Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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VOZ DOS OUVIDORES >

Osvaldo Martins

04/07/2005 na edição 336

‘O presidente da Fundação Padre Anchieta, Marcos Mendonça, reúne sua equipe no próximo fim de semana para dar um balanço geral em seu primeiro ano de gestão e para traçar o rumo da Cultura nos próximos meses. A reunião se realiza sob o impacto do recorde de audiência (pico de 14 pontos) obtido domingo passado durante a transmissão – exclusiva em TV aberta – do jogo México x Argentina pela semifinal da Copa das Confederações, conforme amplamente noticiado pela imprensa.

A direção da Cultura sabe que se trata de um episódio isolado, favorecido pelas circunstâncias. Mas não há dúvida de que a transmissão exclusiva de jogos de futebol em competições importantes atrai grandes públicos. A questão é: será esse um caminho a ser perseguido na busca de melhores índices de audiência?

A julgar pelos e-mails que recebo, as opiniões se dividem meio a meio entre os que aprovam e os que desaprovam essa opção. A maioria do público feminino, majoritário no campo da desaprovação, alega não ser papel da TV pública ocupar-se de futebol, ‘em detrimento da sua missão maior, de educação para a cidadania e de difusão do conhecimento’. Trata-se de uma posição respeitável, um bom início de discussão.

‘Esporte é cultura’, proclama a nossa TV em suas transmissões. Eu concordo, pelo menos em parte. Sendo cultura, por definição, ‘o conjunto dos padrões de comportamento e dos valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade’, segundo o Aurélio, no caso brasileiro o futebol é, sim, um bem cultural. Como tal, é um dos emblemas da identidade nacional.

Muitos confundem cultura com erudição. Isso é um perigo. Outros confundem erudição com superioridade cultural – e isso é um perigo maior ainda. Uma TV pública chamada Cultura deve saber encontrar o ponto de equilíbrio, oferecendo em sua grade de programação produtos televisivos variados, mas de qualidade, do concerto ao pagode, para ficar só no exemplo musical.

É o que espero dessa importante reunião do fim de semana. Como não estarei presente, ofereço aqui, em cinco itens, uma contribuição ao debate, baseado em nove meses de intensa interlocução com o público e em minhas próprias observações:

1 – A Cultura deve liderar uma discussão nacional sobre a necessidade de se ter no Brasil uma TV pública (nem que seja única) de excelência, amparada por um orçamento à altura do empreendimento. O foro adequado é o Congresso Nacional. A Cultura reúne as melhores condições para ser essa TV e o passo inicial é a implantação da Rede Cultura, com afiliadas em todo o país. Hoje existe um arremedo de rede pública que não funciona por uma razão muito simples: não existe rede sem cabeça de rede.

2 – A programação infantil é o maior patrimônio da TV Cultura. Foi com ela que a emissora conquistou os mais importantes prêmios internacionais. Hoje, mães e pais que cresceram assistindo a Cultura fazem questão que seus filhos recebam educação complementar de boa qualidade em seus programas. Mas isso não impede que na grade diurna, até 18 horas, possa haver uma ou outra atração para adolescentes e adultos, especialmente jornalismo.

3 – A custo quase zero, a Cultura pode estar 24 horas no ar. É só dar uma boa olhada na grade atual e levar em conta os novos lançamentos para se perceber que a medida é viável. Além disso, a emissora deve adotar a política do ‘horário alternativo’, exibindo duas vezes durante a semana vários de seus programas (como, por exemplo, o Roda Viva). Entende-se por alternativo o horário bem diferenciado do destinado ao programa inédito, o que representa maior audiência agregada.

4 – A grade atual deve ser repensada. O maior volume de sugestões que recebi a esse respeito, nos últimos meses, destaca dois exemplos: o Café Filosófico, que trata de importantes temas, deveria sair da madrugada; e o Silvia Poppovic, uma revista de variedades, deveria recuar ao horário vespertino.

5 – É preciso criar um padrão de chamadas. Elas são a vitrine das melhores ofertas, por isso precisam ser bem feitas, atraentes e atualizadas diariamente. Não se admite que, meia hora antes de o Roda Viva entrar no ar, a chamada anuncie ‘nesta segunda-feira’… em vez de ‘daqui a pouco’. Isso é elementar, é o beabá da televisão há trinta anos, mas até hoje não teve na Cultura o tratamento que merece.’

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‘Relatório estatístico’, copyright TV Cultura (www.tvcultura.com.br/ombudsman), 28/6/05.

‘Em nove meses (24 de setembro de 2004 a 24 de junho de 2005) recebi 2.803 e-mails do público da Cultura, fora as 3.082 participações na Enquete, 614 no Discuta, 354 comentários de comentários e 319 comentários de notas. A Capital e a Grande São Paulo tiveram 57% de participação, contra 20% do interior paulista e 23% de outros estados. O público masculino contribuiu com 67% (feminino, 33%) e a faixa etária de 20 a 40 anos com 48%, seguida da faixa 40-60, com 37%. Abaixo dos 20 e acima dos 60, 15%. A direção da Cultura está examinando o relatório completo, que entreguei dia 27, o qual aponta críticas, elogios, sugestões, reclamações e pedidos de informação sobre as áreas de programação, jornalismo, marketing, técnica e rádio.’

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‘Protestos contra a passividade’, copyright TV Cultura (www.tvcultura.com.br/ombudsman), 28/6/05.

‘Deixei acumular para ver até onde iam. Pois bem, passados dez dias do Roda Viva com o deputado Roberto Jefferson ainda chegam protestos do público da Cultura contra a passividade da bancada de entrevistadores. O tom geral das críticas é: nota dez para o senso de oportunidade da direção do programa, que acertou ao convidar o principal ator da atual cena política, e nota zero para a escolha dos jornalistas que participaram. Quase todos os telespectadores lembram que o próprio entrevistado chegou a provocar a bancada, cobrando dela mais agressividade. Foi uma pena, uma boa oportunidade perdida. Uma boa idéia mal realizada nunca fica lembrada como uma boa idéia.’

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