de S. Paulo, 23/9/07.

‘O atentado da quarta-feira reedita um debate acalorado de cinco anos atrás: o corporativismo resulta em atenção desproporcional sobre crimes contra jornalistas? Em 2002, o repórter Tim Lopes, da TV Globo, foi morto por traficantes. Seu assassinato foi objeto de vasto interesse midiático até a prisão dos algozes.

Em 2005, Luiz Antônio Ryff escreveu no hoje extinto site www.nominimo.com.br uma reportagem que receberia o Prêmio Lorenzo Natali, da União Européia. Contou a história de um cidadão morto ‘na mesma noite, da mesma forma, executado pelo mesmo grupo [que matou Tim]’.

A data coincidia com o sumiço de um metalúrgico pobre. Uma ossada foi encontrada, mas após três anos não havia sido feito exame de DNA para identificá-la. Neste caso, a polícia não se empenhou como no outro inquérito.

Conforme o ‘Aurélio’, corporativismo é a ‘ação (sindical, política) em que prevalece a defesa dos interesses ou privilégios de um setor organizado da sociedade, em detrimento do interesse público’.

Comparando o noticiário sobre as duas mortes (a respeito da do metalúrgico quase nada se divulgou), Ryff, hoje professor de jornalismo da PUC-Rio, comenta: ‘O jornalismo é mesmo um pouco corporativo, no mundo inteiro. Mas, se fosse um artista, também haveria destaque. Jornalistas têm predileção por casos simbólicos. Não há tempo e papel para cobrir todas as mortes. A diferença é entre os que têm voz na imprensa e os que não têm’.

Concordo e anoto: há inegável interesse público em cobrir atentados contra jornalistas. Amaury Ribeiro Jr. informava sobre a realidade nefasta para os moradores do Entorno. Como Tim Lopes, no complexo do Alemão.’

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