Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > iG

Mario Vitor Santos

06/11/2007 na edição 458

‘Sempre é bom iniciar um feriado com uma nota otimista. A Redação do Último Segundo tradicionalmente faz um bom trabalho de serviço aos internautas, mostrando o que abre e fecha no feriado, tanto no Rio como em São Paulo. No Rio, por exemplo, esse trabalho do iG inclui informações importantes, como a escala de funcionamento de hospitais e prontos socorros, serviços de atendimento ao cidadão, feiras livres, controle urbano, defesa civil, vigilância sanitária e até cemitérios de cães e gatos.

Se há algo a melhorar, seria no trabalho de edição. Esse caráter de serviço é muito estimado pelos leitores, especialmente em situações de necessidade até de emergência. Melhorar a edição seria prever também notas separadas para cada serviço, mencionando-as sempre que possível com destaque nas capas do iG e do Último Segundo. E aqui está então um dos aspectos centrais dessa nota de hoje. Serviço jornalístico é sempre melhor quando é feito de maneira gráfica, visual, ou seja com quadros de leitura ágil, ao estilo ‘o que abre e fecha, quando e onde’.

Uma das grandes lacunas no trabalho jornalístico do iG é a quase total ausência de (info)gráficos e tabelas. Nesse terreno, o jornalismo do iG ainda está muito atrasado. O portal ainda vive na era do jornalismo escrito, impresso, preso ao texto. As exceções são infográficos elaborados para coberturas especiais (como a da crise aérea) e confirmam a regra. Falta uma estrutura regular de produção de gráficos, quadros e tabelas que lance o trabalho diário do iG na era visual, que afinal é a marca da internet. Sempre que possível a informação deve ser transmitida visualmente. Isso já é regra no jornalismo impresso e deveria ser ponto de partida no jornalismo de um grande portal. Falta uma grande editoria que trate de todos os aspectos relacionados à eficácia visual do jornalismo do iG.

O feriado é de finados, mas quem procurasse na véspera do feriado no iG informações sobre o significado histórico, religioso e espiritual da data não encontraria no iG. Nem mesmo no Astral, um canal associado ao tema dentro do portal atitude. O sentido da data está perdido na cultura atual, é verdade, mas ela existe. Seria uma boa ocasião para propor pautas interessantes e reflexivas que recuperassem as motivações iniciais. As condições do tempo e da estrada são relevantes, mas os velhos fenômenos que estão na base do dia de Finados continuam muito vivos, por mais que a época atual, inclusive a internet, procure negá-los. O jornalismo tem que se aproveitar desses momentos para ir contra a corrente e transformar-se numa atividade significativa, reflexiva, introduzindo discussões teológicas, filosóficas, históricas, científicas e espirituais. O jornalismo ganharia mais significado e os leitores agradeceriam.

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Sem voz própria (31/10/07)

Se vale a pena falar de jornalismo no caso envolvendo o padre Julio Lancellotti, um exame do noticiário revela a ausência de repórteres do iG nessa cobertura. O portal já publicou 22 reportagens sobre o assunto no Último Segundo, que é uma espécie de jornal do portal. Apenas um dos textos (‘Quadrilha é acusada de extorquir padre Julio Lancellotti em São Paulo’, do dia 16 de outubro) parece trazer informações obtidas originalmente pelo próprio iG (embora isso não seja esclarecido no texto, produzido no Rio de Janeiro). Ou seja, não propriamente uma equipe de reportagem do iG, conduzindo investigações sob a orientação dos editores do iG, a partir das prioridades que o portal tenha achado valer a pena investigar.

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Impotência (30/10/07)

Deve ser o fim do mês, talvez também a aproximação do fim do ano. Algum mecanismo oculto deve associar a presença na capa do iG durante tantas horas neste dia 30 de duas notícias que evidentemente só buscam gerar cliques e captar audiência. A primeira é a exibição de Paris Hilton, a quem se atribui a presença numa festa de halloween da revista Playboy. A outra é a do árbitro (sem nome, nem idade, nem data do ‘fato’) que caiu no campo e ficou impotente…

Mídia de qualidade evita publicar notícias bizarras. Quando não há identidade nem data declarada do fato, não é nem o caso de evitar. Simplesmente, não se publica. A audiência que se obtém com esses expedientes sai mais cara do que parece. Custa credibilidade.

O Último Segundo responde

Recebi da editora-chefe do Último Segundo, jornalista Mariana Castro, a quem agradeço, a seguinte manifestação referente à nota ‘Sete mil toneladas’, publicada mais abaixo, que comentava o noticiário do iG sobre o deslizamento de terra na entrada do túnel Rebouças, no Rio.

‘Caro Mario,

Na cobertura sobre o deslizamento de terra no túnel Rebouças, o Último Segundo não publicou apenas informações de agências de notícias. Estávamos com uma repórter no local, apurando e checando dados. Ela foi uma das primeiras a divulgar a informação, junto com a rádio CBN, de que seriam duas mil toneladas de terra – antes dos outros deslizamentos que se seguiram.’

‘A informação foi divulgada de acordo com declaração do secretário municipal de Obras, Eider Dantas. Como é função de todo jornalista, desconfiamos do número. Achamos muito e ouvimos outras fontes, inclusive a própria Secretaria Municipal de Obras do Rio, que confirmaram o dado. Além da quantidade de terra, colocamos nas notas quantos caminhões seriam necessários para a remoção. Para sete mil toneladas de terra são necessários cerca de setecentos caminhões.’

Mariana Castro

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Aliança do leite (29/10/07)

O iG segue contribuindo para a má cobertura que os meios de comunicação do país realizam sobre a chamada ‘fraude do leite’. Hoje, a grande novidade divulgada pelo Jornal Hoje e citada por todos foi a revelação de um ‘relatório sigiloso’ do Ministério Público (quem será que revelou?) o qual, segundo a Globo, ‘confirma a contaminação do leite com peróxido de hidrogênio, mais conhecido como água oxigenada’.

Em primeiro lugar, o Ministério Público não ‘confirma’ nada, pois é parte acusadora nessa investigação. A ele juntou-se hoje o ministro da Agricultura Reinhold Stephanes, que, no afã de se livrar de supostas responsabilidades por eventuais falhas na fiscalização de alimentos, apressa-se em culpar os ‘vigaristas’ (de Passos e Uberaba) já por ele julgados e condenados com a divulgação realizada de maneira passiva pelos meios de comunicação.

Enquanto isso, o pivô da crise segue sem ser ouvido. Pelo jeito nem procurado foi, pois o iG não menciona que tenha tentado solicitado entrevista, tentado obter número de telefone, falado com familiares. Trata-se do engenheiro químico Pedro Renato Borges, liberado na última sexta-feira pela Polícia Federal. Perdida em meio a um longo texto intitulado ‘Relatório da PF aponta contaminação de leite com água oxigenada’ (note que a adição criminosa de soda cáustica, antes obrigatória, agora começa a desaparecer) aparece um ‘outro lado’. Surge então ao menos uma menção à versão do acusado. O químico nega as acusações, ‘de acordo com a Polícia Federal’ (por que as informações só aparecem quando a PF as divulga?).

A pergunta que faço é a seguinte: por que até agora a defesa dos acusados não mereceram ao menos um título interno no iG em meio às dezenas de títulos para as acusações feitas pelas autoridades? Por que também não houve uma referência na capa do iG ao fato de que o químico nega as acusações?

Hoje, as denúncias completam uma semana. Milhares de produtores de leite tiveram seus negócios afetados, como corretamente o iG divulga. A imputação de que houve envenenamento do leite por soda cáustica desapareceu do noticiário. O químico nega, mas ainda não foi ouvido pelo iG e pelo jeito nem foi procurado. A Polícia Federal diz que ele negou (então deve ser verdade que ele negou), mas isso não vale informação de capa, nem mesmo um título interno.

Surgiu um relatório ‘sigiloso’, mas falta divulgar a sua íntegra e os elementos técnicos que sustentam as acusações. Enquanto isso, a cobertura prossegue desequilibrada. Quando PF e Ministério Público se convencem de uma tese, nada os faz recuar. Caberia à mídia equilibrar os excessos dos dois, mas o que acontece quando ela se entrega?

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Jornalismo contaminado (28/10/07)

Desde segunda-feira, em Minas Gerais, na região de Uberaba, a Polícia Federal (PF), em mais uma ação escandalosa, acusou, fechou fábricas que funcionam há décadas e submeteu dezenas de pessoas às algemas e à prisão.

A PF acusa os detidos de fazer parte de uma ‘quadrilha’ que adicionava soro, água oxigenada e até soda cáustica ao leite longa vida. Os meios de comunicação, em geral, aceitaram os termos usados pelos policiais e os transmitiram docilmente à população.

Segundo a acusação da PF, a ‘quadrilha’ (polícia e imprensa usam cada vez menos a palavra ‘suposto’) adicionava essas substâncias ao leite com a intenção de aumentar o tempo de conservação e o volume do leite, mesmo que para isso pusesse em risco a saúde dos consumidores. Diz a Polícia Federal que o esquema foi descoberto após três meses de investigações.

Impulsionada pelo Ministério Público e com autorização judicial, a operação contou com a colaboração voluntária dos meios de comunicação, inclusive do iG. O espetáculo criado para combater a chamada ‘fraude do leite’, foi chamado alegremente de ‘Operação Ouro Branco’ pela PF. Suas conseqüências, porém, não lembram nenhum bombom: houve alarme no comércio em vários estados, interdição de lotes de leite e queda nas vendas. As empresas afetadas, inclusive a Parmalat e associações do setor, publicaram anúncios nas TVs, jornais e revistas.

Outros supostos exames químicos levaram a outras denúncias de fraudes, com acusações de possível falta de higiene e presença de coliformes fecais no leite de Goiás, e a descoberta de centenas de caixas de leite enterrado no Rio Grande do Sul. Técnicos de saúde cruzaram os céus para fazer investigações adicionais. Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura bateram cabeça sobre a responsabilidade da fiscalização Exames oficiais do leite supostamente adulterado, prometidos para sete dias, só ficarão prontos em quinze.

Quem são os acusados? Os supostos responsáveis são empresários, trabalhadores e químicos de cooperativas e empresas processadoras de leite existentes há décadas em Uberaba, do Vale do Rio Grande, além de Passos e outras localidades no sudoeste mineiro. São gente que tem família, pais e filhos e colegas de trabalho. Algumas vivem em pacatas regiões leiteiras, têm relações na empresa e nas comunidades, circulam pelos diversos empreendimentos do setor. A maioria leva uma vida normal e ordeira em suas cidades.

Muitos deles, é provável, jamais pensaram na adição de produtos estranhos ao leite, achavam que estavam faziam um produto de boa qualidade, como sempre se fez, ou não sabiam de nada. Se há algum culpado, é preciso apurar com calma.

Mas, até agora, os acusados (a maioria deles já em liberdade, provavelmente traumatizados pela experiência da prisão, um deles com suspeita de infarto) não foram ouvidos pelos meios de comunicação e nem por este iG. A eles foi imputado um crime tão grave que os levou à detenção, mas, para a maioria dos veículos de comunicação, eles, na verdade, nem nome têm.

Como se sabe, a melhor maneira de despersonalizar alguém é negar-lhe o nome, tirar-lhe a humanidade. Sem nome, veículos e jornalistas não se dão ao trabalho de ouvi-los, sua família ou conhecidos, descumprindo norma básica de todos os manuais de redação de todos os veículos da imprensa, que é a de dar voz a todos os lados envolvidos numa notícia. Eles não moram em São Paulo, ou Rio. A maioria não tem dinheiro, fama ou poder nem bons advogados. Eles são acusados e presos. Um agente lhes toma o depoimento e chega o dia em que são soltos. Depois ficam por aí.

As informações que o iG publicou são de que os órgãos oficiais atestaram a presença das substância citadas em alguns lotes do leite, em quantidade que não seria expressiva, embora suficiente para causar uma queimação de estômago.

Segundo informação (oculta no interior de texto de página interna da sexta passada na Folha de S.Paulo, mas não destacada em título nem interno nem na capa), ‘a subsecretaria de Vigilância em Saúde de Minas informou, em nota, que, embora os laudos indiquem irregularidades no leite, não é possível afirmar que tenha sido adicionada soda cáustica, uma vez que o método de análise não identifica a substância’. Nenhuma reportagem, do iG pelo menos, mas possivelmente de toda a imprensa, informou como foi comprovada a presença das supostas substâncias.

Alguém precisa explicar se o fato de o leite estar fora dos padrões é resultado de negligência na limpeza, resíduo da limpeza de equipamentos (seria feita com soda cáustica) ou do ato intencional de contaminá-lo para obter lucros. Parece ter havido prova de que acidez ou alcalinidade estavam fora dos padrões. Existem outras substâncias ou processos do leite que podem causar essa mesma alcalinidade? A polícia dispõe de outras provas ou evidências de comportamento criminoso? Quais? Por que não divulga? Aliás, o que chamam genericamente de soda cáustica designa quais substâncias químicas em que concentrações?

O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, do Ministério da Saúde (Anvisa), Dirceu Raposo de Mello, afirmou, conforme reportagem do iG, que o sistema de vigilância sanitária não havia constatado nenhuma alteração no produto durante as inspeções rotineiras realizadas na ponta do consumo. E acrescentou: ‘Não existem dados que levem à proibição do consumo’.

Também não houve até o momento nenhuma denúncia de pessoas contaminadas pelo leite. Ele reiterou que, dependendo da concentração destas substâncias no produto, não há danos à saúde. O laudo da Anvisa sobre o leite supostamente contaminado, como o próprio iG informa, deve sair em uma semana. Enquanto isso, os meios de comunicação submetem-se ao tom que predomina nas televisões, e estas seguem a Polícia Federal na promoção de um massacre de pessoas e empresas que são inocentes, como diz a lei, até que sejam condenadas em última instância pela Justiça.

Vinte e sete pessoas foram presas sob acusação de integrar a chamada ‘quadrilha’. Todos menos um, foram libertados. Apenas o diretor-presidente da Cooperativa de Produtores de Leite do Vale do Rio Grande (Copervale), responsável pela fabricação e distribuição do leite integral Centenário, Luiz Gualberto Ribeiro Ferreira, continua preso. Ninguém parece ter tentado ouvir seriamente as pessoas que foram soltas. Suas versões são dadas pela própria polícia ou advogados. Não se sabe da íntegra de seus depoimentos à polícia.

Negam (se é que é fácil negar algo na incomunicabilidade de uma sala de depoimentos, sob pressão de investigadores e sob o trauma do isolamento) ou confirmam? E o que dizem os especialistas no tema, os químicos, engenheiros, biólogos, economistas e tecnólogos de alimentos? As autoridades (Polícia Federal, Ministério Público, Anvisa, Serviço de Inspeção Federal) deveriam estar sob enorme pressão para sustentar prisões em tal número e com acusações tão mal-sustentadas. Os responsáveis pela fiscalização deveriam justificar por que leite assim (se são verdadeiras as denúncias) estava sendo vendido. As empresas compradoras também têm sistemas de controle da qualidade do leite que recebem. O que dizem esses testes?

Mas agora, justo quando os detidos saem das celas, o assunto desaparece das manchetes e até das capas. O jornalismo deveria ser exercido de maneira muito mais independente, distanciada das autoridades e criteriosa.

A única forma de fazer jornalismo sério é depender menos de fontes oficiais e ir a campo ouvir as fontes, falar com as pessoas. Isso demanda investir em contratar repórteres, editores e providenciar os recursos (telefone, viagens de carro e avião, computadores, telefones). Ou seja, fazer jornalismo sem equipe é sinônimo de fazer jornalismo chapa branca, dependente das autoridades. Agora, por exemplo, quando chega a hora de ouvir os seres humanos envolvidos no suposto envenenamento do leite, quando é o momento de cumprir as normas que obrigam a audição de todos os lados, não há meios. Os veículos parecem estar aguardando surgir nova informação oficial, novo anúncio da Polícia Federal, facilitado por alguma assessoria de imprensa.

Além de investimento, ajudaria a melhorar o jornalismo formar melhores profissionais em termos técnicos e principalmente humanos. As escolas de jornalismo (e as de direito também, por que não?), por exemplo, poderiam incluir uma atividade, uma ‘dinâmica’, na formação de seus alunos com o seguinte exercício: eles passariam uma noite (só uma) numa cela, sujeitos às mesmas condições materiais dos presos. Pode ser num xadrez desativado, não é preciso nem ser constrangido a conviver com outros suspeitos. Bastariam a falta de espaço, o ‘banho’, a comida na ‘quentinha’, o vaso, a cama de concreto e a solidão.’

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