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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Mário Magalhães

01/04/2008 na edição 479

‘Na terça retrasada, a cidade do Rio somava mais de mil casos diários de dengue, com a marca de 28 óbitos no ano. No Estado, eram ao menos 33. Enquanto cientistas e governantes batiam boca em torno do reconhecimento da epidemia, milhares de pessoas padeciam nas filas dos hospitais.

No dia seguinte, a Folha não publicou nem uma linha noticiosa a respeito. Nenhuma palavra, letra de rodapé. ‘É o que se chama de insensibilidade jornalística’, comentei.

Semanas antes, o jornal enfileirara uma seqüência de menções na primeira página sobre mortes por febre amarela. O mal não é transmitido em áreas urbanas desde a década de 1940. Em 2008, no campo, matou menos que a dengue só no Rio capital.

Na quinta, o segundo título mais importante da capa: ‘Dengue no Rio é culpa do prefeito, diz ministro’. Na sexta, outra chamada: ‘Dengue é epidemia no Rio, admite secretário’. No sábado, uma semana atrás, a manchete: ‘Exército montará hospital no Rio contra a dengue’.

Três dias em que as informações mais destacadas foram declarações de autoridades (uma do ministro da Defesa). O jornal se manteve distante de prontos-socorros. Nada de testemunho ocular da dor dos enfermos. Ou de investigar o montante e a qualidade dos investimentos públicos na prevenção ao mosquito e no combate à doença. Escrevi: ‘[É] a história oficial’.

Na segunda passada, em nova evidência de ciclotimia, o jornal não imprimiu sílaba de notícia acerca da dengue. Nem que fosse sobre a hipótese de o surto atingir São Paulo. Na crítica diária, protestei.

A partir da terça-feira, assistiu-se a uma notável virada da Folha, a despeito de deficiências. Mérito: repórteres foram à rua contar o caos. Demérito: o maior jornal do país apurou sem fotógrafo sua reportagem principal, ‘Rio demora 3 h para atender casos de dengue’. Leu-se sobre a covardia contra os doentes em um relato sem imagens.

No mesmo dia, veiculou-se estatística que sugere ausência de mocinhos na gestão da saúde: nesta década, o recorde de casos de dengue no Brasil ocorreu em 2002, governo Fernando Henrique Cardoso; o de mortes, em 2007, sob Luiz Inácio Lula da Silva.

Na quarta, um furo da Folha quebrou o paradigma que orientava as coberturas jornalísticas, que fiscalizavam exclusivamente os governos municipal e federal, mas poupavam o do Estado. ‘Rio [a rigor, RJ, o Estado] cortou verbas para combate à dengue’.

No auge da crise, a Folha pareceu adormecida -o fim da picada. Volta e meia isso acontece, possível conseqüência de acomodação com a liderança de mercado. Menos mal que acordou. Anteontem, a conta oficial de mortos no RJ batia em 54, metade crianças.

***

‘Esqueçam o que escrevemos’, copyright Folha de S. Paulo, 30/3/08

‘(Na íntegra, segue nota da minha crítica da quarta-feira.)

Título do alto da pág. B6: ‘Vale desiste de comprar mineradora Xstrata’. Não houve chamada na primeira página (‘Valor’ e ‘Estado’ deram), nem na Folha Corrida, que se configura como espécie de segunda capa (o ‘Globo’ veiculou chamada na pág. 2).

Título do alto da pág. B3 da Folha em 14 de março: ‘Vale fica mais perto de comprar a Xstrata’. Trecho da linha-fina: ‘Anúncio pode ocorrer hoje’.

Naquele dia, houve chamada de primeira página para a iminência do negócio.

Hoje: ‘Segundo Agnelli [presidente da Vale], a aquisição não prosperou porque as empresas não chegaram a um acordo sobre qual delas iria controlar a comercialização dos produtos -e não por causa do valor da compra’.

No dia 14: ‘Tal barreira [quem iria controlar a ‘comercialização’ dos produtos] teria sido superada, com a Vale abrindo mão do direito de venda de parte da produção’.

Hoje: ‘Havia receio no mercado de que a aquisição resultasse em um aumento do nível de endividamento da empresa, o que poderia, em última instância, comprometer o grau de investimento concedido por agências de classificação de risco’.

Doze dias atrás, descreveu-se a opinião do mercado acerca da ‘capacidade de manter o grau de investimento’: ‘Agora, acredita-se que [a Vale] conseguirá o mesmo [sucesso de negócio anterior, com a dívida refinanciada] na provável aquisição da Xstrata’.

Em negociações, há passos à frente e atrás; o cenário pode mudar. O ‘olhar’ do mercado também muda. O jornalismo não tem como acertar sempre; às vezes, erra. O que a Folha devia hoje, no entanto, era um relato sincero e transparente sobre o que mudou.

O jornal estava certo no dia 14? Qual foi o bastidor, então, na reviravolta nas conversas?

Não há balanço, não há memória do ‘furo’.

A Folha deve satisfações aos seus leitores.

(Neca de satisfação: na quinta-feira, o jornal contradisse de novo seu ‘furo’ do dia 14, ‘esquecendo-o’: ‘Xstrata seria risco para a Vale, dizem analistas’. Não ouviu vários ‘analistas’, mas só um, de corretora. O engano na cobertura da compra frustrada deu a impressão de que a Folha confiou demais em fonte interessada. Perguntei, mas a Redação não quis responder sobre seu desempenho.)’

***

‘A verdade de Wilson Simonal’, copyright Folha de S. Paulo, 30/3/08

‘Boa notícia: quase oito anos depois da morte de Wilson Simonal, o grande cantor começa a ser resgatado do ostracismo. O documentário ‘Ninguém Sabe o Duro que Dei’ é lançado no festival de cinema É Tudo Verdade.

Ignoro como o filme narra a suspeita de que Simonal fosse informante da ditadura militar. Mas é possível identificar no jornalismo disposição para recontar o passado omitindo o mais relevante, os fatos.

É incompreensão da natureza humana: a idéia de que todo artista de talento é marcado por gestos edificantes; ou se for um artista bacana, decerto será talentoso. A falácia temperou o esquecimento: se era dedo-duro, Simonal não merecia a posteridade. Ou, agora: se craque do suingue, não haveria de delatar.

A verdade: em 1974, Simonal foi condenado por surra dada em um contador. No processo, levou como testemunha sua um detetive do Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara. Ele assegurou que o cantor era informante do Dops.

Outra testemunha de defesa, um oficial do 1º Exército, jurou que o réu colaborava com a unidade. O juiz sentenciou: Simonal era ‘colaborador das Forças Armadas e informante do Dops’. Em 1976, acórdão do Tribunal de Justiça do RJ reafirmou a condição de ‘colaborador do Dops’.

Não foram inimigos que inventaram a parceria com o regime, exposta sem reservas pelos amigos de Simonal, que se dizia ameaçado por gente ligada ‘a ações subversivas’.

Nesta semana, a Folha tropeçou ao noticiar o documentário: não lembrou as provas judiciais reveladas por ela própria em 2000 (transparência: o autor da antiga reportagem foi o hoje ombudsman).

Pelo menos o jornal foi sóbrio. Recusou a campanha jornalística que amalgama a história ao perfilar Simonal, que era senhor dos seus atos, como vítima de maledicência.’

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