Mario Vitor Santos | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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VOZ DOS OUVIDORES > iG

Mario Vitor Santos

13/05/2008 na edição 485

‘Hoje, às 11h08, cerca de meia hora após o final da corrida, o iG ainda não trazia no texto sobre a corrida, manchete do portal, a notícia sobre como o resultado da corrida afetou a disputa pelo campeonato mundial de pilotos. A informação já havia sido negligenciada ao final da transmissão da corrida na TV, o que a tornava ainda mais importante. O texto do site parceiro Warm Up, cheio de poréns, contudos e uma referência desnecessária ao dia da mães dedicava-se mais à descrição da corrida, o que muitos espectadores já haviam testemunhado. Na internet, é importante também preencher os espaços não cobertos pelos outros meios instantâneos. A concorrência àquela altura já tinha a informação em sua manchete. O ig só a atualizou às 11h15, com uma tabela ao pé do texto principal. Nela, Massa aparece em terceiro, quando a rigor já é o segundo do campeonato.

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A remissão e seu labirinto (10/5/08)

Reportagem hoje no iG sobre as últimas revelações do dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso traz o seguinte título: ‘Presidente do Senado quer Aparecido e assessor de Álvaro Dias em CPMI’.

Como se sabe, investigações da Polícia Federal e do Instituto de Tecnologia da Informação levantaram indícios de que o autor do vazamento do ‘dossiê’ (como o chamam a mídia e a oposição ao governo), ou ‘banco de dados’ (de acordo com o Planalto) seriam o secretário de Controle Interno da Casa Civil, José Aparecido Nunes Pires, e o assessor do senador Álvaro Dias (PSDB-PR), André Fernandes.

O texto traz uma referência importante, mas que pode ser misteriosa, feita por Garibaldo Alves, presidente do Senado, a respeito das ações da Comisão Parlamentar Mista de Inquérito, convocada para investigar o episódio: ‘Eu acho que deve convocar os funcionários, eles devem ter alguma coisa a dizer além do que já disseram’.

Nesse caso, os editores do Último Segundo deveriam imediatamente oferecer uma remissão para o que Pires e Fernandes já disseram e o próprio iG já publicou. Eu, por exemplo, não me recordo do que falaram. Gostaria de ler de novo para ver se me lembro ou se não sabia. Mas o iG não facilitou a minha vida.

Falta, portanto, uma visão maior de edição, que procure, sempre que possível, transmitir a informação mais completa ao leitor e antecipe as suas necessidades, muitas vezes criadas pelo próprio noticiário do iG.

É inegável que nas principais coberturas o iG tem se esforçado para criar listas de remissões para outras reportagens passadas que forneçam o contexto dos fatos. Esses textos, quadros e gráficos recuperam o que já aconteceu, oferecem informações que podem ajudar a entender um acontecimento.

Se o didatismo está presente em todas as formas de jornalismo, ele é vital para quem deseje prosperar na internet, em especial no Brasil, que incorpora um contingente cada vez maior de usuários de menor escolaridade.

A boa edição na rede exige, porém, muito trabalho, além de grande atenção aos detalhes. São operações repetidas de inserção dos links adequados.Suas técnicas requerem planejamento de árvores de edição que estimulam o encadeamento contínuo da leitura, de forma ao mesmo tempo ampla e individualizada. Um texto dá em outro, que aponta outro caminho e assim por diante. O leitor se informa mais e fica mais tempo no site. O iG, obviamente, também ganha com isso.

Nesse trabalho, são obrigatórias programas de operação fácil e rápida. Exige também jornalistas preparados e atentos. Só que as escolas de jornalismo ainda não dão formação adequada aos futuros profissionais dessa área.

O uso das remissões é ainda mais essencial para sites que, como o iG, usam muitas vezes reportagens de terceiros, com limitações contratuais de tamanho por unidade publicada. Os textos são em geral mais resumidos, com menos informações. É necessário, então, remeter para outras reportagens, para completar o quadro, dando a notícia por inteiro, e se aproximar da qualidade existente nos outros grandes veículos da mídia tradicional. A sensação de satisfação que leitor deve obter fica mais fragmentada. Remete-se muitas vezes para reportagens que têm informações repetitivas. O processo de remissões pode em tese ser eterno, mas tem um limite (número e tempo dos editores, embora os programas possam ajudar muito) e vai perdendo em cada etapa eficiência e clareza na conexão com o leitor. Talvez no futuro possa ficar cada vez mais mais granular.

É possível, porém, avançar muito no atendimento das necessidades informativas dos leitores, inclusive no plano mais individual. Seria importante mapear os percursos e interesses de cada um, e fazer remissões cruzadas a partir dos hábitos detectados, como fazem, por exemplo, o Google a a Amazo,n em relação a produtos adquiridos.

O iG ainda está engatinhando nesse terreno. Muitas vezes não aproveita bem o material que ele mesmo já veiculou sobre um certo tema. É o que acontece hoje em uma reportagem da cobertura do caso do suposto dossiê. Ela começou na capa. E parou num ponto sem saída.

[Em tempo: se este texto não tem links, é porque este ombudsman não conseguiu inseri-los no texto, seja por seu desconhecimento da ferramenta, seja por sua temporária desativação no publicador]

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O iG em busca de uma personalidade cultural (8/5/08)

O iG precisa dar mais atenção à Cultura, uma das áreas mais nobres dos grandes veículos jornalísticos do Brasil e do Mundo. Cultura pode ser sinônimo de inteligência, juventude, inquietação, liberdade e… negócios.

Pode, porém, significar consumo vazio, ignorância e perda de tempo. A cobertura de temas culturais como cinema, música, teatro, televisão, dança, literatura, artes plásticas e outros define a personalidade do veículo diante do público.

Nessa área, este portal ainda tem muito a avançar, pois o iG não dispõe de um espaço dedicado exclusivamente à reflexão cultural de melhor nível.

Não tem um suplemento ou revista voltada para a arte, que se disponha a substituir ou recriar na internet a tradição de cobertura cultural desenvolvida ao longo da história dos meios de comunicação.

O Estadão tem o ‘Arte & Lazer’, o Globo tem ‘Prosa e Verso’, a Folha tem o ‘Mais’, O Estado de Minas tem o ‘Pensar’. E o iG, o que tem o iG nessa área?

Deve haver alguma razão para que a cobertura cultural misturada com a rubrica ‘Diversão’, seja uma espécie de sinal para o domínio exclusivo, ao menos nos títulos das capas, dos assuntos mais juvenis, superficiais, televisivos e noveleiros.

Alguém poderia lembrar que o iG tem blogs relevantes na área cultural, como o de Jorge da Cunha Lima. É verdade. Tem também Lucio Ribeiro, em Música e cultura pop no seu blog Popload. Luís Nassif também dá atenção a essa área. O blog do Favre se aventura também por temas artísticos. Mas isso parece confirmar a sensação geral de que o iG não tem foco na cobertura cultural.

A prioridade cultural do iG é submissa quase exclusivamente aos padrões descartáveis da cultura de massas. A cobertura cultural e a reflexão crítica mais profunda não têm espaço nem prioridade. Pausa para uma pergunta óbvia: como podem os jornalistas do iG valorizar pessoalmente certos temas e divulgar coisa muito diferente quando trabalham para o ‘grande público’?

A cultura de alto nível é um dos temas em que o país se reconhece. O que está em cartaz em São Paulo e Rio atrai a atenção do país. Sem falar das outras regiões, o que o iG destaca é material estrangeiro, que vem das agências internacionais.

O iG tem sede em São Paulo e uma base de operações no Rio. Deveria usá-las para cobrir o que acontece e potencializar sua imagem, audiência, personalidade como veículo.

A cobertura cultural de bom nível atrai um público de alta escolaridade e maior poder aquisitivo. É uma contradição que haja um setor cultural cada vez maior e uma cobertura e reflexão cada vez mais fracos.

A mídia está se atrasando em relação ao público mais exigente, e o iG mais ainda. Está na hora de cuidar dos detalhes desse trabalho. O iG até bons parceiros, mas precisa destacá-los mais. Tem também áreas muito defeituosas. É o tema do próximo post. Por enquanto, confira os títulos das capas das áreas de ‘Diversão’ (iG) e ‘Cultura e Diversão’ (Último Segundo) de hoje.

– O que evitar na cama: Elas soltam o verbo e listam o pior na ‘hora H’

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O leitor às cegas em meio ao bombardeio (7/5/08)

Texto oriundo da agência France Presse agora de manhã diz que ‘ataque israelense em Gaza deixa 11 palestinos feridos’, sendo que ‘10 deles integrantes do Hamas’. O texto (clique aqui) é vago. Atribui a ‘fontes palestinas’ a informação de que foram usados blindados e tanques, além de um avião sem piloto. Diz ainda que uma ‘fonte militar de Israel confirmou’(verbo complicado) que o Exército abriu fogo contra ‘elementos palestinos armados’ (aspas minhas).

Muitas vezes na cobertura de conflitos, as únicas fontes disponíveis são militares. A informação é sempre moldada para servir aos interesses de quem divulga.

Aos jornalistas, não resta outra alternativa senão publicar as informações divulgadas por um dos lados da batalha. Muitas vezes, não há tempo nem condições para checagem. São informações urgentes, que tratam de mortos, feridos e outros estragos.

O anonimato (‘fontes palestinas’, ‘fonte militar de Israel’) é a regra nesse tipo de jornalismo de propaganda e contrapropaganda. Agora, o que realmente intriga é por que o texto tortuoso da France Presse não informa quem disse ou confirmou que, dos onze feridos, dez eram do Hamas.

Repito: quem deu essa informação? Ela supõe uma operação bem-sucedida e ‘cirúrgica’, foi Israel entäo? Foi o Hamas? Algum jornalista ou testemunha checou a identidade e a filiação política dos feridos? Não? Então, bastava informar a fonte da notícia e o leitor já poderia fazer as interpretações cabíveis.

Do jeito como foi divulgada, como saber de verdade, se quem veicula a informação é uma agência, um ente distante, sendo o iG provavelmente um mero autômato? Num futuro ideal, deveria haver, como nos remédios e automóveis, requisitos mínimos obrigatórios para a emissão de qualquer informação, sem o que ela não poderia ser considerada jornalismo seguro.

Por enquanto, o leitor terá que ter um papel mais ativo na internet do que tinha na velha mídia, buscando ele mesmo relatos dos diversos lados, se quiser montar um quadro mais bem informado e confiável. No caso desse texto, terá que aguardar novas atualizações, que poderão até desmentir o que ele informa.

Dá trabalho escapar da manipulação que parece crescer sem controle, vindo inclusive dos centros que deveriam ser responsáveis por zelar pela objetividade e imparcialidade. Apesar disso, o leitor que se empenha consegue achar algo do que procura. Seria bom que o internauta do iG achasse o essencial em cada texto. A longo prazo, isso pode ser decisivo.

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O beijo de Cássio (6/5/08)

O iG exibiu durante algum tempo em sua capa na manhã de hoje uma notícia que deve ter sido campeã de cliques, antes de desaparecer de todas as capas (iG, Último Segundo e Brasil), por volta do meio-dia. Era a reportagem, de algumas linhas, que acoplada a um vídeo postado no You Tube, em que o governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, que é casado há mais de vinte anos, aparece tocando percussão e beijando uma jovem loira.

A princípio, não há nada o que opor à divulgação da notícia. Afinal, o governador é uma figura pública, seu comportamento em público, num bar ou numa festa, é de interesse geral.

Dito isto, vale dar atenção para o fato de que a notícia certamente causou constrangimento à família do governador. Claro que o maior constrangimento é o ato em si, mas a divulgação o amplifica.

A mulher do governador, Silvia Almeida Cunha Lima, certamente foi afetada. Ela é personagem tão pública quanto ele? Talvez. E os filhos? Como ficam essas pessoas ao saber desses fatos pelo iG?

Vale também refletir sobre o You Tube. Tudo o que é postado lá deve ser divulgado? Qual o critério que deve orientar o iG nessas veiculações de conteúdos de terceiros que não se submetem aos mesmos controles que o iG? São considerações que devem ser levadas em conta quando um escândalo surge, mesmo que a rotina e a concorrência mandem disparar primeiro e pensar depois.

Na pequena reportagem sobre assunto (clique aqui), o iG informa ter tentado ouvir a posição do governador, que não quis se pronunciar. O iG agiu bem ao tentar ouvir o outro lado. Mas poderia ter ido atrás de mais informações.

No áudio do vídeo há vozes zombando do comportamento de Cunha Lima. Num trecho é possível distinguir entre gargalhadas alguém que diz algo como ‘êta governador bão’.

Dá a impressão de que o vídeo pode ter sido registrado por adversários do político, o que também é uma informação relevante. Ou seja, há muito jornalismo a ser feito neste caso. Não basta veicular temas sensacionais e logo passar a outro. É preciso ir atrás da notícia inteira, começando, por exemplo, pelo que já está na mão.

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Injustiça giratória (5/5/08)

Reportagem publicada ontem no iG anuncia a sentença ainda antes do fim da investigação. O texto do iG acusa cidadãos presos durante a Operação Santa Tereza da Polícia Federal de serem ‘integrantes de uma organização criminosa’ (leia aqui).

Os responsáveis pela investigação citam Paulo Pereira da Silva, deputado federal e presidente da Força Sindical, como sendo um dos beneficiários de partilha de recursos que teriam sido desviados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Confira o seguinte trecho da reportagem intitulada ‘Inquérito que cita Paulinho em desvio de verba vai ao STF’, veiculada ontem no iG.

‘Interceptações telefônicas pegaram integrantes da organização criminosa que agia como elo entre o BNDES e prefeituras dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Norte, Paraíba e Rio de Janeiro negociando contratos para obras fantasmas. O lobista João Pedro de Moura, amigo e ex-assessor de Paulinho, é apontado como o principal operador do esquema.’

‘Os grampos flagraram Moura e o empresário Marcos Mantovani ajustando a divisão de valor equivalente a 2% a 4% sobre financiamentos concedidos à Prefeitura de Praia Grande (R$ 124 milhões) e às Lojas Marisa (R$ 220 milhões).’

Dá para perceber, portanto, que o iG continua imputando crime a pessoas que ainda não tiveram direito a defesa. Segundo a reportagem, elas foram ‘flagradas’ (verbo tipicamente policial, associado ao crime) negociando ‘contratos para obras fantasmas’. Veicula-se, portanto, docilmente, a versão vazada por investigadores da Polícia Federal. O outro lado, a versão dos acusados, é simplesmente ignorada neste texto, que mereceu chamada na capa do portal.

A associação entre imprensa e órgãos de segurança na ditadura militar deixou recordações comprometedoras de episódios que os meios de comunicação preferem esquecer.

A colaboração e a dependência das polícias permanece no período democrático e prejudica a imparcialidade e o equilíbrio que deveriam reger o trabalho dos jornalistas. Repórteres do iG, que deveriam fazer investigações independentes, aceitam aquilo que é vazado pelos agentes e desprezam a audição aos acusados. Essas acusações espalhafatosas muitas vezes não se sustenta na Justiça.

A prática difamatória é generalizada e afeta todo tipo de acusados, especialmente os que estão fora do centro do governo. Atinge membros dos diferentes partidos. Faz-se justiça, semeando injustiça contra todos.’

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