Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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VOZ DOS OUVIDORES >

Paula Cesarino Costa

Por Carlos Castilho em 16/05/2016 na edição 903

Às 6h34 da quinta-feira (12), o Senado aprovou o início do processo de impeachment, afastando Dilma Rousseff da Presidência da República. Naquela manhã, o leitor da Folha que recorreu ao jornal na busca de conexões, análises, entrevistas ou textos de profundidade para ajudá-lo a entender o Brasil que despontava ali, decepcionou-se.

Privado da notícia mais importante do dia pelo horário do ocorrido, alguns devem ter ligado a TV, outros imergiram na internet em busca dos últimos acontecimentos.

Em 29 de setembro de 1992, na votação da abertura do processo de impeachment do presidente Fernando Collor, o horário da notícia tinha sido mais favorável aos jornais. Às 18h50, a Câmara alcançou os votos necessários para dar início ao processo. Ágil, a Folha fez circular nas ruas na mesma noite edição extra, com a palavra “IMPEACHMENT!” estampada em letras garrafais.

A tramitação naquela vez foi acelerada. Dois dias depois da Câmara, o Senado aprovou a abertura do processo, afastando Collor e dando posse ao vice Itamar Franco.

Em 30 de setembro, o jornal dedicou 29 páginas, divididas em três cadernos, à cobertura. Dois cadernos traziam o noticiário factual do dia anterior e jogavam luz no que viria a ser o novo governo. O especial “Fim” narrava o ocaso da chamada Era Collor. Uma edição histórica.

Quase 24 anos depois, o mundo e o país mudaram. A era da informação eletrônica instantânea se concretizou.

Em 18 de abril de 2016, a edição da Folha buscara repetir o desenho da capa de 1992, grafando “IMPEACHMENT!” também em letras enormes. O texto da manchete já trazia até um rápido perfil de Michel Temer –só que ele permaneceria vice ainda por mais 26 dias.

Em 12 de maio, quando o Senado de fato afastou Dilma Rousseff do poder, a Folha optou por uma edição tímida, com cara de passado, em vez de apontar para o futuro.

No dia seguinte, tentou se recuperar e ofereceu ao leitor caderno especial de 14 páginas, que procurou desvendar os 13 anos de governos petistas que se encerravam e projetou discussões relevantes e bem acabadas sobre o que virá. Já a manchete centrou-se exclusivamente no discurso de Temer. Ignorou o afastamento da presidente, citado no texto, mas não nas duas linhas do enunciado.

Na série de páginas históricas, não haverá manchete contemplando a saída do poder de Dilma. Esse registro não é relíquia para colecionador. Faz parte do compromisso com a história que o jornalismo deve ter.

A Folha poderia ter elaborado uma edição extra? Em tese, sim. Há muitos detalhes a discutir sobre o sentido de edições extras em tempos de informação eletrônica instantânea. Na discussão jornalística estrita, o jornal não encontrou solução que demonstrasse agilidade, compromisso com o leitor e perspicácia perante a história.

O editor-executivo da Folha, Sérgio Dávila, diz que foram discutidas diversas possibilidades e optou-se pela mais segura: fechar com o que era notícia às 2h, “com menor chance de publicar informações incorretas”. Ele avalia que o jornal trouxe o tempo todo uma cobertura completa na versão digital, à qual somente os assinantes têm acesso.

Os outros dois principais jornais de circulação nacional tomaram caminhos diferentes. “O Globo” entregou o jornal aos assinantes por volta de 13h, com manchete para o afastamento de Dilma e as futuras reformas de Temer. Manteve o acesso da edição na internet livre de restrições. “O Estado de S. Paulo”, em decisão mais arriscada e menos adequada, concluiu a edição tomando a votação como fato consumado meia dúzia de horas antes de que se concretizasse. Nos dois casos, a cobertura tinha cerca de 40 páginas.

Surge daí outra questão: quem terá conseguido ler tantas páginas? Quantas valiam o tempo do leitor?

A edição da Folha de sexta, 13, trouxe duas páginas sobre o ministério de Temer, com o deslize de repetir a foto de seis ministros. Com tanto espaço, não traduzia ao leitor os ungidos ao poder: esse governo dava uma guinada conservadora? O colunista Bernardo Mello Franco e reportagem do “The New York Times” recolheram exemplos factuais para dizer que sim.

O tempo médio dedicado à leitura de jornais é calculado entre 30 e 40 minutos. Está na qualidade da notícia o trunfo que pode prender o leitor. Cada vez mais é preciso ser seletivo, evitar desperdício de espaço e papel, o que significa tempo perdido. Contra a prolixidade da televisão e da internet, cabe ao jornal ser o curador do leitor para indicar em que deve investir o seu tempo e por quê.

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