Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº930

VOZ DOS OUVIDORES > Folha de São Paulo

Paula Cesarino Costa

01/08/2016 na edição 914
Nova regra na praça pública digital”, copyright Folha de São Paulo, 31/7/2016

Pesquisadores norte-americanos fizeram uma experiência para tentar aferir o efeito do tom dos comentários sobre os leitores de jornais e revistas. Foi apresentado a leitores um artigo sobre nanotecnologia, tópico sobre o qual a maioria das pessoas sabe pouco e não tem prejulgamento, reportou a revista “Science”, em edição de 2013.

Metade dos pesquisados leu o artigo, acompanhado de comentários educados, civilizados e construtivos. Outra metade recebeu o mesmo texto, mas com comentários deseducados, grosseiros e ofensivos, com pontos de vista antagônicos.

Os leitores da segunda versão desenvolveram rapidamente afinidade para se filiarem a um dos lados em discussão. Aderiram com passionalidade a argumentos que leram. Esse comportamento afetou a maneira como compreenderam o texto original, escrito para ser compreensível, equilibrado e confiável.

A conclusão foi que os comentários desagradáveis polarizaram os leitores, levando-os a interpretar equivocadamente o artigo original.

A reação muda nos casos em que o texto trata de temas polêmicos como, por exemplo, as alterações climáticas, sobre os quais os leitores já têm posição preconcebida. O maior ou menor grau de civilidade dos comentários não tem efeito.

A Folha e a maioria dos sites noticiosos adotam medidas para moderar os comentários que publicam. Existem programas de computador que buscam palavras-chaves em comentários, bloqueando-os. Em alguns casos, a varredura eletrônica é acompanhada de análise de editores para filtrar comentários.

A tarefa não é fácil. A Folha recebe, em média, mais de 10 mil comentários por semana. Nos últimos dias, na seção de comentários da editoria Poder, havia aqueles que sugeriam a morte de um líder político e enxovalhavam parentes de outro. Um outro comentador burlou o programa da Folha, acrescentando à sua mensagem sinais gráficos que impediam que o computador reconhecesse que o texto xingava determinada pessoa pública.

Um leitor alertou a ombudsman sobre um que se identificava como “Dom Falafel Atsizan”, ou seja, nazista de trás para frente. A Folha então excluiu-o de suas páginas.

A Folha está mudando a política de comentários no site do jornal. Deixa de aceitar comentaristas anônimos, passa a exigir identificação completa e restringe a seção de comentários a assinantes do jornal.

Leonardo Cruz, secretário-assistente da área digital da Folha, explica que a decisão busca elevar o nível dos debates na seção. “Hoje, por mais que tenhamos filtros automáticos e uma equipe de moderação, uma parte dos leitores consegue burlar as normas e publicar mensagens acusatórias, persecutórias, ameaçadoras, racistas ou discriminatórias.”

Era urgente que o jornal regulasse de modo mais eficaz sua política de comentários. Concordo com o fim das mensagens anônimas e a exigência da identificação dos comentaristas. A restrição dos comentários aos assinantes, no entanto, me pareceu equivocada.

No Painel do Leitor, que sai na página A3 da versão impressa, exige-se apenas o nome completo e a cidade de origem para que se publique a manifestação. Por que, no site, onde é preciso preencher cadastro muito mais completo, informando até o CPF, o leitor não assinante é impedido de comentar os textos?

Questionei a Secretaria de Redação sobre o motivo de política tão restritiva, excluindo até assinantes do portal UOL, que têm acesso livre à versão digital do jornal. A explicação é que a “Folha decidiu prestigiar seus leitores mais fiéis, que ajudam financeiramente a empresa a fazer jornalismo de qualidade”.

Não acho que faça diferença para o assinante ter exclusividade na seção de comentários. Ao contrário, é mais lógico acreditar que aquele que expressa opinião espera ser lido por um número maior de pessoas.

Dar voz a perfis mais variados e ampliar o leque de comentários civilizados para além dos assinantes enriquece as páginas da Folha. Em última instância, essa abertura pode até atrair novos assinantes.

O “New York Times” publica ranking com os dez melhores comentários da semana, levando em conta critérios como popularidade, recomendações recebidas e a importância do texto comentado.

É um bom caminho. Tratar os comentários dos leitores com regras editoriais traçadas por seu quadro de jornalistas, permitindo valorizar e destacar aqueles de melhor qualidade. Deixando na lixeira eletrônica aqueles que fazem da seção um constrangedor momento de telecatch.

Os leitores que quiserem podem comentar este artigo livremente neste domingo. As novas regras só começam a valer a partir da segunda-feira, dia 1° de agosto.

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