Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Mário Magalhães

04/12/2007 na edição 462

‘Padecem do mesmo mal as manchetes da Folha da segunda, ´Presa sofre abuso sexual em 5 Estados, diz relatório´, e da terça, ´80% dos estádios precisam de reformas nas estruturas´: as informações, disponíveis muito tempo antes da publicação, só ganharam as páginas depois que tragédias despertaram o interesse nelas.

Desde a primeira quinzena de março, quando foi apresentado à OEA (Organização dos Estados Americanos), o relatório elaborado por entidades de defesa dos direitos humanos já era público -a íntegra está na internet. Mais que reproduzi-lo, o jornal poderia ter palmilhado o país em busca de comprovação da selvageria que ele denuncia.

Pelo contrário, ignorou-o, alçando-o à capa somente após a descoberta da covardia contra uma adolescente de 15 anos detida na mesma cela com homens em Abaetetuba (PA) -sim, uma tragédia.

Já o levantamento sobre as condições de dezenas de arenas foi divulgado em 1º de novembro, em entrevista coletiva, pelo Sinaenco (Sindicato da Arquitetura e da Engenharia). Demorou 26 dias para aparecer no jornal. Para que os leitores o conhecessem, foi preciso que um pedaço da arquibancada da Fonte Nova despencasse no domingo e sete pessoas morressem.

Um mês atrás, o trabalho foi alardeado até em Lisboa. TVs o exibiram. A Gazeta Esportiva.Net descreveu a conclusão sobre as instalações soteropolitanas: ´As arquibancadas estão em ruínas e há total falta de segurança e higiene para os torcedores e até jogadores´.

A Folha foi transparente sobre o primeiro estudo: datou a entrega à OEA. Omitiu, contudo, que o diagnóstico do Sinaenco fora anunciado mais de três semanas antes. Tingiu-o com verniz de ineditismo.

Noticiar o desmazelo não imuniza contra novas desgraças. O jornalismo, porém, é mais útil quando se antecipa aos fatos: ao mostrar a vida como ela é, permite que se reaja à barbárie (nas prisões) e ao perigo (no futebol). É mais cômodo fotografar o leite -ou o sangue- derramado, em vez da iminência do derrame.

***

‘Insensibilidade jornalística e barbárie no PA’, copyright Folha de S. Paulo, 2/12/07.

‘A Folha terminou a semana com duas repórteres no Pará cobrindo bem o caso da jovem que ficou presa com homens que a violentaram.

Começou mal, no entanto. A primeira notícia, no dia 21, desrespeitou o Estatuto da Criança e do Adolescente ao informar por extenso o nome de L., embora o Conselho Tutelar local alertasse que ela tinha 15 anos.

Por quatro dias, o jornal acompanhou os fatos de longe -falta-lhe correspondente em Belém. Escrevi na crítica diária (que pode ser lida em www.folha.com.br/ombudsman): ´O pouco caso com essa tragédia expressa insensibilidade humana, social e especialmente jornalística. Volto a me perguntar: se uma violência assim contra a garota não comove a Folha, o que vai comover?´.

No domingo, finalmente, leu-se a primeira reportagem apurada lá, por enviadas especiais.’

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‘No tucanoduto, o desequilíbrio mudou de lado’, copyright Folha de S. Paulo, 2/12/07.

‘Há meses observo que a Folha pouco destaca ou mesmo cala sobre as estripulias do PSDB em Minas.

Mas na sexta retrasada a denúncia do procurador-geral da República contra um ministro, um senador e outras 13 pessoas mereceu exagerados dez títulos de alto de página, sob o chapéu ´Valerioduto tucano´.

Em abril do ano passado, Antonio Fernando Souza formalizou a acusação contra 40 investigados, incluindo uma dezena de deputados federais e três ex-ministros, entre eles muitos petistas. Editaram-se então apenas três títulos com destaque, abaixo da rubrica ´Escândalo do mensalão/Hora das conclusões´.

Dez a três é desproporção jornalística e histórica. Não se corrige distorção enviesando para o outro lado. A soma de dois desequilíbrios opostos não é zero, mas duas coberturas desequilibradas.’

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‘Jornalismo com alma de release’, copyright Folha de S. Paulo, 2/12/07.

‘O jornalismo brasileiro é pouco crítico na cobertura de políticas públicas. É o que confirma um portentoso cruzamento de dados da Agência de Notícias dos Direitos da Infância com base em 15 análises temáticas de mídia produzidas de 2000 a 2005.

A Andi esquadrinhou 17.481 textos de jornais de todos os Estados e eventualmente de revistas, sobre assuntos como saúde do adolescente, drogas, trabalho infantil e doméstico, educação, violência e desenvolvimento humano e social.

Constatou que inexpressivos 8,52% deles cobraram ou responsabilizaram o governo, fosse no mandato derradeiro de Fernando Henrique Cardoso ou no inaugural de Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao não cobrar, o jornalismo oculta limitações e falhas dos governos. Ao não responsabilizar, deixa de esclarecer os deveres do Estado.

Vai-se a uma entrevista e, já é hábito, limita-se a divulgar de modo submisso as declarações, promessas e versões das autoridades.

Conforme Guilherme Canela, coordenador de Relações Acadêmicas da Andi, ´na cobertura de políticas públicas, a mídia se vale fortemente das fontes oficiais. E não chegam a 10% as matérias com opiniões divergentes´.

O resultado é este: jornalismo com alma de release.’

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