Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > iG

Mario Vitor Santos

27/11/2007 na edição 461

‘Desde os dias 7 e 8 de novembro, o iG, o Último Segundo e o Conversa Afiada
ignoram princípios básicos do jornalismo e da ética. O Conversa Afiada (no dia
7) comentou e o Último Segundo (no dia 8) noticiou a prisão de 20 cidadãos
brasileiros e suíços, acusados de montar esquema para evasão de divisas. Dentre
os presos está o suíço Luc Mark Depensaz, funcionário do banco suíço UBS. Na
ocasião, o Último Segundo publicou que, ao ser preso, Depensaz fez a seguinte
afirmação a agentes (não-identificados) da Polícia Federal:


‘Eu não vou ficar preso. Quem tem dinheiro neste país não fica preso.’


Se fosse verdadeira (não se sabe), difícil conceber afirmação tão agressiva,
arrogante, auto-incriminadora e até racista como essa.


A origem da declaração é uma reportagem assinada pela Agência Estado de
notícias. Mereceu destaque no jornal ‘O Estado de S.Paulo’ e também em quase
todos os maiores portais de notícias. Uma pesquisa no Google mostra que a frase
atribuída ao suíço foi reproduzida mais de cem vezes, sem qualquer
questionamento da veracidade, só na internet brasileira. A suposta declaração
foi sempre reproduzida entre aspas, mesmo vindo por fonte não-identificada. Ou
seja, o jornalista não presenciou a suposta afirmação, mas não informa que
checou as palavras pronunciadas com diversas fontes. Informações em off exigem
checagem muito rigorosa. Informações em off reproduzidas entre aspas (como se
fossem literais, sem que se tenha certeza disso) deveriam ser evitadas
inteiramente.


De acordo com a versão divulgada pela Polícia Federal, a suposta quadrilha,
composta por funcionários dos bancos UBS, Credit Suisse, AIG Private Bank e
Clariden, trabalharia através de uma pretensa doleira, Claudine Spiero, também
presa. A tal suposta quadrilha é acusada de enviar fortunas para fora do Brasil
de maneira ilegal, fraudando as leis tributárias e prejudicando o país.


A operação de prisão a cargo da Polícia Federal foi montada de acordo com o
figurino usual: aparato policial, agentes uniformizados, armamento pesado, foto
de pilhas de dinheiro sobre uma mesa em que aparece o brasão da PF, acusados
algemados e operação batizada com nome sugestivo, para facilitar as referências
na mídia ‘Kaspar 2’.


Como nas outras ocasiões, as versões da Polícia Federal são reproduzidas
docilmente por jornalistas e seus veículos, inclusive este iG. Agentes,
delegados, promotores recebem amplos espaços. Suspeitos viram criminosos.
Suposições transformam-se em verdade. Jornalismo malfeito vira presa fácil para
a manipulação da opinião pública. A versão dos acusados é escondida quando não
simplesmente omitida.


Ninguém pergunta: e se a polícia estiver errada? E se for um mal-entendido?
Ninguém fiscaliza a competência e os procedimentos das autoridades. É um
processo sumário, num tribunal de exceção, sem direito a contraditório nem
apelação. O réu não tem direitos. A condenação é imediata e eterna. O direito do
cidadão, de ser inocente até prova em contrário ou, melhor, até condenação
definitiva em última instância, após execer todos os seus direitos de defesa, é
ignorado pelos meios de comunicação manipulados pela polícia.


O fundamento dessas operações da Polícia Federal são gravações feitas ao
longo de meses com autorização judicial. As gravações em si já passíveis de
questionamento como método de apuração. Quando abrangem um período tão dilatado
são obviamente volumosas. Então geram ‘relatórios’ supostamente precisos, que o
juiz lê e, talvez com base neles, autoriza a prisão. A partir daí, o grupo
acusado passa a ser tachado pela PF, pelo Ministério Público e por veículos da
imprensa, de ‘esquema’ e, comumente, de ‘quadrilha’. O sensacionalismo e a
demagogia imperam, sem que ninguém se choque. Não é feita investigação
independente, nem apuração dos fatos que dê espaço justo e proporcional, de
verdade, a todos os lados (especialmente aos acusados, pois a versão oficial
sempre ganha logo as manchetes).


Vamos agora então a um esboço de outro lado que ninguém publicou com o espaço
necessário.


Depensaz em desespero: ‘Sou inocente’


Eduardo Carnelós, advogado do suíço, conversou com Depensaz quatro dias após
sua prisão. Procurado por este ombudsman, o advogado declarou [uso aspas, mas as
fontes são identificadas. Mesmo assim pode haver imprecisões em detalhes]:


‘Meu cliente não só nunca disse isso como ficou em desespero quando soube que
essa frase tinha sido atribuída a ele. Ele soube da frase na quarta-feira, dois
dias depois de ter sido preso. Na sexta-feira, quando eu o encontrei, ele disse
para mim aos prantos, pelo vidro da carceragem da Polícia Federal em São Paulo:
‘Nunca falei uma coisa dessas’. E mais: ‘É incompatível com a minha conduta. Eu
abri a senha do meu computador. Franqueei o que tinha à minha disposição. Tenho
convencimento absoluto de que não fazia nada de ilegal. Sou inocente. Doutor, me
mostraram uma notícia. Doutor, eu não vou mais sair daqui’.’


Continua o advogado: ‘Essa declaração atribuída a ele, não sei de onde
partiu. Saiu no Estadão. Foi reproduzida nas televisões e internet.’


‘Alguém está querendo influenciar as autoridades brasileiras e a opinião
pública. Falei com delegado titular e com outro delegado responsável pelo caso.
Foram ambos categóricos em negar que ele tivesse dito isso. Agentes envolvidos
diretamente na prisão fizeram questão de dizer que ele não havia feito tal
afirmação em momento algum. Depensaz é um gerente de contas de um banco
internacional, UBS, que age da mesma forma e sem problemas em dezenas de países
do mundo.’


‘Da maneira como saiu a declaração, sem autoria, não há como contra-atacar.’


Situação na cadeia


Prossegue o advogado Eduardo Carnelós, sobre Depensaz: ‘Meu cliente adora o
Brasil. Tem plena noção de quanto desrespeitosa seria essa declaração. Já vinha
ao Brasil mesmo antes de trabalhar aqui. É casado com uma peruana. Tem dois
filhos, uma menina de nove e um menino de cinco anos. Eles ainda não sabiam da
prisão. Estão evitando contar’.


Diz ainda o advogado: ‘O desmentido nunca sai com o alarde da primeira
informação. As primeiras notícias, o escândalo, ocupam páginas inteiras. Quando
sai o desmentido, ninguém liga mais. Como posso evitar por exemplo, que um juiz
vá consultar o Google ou a internet para saber o que foi publicado a respeito
desse caso e dê de cara com essa suposta declaração?’


‘Nesta semana, Luc Mark Depensaz foi transferido para o Centro de Detenção
Provisória, em Guarulhos, onde as condições são péssimas. Em geral, há celas em
que trinta pessoas se espremem em espaço reduzido.’


Trecho do hábeas-corpus


Leia trecho do hábeas-corpus impetrado e não aceito pelo advogado Eduardo
Carnelós em nome de Luc Mark Depensaz:


‘Ao juiz se exige muito mais do que o conheci­mento jurídico: é
imprescindível que ele tenha coragem, muita coragem. Sim, o deste­mor
próprio de quem conhece seu ofício e a importância de seu papel para a segurança
jurídica de cada ser humano. Coragem para enfrentar, não mais as forças dos
fuzis empenhados numa guerra pela segurança nacional, mas para enfrentar a força
demoli­dora dos que desvirtuam o ordenamento jurídico a pretexto de
protegê-lo, e que assim agem se valendo do poder imenso da mídia para fazer de
suas teses verdades absolutas, contra as quais qualquer medida que venha a
reconhecer direito individual será considerada favorecimento, portanto,
indevido.’


PF não confirma nem desmente


Procurada, a Polícia Federal informou que não foi responsável pela divulgação
da suposta frase de Depensaz. ‘A Agência Estado deve ter colhido essa informação
pessoalmente. Não veio daqui’, informou o assessor William Souza. O mesmo
assessor declarou que não sabia se a frase faz parte do inquérito, como foi
noticiado. Pediu que fossem enviadas perguntas a respeito que ele encaminharia
aos responsáveis. O setor de Comunicação Social da PF, então, enviou a seguinte
resposta:


‘Todas as declarações prestadas pelos envolvidos nessa investigação foram
encaminhadas no inquérito policial ao Poder Judiciário e estão sob segredo de
justiça. Logo, não poderemos confirmar nem desmentir essa afirmação.’


Procuradora não se manifesta


A procuradora Karen Louise Jeanette Kahn, citada na reportagem da Agência
Estado, informou a este ombudsman, por meio de uma assessora que, agora, não se
manifestaria por estar envolvida na confecção da denúncia contra os acusados de
evasão fiscal. No dia 8 de novembro, a Agência Estado publicou e o iG reproduziu
que a procuradora declarou ter intenção de usar a frase atribuída a Depensaz em
sua acusação.


Veja trecho da reportagem e os argumentos da procuradora:


‘Segundo a procuradora da República Karen Louise Jeanette Kahn, é muito
provável que a direção dos bancos envolvidos incentivassem suas práticas no
Brasil. ‘As instituições financeiras suíças aproveitam brechas em nossa
legislação e tratam o Brasil como um quintal florido, um país emergente que
vende informalidade e impunidade e é ótimo para a prática da evasão.’ Exemplo
disso, segundo a PF, foi a reação do executivo do UBS ao ser preso. Depensaz
desdenhou da ação policial e disse: ‘Eu não vou ficar preso. Quem tem dinheiro
neste país não fica preso.’ A Superintendência da PF de São Paulo fez constar a
frase do executivo no inquérito que apura o caso.


‘É interessante para a denúncia incluir essa declaração, mas não como um
revide, mesmo porque há provas de que o envolvimento dele era muito grande e
justificam a manutenção da prisão dele’, disse Karen.


O Último Segundo desrespeita seu manual


Para citar só dois trechos importantes do Manual do Último Segundo, veja o
que iG escreve mas não pratica neste caso:


[Página 3]: ‘5º princípio – Integridade e equilíbrio.


‘O Último Segundo funda-se na integridade da pesquisa, da coleta dos dados,
no respeito à fonte e no equilíbrio das informações em relação a todos os lados
que envolvem os fatos objeto do noticiário.


O jornalista do Último Segundo trabalha com levantamento de informações,
verificação e revelação.’


[Página 12]: ‘Ouvir as partes: Nada se publica sobre alguém sem que o
personagem da notícia, empresa ou entidade seja ouvida antes. Ao preparar um
texto jornalístico, a redação do Último Segundo deve ouvir todas as partes.


– Nada publicar contra ninguém sem ouvi-la antes. Se à pessoa acusada dos
maiores crimes é dada, nos tribunais, a oportunidade de defender-se e de
apresentar livremente a sua posição, um jornalista não pode transformar-se em
promotor e juiz ao mesmo tempo; não pode publicar informações e acusações sem
antes procurar a pessoa, empresa ou entidade mencionada para ouvi-la e
reproduzir sua versão.


– As diferentes versões ou perspectivas de um fato devem ser colocadas de
maneira clara e isenta. Deve haver uma grande preocupação em ser correto com
todos os lados.


– Para o Último Segundo, um texto não pode apenas ser ‘tecnicamente correto’.
O jornalista pode escrever: ‘Fulano está envolvido num caso de roubo’. Ou
‘Roubaram a carteira do Fulano’. O fato é o mesmo e as duas versões podem ser
entendidas como ‘tecnicamente’ corretas. Mas a primeira delas induz ao erro e à
idéia de que Fulano pode ter roubado algo.


– A pessoa, entidade ou empresa acusada deve ser ouvida em qualquer lugar.
Telefonar a alguém em seu escritório às 21h e escrever que a ‘pessoa procurada
não foi encontrada’ é agir irresponsavelmente. Ela deve ser procurada em casa,
no celular, na casa de amigos, onde estiver. O jornalismo é uma função pública e
garante ao jornalista o direito de incomodar alguém, mesmo de madrugada, se for
para falar com todas as partes envolvidas numa reportagem.


– No caso de um texto produzido de forma precária em função do ‘tempo real’,
a redação do Último Segundo inclui na reportagem o texto ‘O Último Segundo
continuará a tentar contato com Fulano para ouvir sua versão’ até que a referida
parte seja ouvida.


– Na impossibilidade de publicar a versão do acusado – seja por não conseguir
encontrá-lo, ou a seus representantes, em tempo hábil, seja porque o próprio se
recuse a dar esclarecimentos, a informação sobre os motivos da impossibilidade
de ter a sua versão deve ser claramente explicitada no texto.’ [fim da citação]


Numa única reportagem, dezenas de desobediências à sua própria norma.


Perguntas para o iG e para o Conversa Afiada


Nesta sexta-feira, foram enviadas as seguintes perguntas à chefia da Redação
do iG e ao Conversa Afiada:


‘Em relação à operação Kaspar 2, realizada pela Polícia Federal em dia 7 de
novembro passado, o iG publicou, no dia 8, que um dos acusados por evasão de
divisas, o suíço Luc Mark Depensaz, teria afirmado, segundo a PF, o seguinte ao
ser preso: ‘Eu não vou ficar preso. Quem tem dinheiro neste país não fica
preso.’ O Conversa Afiada publicou no dia 7, com foto, acusando-o de fazer ‘um
desafio ao Supremo Tribunal Federal’.


Em relação a isso, gostaria de saber:


1) O iG e o Conversa Afiada tentaram ouvir a Polícia Federal a respeito deste
assunto? Quem do iG e do Conversa Afiada tentou ouvir quem? Quando? O que foi
perguntado e publicado?


2) O iG e o Conversa Afiada tentaram ouvir o acusado Depensaz a respeito ou
algum seu representante, advogado, amigo, parente ou policial?


3) O iG e o Conversa Afiada questionou a Agência Estado ou o jornal ‘O Estado
de S. Paulo’ origens da informação que o iG publicou, sobre o assunto?’


A resposta do iG


O Ombudsman recebeu e agradece resposta que recebeu da jornalista Mariana
Castro, editora-chefe do Último Segundo:


‘Durante a apuração dos fatos sobre a operação Kaspar 2, ouvimos a Polícia
Federal, fomos à coletiva de imprensa na PF e publicamos a versão dos advogados
dos envolvidos .


O jornal O Estado de S. Paulo publicou a frase do Depensaz no dia seguinte à
prisão, sem revelar quem a teria ouvido.


O Último Segundo não destacou a declaração – ela estava na nota da Agência
Estado.


http://ultimosegundo.ig.com.br/economia/2007/11/08/executivos_de_bancos_ofereciam
_esquema_a_empres225rios_do_pa237s_1074509.html


Não apuramos sobre a frase especificamente (nem com a PF, nem com o Depensaz,
nem com a AE).’


Isso é ‘outro lado’?


Dentre as oito reportagens que o iG publicou sobre este assunto, a única
‘versão dos advogados dos envolvidos’ (nas palavras da editora do Último
Segundo) é este parágrafo curto, perdido no fim de um texto com título
acusatório (‘Executivos de bancos ofereciam esquema a empresários do país,
segundo investigação’):


‘Protesto – Advogado de um dos acusados presos na operação, o criminalista
Alberto Toron protestou ontem contra o fato de, 24 horas depois da operação, os
advogados dos suspeitos ainda não haviam obtido acesso aos autos. ‘Isso é
gravíssimo.’ O criminalista Antônio Claudio Mariz de Oliveira, que defende outro
acusado, disse que aguardará o término da prisão temporária para decidir quais
medidas pretende tomar.’


E só. Quem no jornalismo brasileiro vai dar voz a um suíço que trabalha num
banco cujos clientes têm posses e é vítima de uma campanha difamatória?


O comentário do Conversa Afiada


Ao lado de uma foto de Depensaz algemado, sendo conduzido para a cadeia, o
Conversa Afiada publicou o seguinte comentário no dia 7 de novembro:


Título: ‘Suíço preso dirige-se ao Supremo’.


Trecho do texto: ‘Depensaz tem dinheiro suficiente para ir buscar sua
liberdade até o Supremo. Devemos aguardar para ver se, de novo, o Supremo desfaz
o trabalho da Polícia Federal.’


A Resposta do Conversa Afiada


Procurado, o jornalista Paulo Henrique Amorim enviou a seguinte mensagem,
pela qual agradeço:


‘Caro mario vitor,


O texto á auto-explicativo: no segundo parágrafo está lá a fonte: Estadão
pág. B10.’


Fala o Grupo Estado


Procurado pelo ombudsman do iG, o grupo Estado, que edita o jornal o Estado
de S Paulo e é proprietário da Agência Estado de notícias, emitiu a seguinte
posição:


‘O Grupo Estado confirma as informações’. A instituição prefere não fazer
outras considerações a respeito do assunto.


***


E a pauta, senhores? (21/11/2007)


O iG publicou hoje, com destaque em sua capa, informação importante para os
internautas. O título faz estardalhaço e diz: ‘Grande alcance – Embratel investe
R$ 1 bi em internet rápida sem fio’.


A chamada remete o leitor para um texto interno, na seção ‘Mundo Virtual’,
onde a notícia é relativamente curta e não corresponde a tanto escândalo.
Segundo o texto, a Embratel Embratel investirá até março do ano que vem US$ 600
milhões (R$ 1,048 bilhão) na transmissão WiMAX, uma tecnologia de banda larga
sem fio de grande alcance. Resultado: em poucos meses, São Paulo, Rio, Curitiba,
Porto Alegre, Salvador, Brasília, Recife, Campo Grande, Florianópolis e
Fortaleza terão o serviço à disposição (para quem pagar por ele, obviamente, e
tiver equipamento adequado).


A notícia tem origem numa palestra realizada nesta segunda-feira pelo diretor
de vendas da Embratel, Flavio Augusto Gomes, na AmCham (Câmara Americana de
Comércio). A Câmara publicou um relato da palestra em seu site divulgando a
declaração e a Agência Estado reescreveu um pouco e espalhou a notícia. O iG a
destacou em sua capa.


Em primeiro lugar, quem resolveu destacar a notícia merece elogios, pois,
embora já se soubesse da iniciativa da Embratel, a quantia a ser investida é, ao
que parece, uma informação inédita.


Mas o correto procedimento correto só aguça a curiosidade. Ainda falta o
principal, ou seja, complementar a informação, dizer o que isso tem a ver com a
vida do internauta. E aí aparecem as maiores debilidades do portal. Falta ao iG
investir em apuração de informações, ou seja, fazer jornalismo com foco no
interesse do leitor. Falta ao iG planejar e realizar autonomamente uma lista de
reportagens, ou em jargão jornalístico, falta ao iG produzir e cobrir uma
‘pauta’.


Quem lê a notícia solta, na primeira página, pode não se dar conta de como
essa mudança pode estar relacionada à sua vida. Agências de notícias servem para
dar a informação crua. Elas podem ser o início do trabalho, nunca todo o
trabalho. Cabe a cada veículo fazer a aproximação com seu público leitor.


Como vai funcionar o sistema de Wimax? O que esse investimento representa em
alcance? Em alguns países, é possível abrir o laptop no meio de uma praça ou
dentro de um ônibus e entrar na internet. Vai ser assim também em Brasília? Já
em março? Qual será o preço para o usuário? Isso altera de alguma forma o futuro
das conexões tradicionais, via cabo telefônico? O usuário deve pensar nisso ao
fazer novas instalações? O anúncio foi da Embratel. E as outras empresas de
telefonia/internet têm programas parecidos?


Essa lista de perguntas feitas é um exemplo do que seria uma pauta
jornalística para esse assunto. Se esse fosse um tema qualquer, já seria
importante que o iG fizesse um detalhamento da informação. Mais ainda quando se
trata de internet. Em suma, agora falta o mais importante. Com a palavra, o iG e
sua pauta.


Grande alcance: Embratel investe RS 1 bi em internet rápida sem fio


***


Anunciaram e garantiram que o mundo ia acabar (19/11/2007)


Título impressionante no alto da capa do iG hoje: ‘6 bilhões de pessoas vão
morrer – Rolling Stone entrevista James Lovelock’.


O título remete para uma entrevista com o cientista (condição que o iG omite
em sua capa), publicada na revista Rolling Stone.


Entre outros prognósticos, Lovelock, de 88 anos, afirma que vão restar apenas
500 milhões de pessoas vivas no final do século, em função do aquecimento
global.


Ondas de chineses vão invadir a Sibéria, em busca de água, alimento e
refresco. A entrevista à Rolling Stone descreve um cenário apocalíptico, desses
que deveriam levar ao pânico.


A wikipedia informa que Lovelock é um cientista de muita experiência e muitos
títulos. Formado em química pela Universidade de Manchester, pesquisou em
Harvard e Yale. Só que há quase quatro anos, em janeiro de 2004, o cientista fez
exatamente as mesmas declarações que hoje o iG publica com estardalhaço. Foram
publicadas pelo jornal britânico The Independent. Dizia ele: por causa do
aquecimento global, ‘bilhões de nós morrerão e os poucos casais férteis de
pessoas que sobreviverão estarão no Ártico onde o clima continuará tolerável’.


Ou seja, a notícia do iG é velha. Agora foi, como se diz, requentada.


Lovelock somava-se então àqueles que ao longo dos tempos anunciaram e
garantiram que o mundo ia se acabar (exceto para 500 milhões de privilegiados
que, diz ele, fugirão para os pólos).


Há dois meses, porém, no congresso da Associação Nuclear Mundial, Lovelock
recuou parcialmente da idéia do fim do mundo. Afirmou que a mudança climática
seria de alguma maneira interrompida e que a espécie humana poderá sobreviver na
Terra. Mesmo assim lançou uma idéia ousada.


Sugeriu a instalação de tubos de centenas de metros para fazer circular as
algas das águas mais frias do fundo para a superfície. A água bombeada ajudaria
a fertilizar as algas da superfície, absorvendo dióxido de carbono do ar e
estimulando a formação de nuvens refletoras de luz solar. Isso logo foi recebido
com uma saraivada de críticas.


Lovelock é muito controverso, suas previsões sobre fim do mundo não são novas
e os seus críticos não foram ouvidos na notícia divulgada pelo iG. O iG preferiu
o sensacionalismo puro.


Sim, alguns podem dizer que a notícia não é do iG, é da revista ‘Rolling
Stone’. Sim, mas o iG a destacou em sua capa, ou seja, acreditou nela. Esse é o
problema: o iG acreditou, quando devia ter duvidado.’

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