Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

VOZ DOS OUVIDORES > iG

Mario Vitor Santos

03/06/2008 na edição 488

‘Entre 2 e 24 de junho estarei de férias. Os casos encaminhados ao ombudsman nesse período continuarão sendo direcionados às diversas áreas pela assistente Bruna Cenço, para que elas saibam do problema e tomem providências a respeito.

Estocolmo ONO-2008: auto-invasão de privacidade (31/5/08)

A editora Eva Landahl veio ao encontro dos ombudsmans defender a atitude de transmitir imagens das reuniões de pauta e das conversas dos jornalistas dentro da redação do programa de tv Aktuellt, que ela dirige. Até as críticas feitas pelos chefes aos subordinados (e vice-versa) no processo de avaliação dos programas feitos e as impressões dos jornalistas sobre possíveis personagens do noticiário vão para o ar. Houve uma vez em que uma dessas conversas foi suprimida a pedido de uma jornalista que demonstrou satisfação quando 50 pessoas morreram no Sudão: havia notícia. Para esclarecer: não acho que essas manifestações de jornalistas e de outros profissionais que reagem a temas negativos com um certo humor necessariamente indiquem insensibilidade e devam ser punidas ou censuradas.

Estocolmo ONO-2008: os segredos do premiê (31/5/08)

Um dos destaques do encontro da ONO em Estocolmo encerrado hoje foi a sessão com o repórter Erik Fichtelius, que foi demitido do trabalho de analista político da tv pública sueca quando foi revelado que ele, por seis anos, ele e o cinegrafista sueco de origem espanhola Paulo Rodrigues haviam, feito entrevistas secretas e reveladoras com o primeiro-ministro. Fichtelius manteve seu projeto por mais quatro anos, até que o premiê deixasse o posto, em 2007. Os encontros geraram uma série de quatro programas exibida na mesma semana na tv sueca no ano passado, com recordes de audiência. Fichtelius diz não ter usado as informações privilegiadas que recebia do premiê enquanto continuava fazendo análises para a tv. O premiê assistiu à série antes de que ela fosse ao ar e não fez qualquer veto nem comentários. Disse apenas que teria editado de maneira diferente. O jornalista, muito criticado por colegas, recebeu o principal prêmio sueco de jornalismo no ano passado em função da reportagem com o premiê.

Estocolmo ONO-2008: interesse (31/5/08)

O grupo Guardian/Observer trouxe para assistir à reunião de Estocolmo quatro jornalistas: a editora de Leitores do Guardian, Siobhain Butterworth, a assistente da editora de Leitores, Helen Hodgson, o editor de Leitores do Observer, Stephen Pritchard, e o próprio editor-chefe do Guardian, Alan Rurbridger. The New York Times e Washington Post não vieram em função da seqüência de cortes de gastos que atinge os jornais americanos.

Estocolmo ONO-2008: ética e poder na web 2.0 (31/5/08)

Veja algumas questões que ocuparam a reunião da ONO (Organization of News Ombudsman), encerrada neste sábado:

1) Que tipo de regras devem ser seguidas no tratamento do conteúdo gerado pelos usuários?

Resposta: alguns dos participantes defendem que devem ser aplicados os mesmos princípios exigidos dos jornalistas. Mas a Redação deve ter no mínimo um número de telefone do autor e seu nome para contato e verificação. Os princípios podem ser flexibilizados em função das circunstâncias, mas não há concordância quanto ao grau. Fornecida por um leitor, a informação sobre engarrafamento de trânsito é diferente da reportagem a respeito de, por exemplo, uma pesquisa na área farmacêutica, que implica verificação mais especializada. De qualquer forma, cresce entre os jornalistas que editam websites a opinião de que as regras a serem impostas devem ser debatidas com os próprios usuários.

2) A ética jornalística deveria ser aplicada aos leitores fornecedores de conteúdo? Como?

A tendência é achar que sim, inclusive porque os veículos são legalmente responsáveis por conteúdo gerado pelos usuários, em especial se não fizeram esforço de verificação.

Outras questões, para pensar:

3) como podem os ombudsmans ajudar jornalistas e leitores na negociação sobre o que é relevante num espaço midiático compartilhado?

4) Os mesmos princípios devem ser aplicados para diferentes plataformas?

5) A definição do jornalismo está mudando com a web e suas implicações, de um ‘produto’ feito uma vez para um ‘processo’contínuo. Ele está ficando mais radiofônico. Como ficam as correções e as diversas mudanças que são feitas durante esse processo? Todas as versões devem ser preservadas? Como o leitor deve ser informado sobre as mudanças ocorridas?

6) A relevância da mídia tradicional está mudando? Como ser relevante no futuro? As funções dos ombudsmans podem ser substituídas por grupos de vigilância da qualidade oriundos da multidão?

7) A mídia deve tratar correções de uma maneira diversa do que antes da web 2.0?

8) Que opção teria a mídia apoiada em anúncios senão adaptar suas operações às estratégias de targeting dos anunciantes?

9) Que exigências devem fazer os ombudsmans para obrigar a mídia virtual a revelar as informações que reúne sobre hábitos e preferências de seus clientes?

***

Apresentação na reunião da ONO (30/5/08)

Nova mídia e novos métodos

Palestra realizada hoje em Estocolmo na reunião anual da ONO (Organization of News Ombudsman) pelo ombudsman do iG

1. Gostaria de agradecer aos organizadores desta conferência (Lilian Ohrstrom, Janne Anderson e Thonbor von Krogh) pelo convite para que falasse sobre o trabalho como primeiro ombudsman só da internet. Sou agradecido também à ONO, a Gina Lubrano e Pam Platt especialmente, pela aceitação imediata da minha filiação aos quadros da Organização de Ombudsmans de Notícias.

Após onze anos eu retorno, coisa que jamais pensei pudesse acontecer. Como alguns de vocês talvez recordem, eu fui ombudsman da Folha de S. Paulo em duas ocasiões (91-93 e 97). Então este é o quarto encontro anual que eu presencio. E essa ocasião é especial também porque eu (não sendo uma pessoa de internet) estou ainda aprendendo como ser um ombudsman na web. Minha cabeça ainda é a da mídia impressa e essa adaptação não é tão simples.

Quando fui chamado a falar sobre esse tema fiquei tão entusiasmado que eu não pensei muito e logo aceitei. Só então percebi que não sabia o suficiente para fazer uma palestra sobre internet. Fui em frente assim mesmo e descobri que essa seria uma oportunidade para resumir e pesar aquilo que tenho feito.

Meu primeiro ano como ombudsman termina na próxima semana e acabei de ser convidado a permanecer por mais um ano pelo presidente do iG, Caio Túlio Costa, que também é um ex-ombudsman. Na verdade, ele foi o primeiro ombudsman do Brasil. Se a memória não me falha, o ombudsman foi criado no Brasil após uma sugestão feita por Carlos Eduardo Lins da Silva, que agora também é ombudsman e está aqui entre nós.

2. Deixe-me começar pela conclusão. Como ombudsman do iG eu não tive a oportunidade de exercer qualquer método realmente novo. Quando preciso, eu recorro ao mesmo conjunto de procedimentos usados por décadas pelos ombudsmans da mídia impressa e eletrônica, ambos representados neste encontro.

O que eu tenho feito no iG (sigla da empresa brasileira Internet Group) é a mesma coisa que eu aprendi a fazer na ‘velha’ mídia, no começo dos anos noventa na Folha.

3. O iG não é perceptivelmente diferente dos outros grandes sites brasileiros. Acho que ele ainda não tem uma forte identidade como fornecedor de notícias. Está trabalhando nisto, mas devo dizer que não tenho certeza de que está indo na direção correta.

Muitas pessoas no Brasil conhecem a marca iG e consomem suas notícias em diferentes plataformas e locais, mas alguns deles não fazem muita distinção entre ele e UOL, Terra ou G1, dos quais é concorrente.

4. O maior problema, acredito, é que esses portais todos expressam as mudanças que nós vemos acontecer todos os dias no nosso setor:

a. Mudanças na forma como as notícias são produzidas, editadas e rotuladas.

b. Mudanças no entendimento do público do que é ‘notícia’.

c. A incorporação de toda uma nova audiência para notícias na internet.

d. A possibilidade dada a não-jornalistas de criar e publicar informação nos nossos sites de notícias.

Tudo isto junto faz, como nós sabemos, a internet muito útil, mas também um local muito confuso para os usuários.

A maioria dos grandes sites, ao contrário do que eles próprios dizem, não é eficientemente aberta ao público. Não leva as necessidades dos leitores em consideração.

A internet precisa muito de valores, padrões de qualidade e auto-regulação. Exige a adoção desses padrões para que ela, como veículo, seja estimada pela comunidade. É preciso, portanto, criar uma espécie de cultura.

5. Os ombudsmans são ferramentas para ajudar a tratar desses problemas. Nesse sentido, o trabalho do ombudsman pode ser de mais valor na internet do que tem sido na mídia tradicional.

Ombudsmans na internet fazem o que seus pares na velha mídia fazem. Lêem, assistem, comparam e ouvem os leitores. Nós tentamos ecoar opiniões quando o leitor quer informação balanceada, mas também quando eles querem somente a verdade. Lutamos pelos valores eternos do bom jornalismo e às vezes eles me fazem ir contra as exigências passionais do público.

Assim como outros no ramo, o iG tenta, mas eu não estou certo se ele faz isso de verdade, fazer das notícias um empreendimento compartilhado entre quem produz e quem consome. Informação, na maior parte, ainda é transmitida de cima.

6. O iG é agora o segundo maior destino de usuários de internet no Brasil. Isto é algo significativo. Mas o Google tem 600 milhões por mês.

7. A grande maioria das notícias do iG tem origem externa, seja mídia impressa, televisão, câmera de vídeo ou o celular de alguém. Os editores tentam conectar as reportagens a outras histórias dentro do portal, mas quase nunca o fazem quando a notícia não procedo dos parceiros do portal. Só uma pequena fração da redação é dedicada a apurar notícias. A maioria dela está ocupada em editar, atualizar e administrar o material.

8. Muitas seções diferentes do iG parecem que são as mesmas. O modelo visual não varia muito. As cores são padronizadas. Nessas seções, você dificilmente encontra uma surpresa de verdade. É difícil identificar-se com esse jornalismo.

9. Os editores do iG reformatam o conteúdo enviado por parceiros, às vezes com um título engraçado e uma orientação inclinada ao ‘consumidor’. A gama de assuntos é vasta.

10. Tudo isto vai para diferentes plataformas.

11. iG é muito mais do que somente notícias. Tenta incorporar conteúdo produzido por internautas.

12. iG pertence a uma grande empresa de telecomunicações (Brasil Telecom) que está em processo de aquisição por um concorrente ainda maior, em uma polêmica negociação que envolve mudanças na legislação e até mesmo aprovação presidencial. A parte principal parece que já foi decidida, mas os detalhes não estão claros e o iG não fala independentemente sobre esse tema e sobre suas implicações.

13. No Brasil, portais criados por jornais de qualidade enfrentam a forte competição com sites informativos criados pelas companhias telefônicas.

14. Em contraste com o que acontece em outros países, no Brasil a venda de jornais está crescendo como um todo. Jornais de qualidade crescem num ritmo muito pequeno. A internet, por seu lado, está explodindo. Um ombudsman pode ser visto também como parte de uma estratégia de criação de marca e posicionamento de produto. Não há nada de errado nisso, pois a preocupação com a qualidade me parece verdadeira.

15. Em coerência com a criação da função de ombudsman, o iG publica para os leitores os princípios que regem suas práticas jornalísticas.

16. Mas continua publicando notícia falsa, como da semana passada, sobre a queda de um avião em São Paulo, uma cidade traumatizada pelos terríveis acidentes perto do aeroporto de Congonhas. Até mesmo a CNN divulgou a notícia errada, o que não é uma desculpa.

17. Alguns dos principais erros, como esses, são seguidos de correções, que não são sempre completas. A correção do erro da queda do avião, por exemplo, tentou transferir a responsabilidade para a assessoria de imprensa da Infraero.

18. Diariamente eu publico críticas, focadas principalmente nas notícias do iG.

19. No primeiro ano, recebi mais de cinco mil manifestações de leitores. A maioria delas era relativa a questões não diretamente relacionadas a conteúdo.

20. Um caso sozinho, a demissão de um jornalista, Paulo Henrique Amorim, gerou uma campanha de reclamações para o ombudsman e um movimento de boicote contra o iG.

21-25. Quando você abre suas páginas para o público e incentiva a conexão horizontal cria também uma rede, mas corre o risco de publicar tudo, até mesmo conteúdo de natureza criminosa. Uma dos sites grátis criados pelo iG chegou a publicar a receitas para fabricar bombas caseiras. A página foi descoberta por um engenheiro químico que estava procurando por referências a certas substâncias no Google. Ele entrou em contato conosco e a página foi retirada do ar.

26. Eu estou dizendo isto para mostrar que na internet, o iG ainda não é uma exceção. Numa mídia que mistura notícias com todo tipo de conteúdo e assuntos para a manipulação.

27. Venho de uma outra cultura e estou ainda me esforçando. Embora encorajado pelas oportunidades fascinantes que o iG abre para seus usuários , eu me sinto muitas vezes confuso pela paisagem ilimitada e caótica, como um dinossauro que veio de uma era de árvores mais altas, temperaturas mais frescas e um território menor e mais reconhecível.

Obrigado.’

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