Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > RADIOBRÁS

Paulo Machado

13/11/2007 na edição 459

‘O governo deve investir mais em prevenção ou no tratamento de uma doença? Em se tratando de saúde pública, aparentemente essa pergunta tem uma resposta óbvia: em prevenção. E o jornalismo? Ele deve conseguir prever o que poderá acontecer ou simplesmente deve se restringir em reportar o que aconteceu?

A Agência Brasil vem noticiando há 30 dias a ocorrência de um aumento de casos de dengue considerados, segundo o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, uma epidemia, conforme a matéria: ‘Politicamente’, país vive epidemia de dengue, afirma ministro da Saúde, publicada em 17 de outubro. O emprego do termo ‘politicamente’ não foi explicado no texto.

Mais um complicador adicionou-se à esse quadro sanitário. Um novo tipo de vírus entrará no país nos próximos meses: o tipo 4. A Agência tratou do assunto em duas matérias: Chegada de dengue tipo 4 no Brasil é questão de tempo, diz ministro e Dengue tipo 4 não é motivo de alarde, diz epidemiologista, publicadas em 22 de outubro.

Protestando contra informações e opiniões constantes nessas duas matérias, o leitor Rômulo Sabóia, que se identificou como médico infectologista, mestre em Medicina Tropical, disse que a epidemia de dengue tipo 4 será explosiva, com alta letalidade em todo o Brasil, e que ela é perfeitamente previsível e evitável.

Como justificativa de sua posição, o médico argumenta: ‘A introdução do vírus da dengue tipo 4 é inevitável, ocorrerá em breve e será seguida de uma epidemia explosiva de dengue com alta letalidade por dengue hemorrágica. Isso acontece sempre que um novo tipo de vírus da dengue é introduzido numa região ou país. Aconteceu no Brasil com a introdução do vírus tipo 2 em 1990, e se repetiu quando chegou o vírus tipo 3 em 2000. À medida que o novo vírus se dissemina pelo país, ocorrem exacerbações das epidemias anuais e aumento das mortes. Isso também vai ocorrer com o vírus tipo 4 quando chegar’.

O leitor continua o raciocínio: ‘Isso é motivo de alarde, sim, porque muitas pessoas vão morrer desnecessariamente – 99% das mortes por dengue hemorrágico se devem a falha médica na condução do caso. Essas mortes poderiam perfeitamente ser evitadas, com a capacitação da classe médica no manejo clínico da dengue clássica e hemorrágica. Como o número de mortes vai aumentar com a introdução no novo vírus, as ações de controle e de capacitação dos profissionais de saúde devem ser intensificadas antes que aconteça, o que é totalmente previsível’.

Esta Ouvidoria repassou a mensagem do leitor para a redação da Agência Brasil, uma vez que as fontes ouvidas nas duas matérias citadas consideravam que a futura epidemia ‘não deve ser motivo de alarde’, e sim apenas ‘um complicador a mais’. Embora o ministro da Saúde tenha afirmado na matéria que a dengue tipo 4 iria chegar, a reportagem não perguntou a ele o que está sendo feito, além das campanhas publicitárias, para prevenir a doença existente e a que se anuncia. Há algum plano para intensificar as ‘ações de controle e de capacitação dos profissionais de saúde’, como sugere o leitor?

Foram publicadas ao todo 15 matérias sobre o assunto desde 15 de outubro. Na matéria Governo lança campanha de prevenção à dengue e ministro pede apoio da população, publicada em 16 outubro, a dificuldade em trabalhar com números, já citada em colunas anteriores, reaparece quando a reportagem fala em 121 mil mortes este ano decorrentes da epidemia.

Alertada pela Ouvidoria, a redação corrigiu o erro. Mas faltam explicações para as 121 mortes. Elas devem ser debitadas à política de prevenção à doença ou à sua ausência? Porque os diagnósticos continuam sendo precários, conforme consta na notícia: Pesquisa no Centro-Oeste monitora impacto do agrotóxico no meio ambiente e na saúde, publicada em 3 de novembro? Por que as matérias não explicam quais as causas políticas dessas mortes?

Para o ministro essas mortes são ‘inadmissíveis’, conforme declarações que constam na matéria Estados se unem para combater a dengue. Ele explica: ‘Ou faltou a urgência em procurar o profissional de saúde ou falhou o diagnóstico’. Mortes por causas não naturais são sempre inadmissíveis, o que faltou foi a Agência explicar por que elas não devem ser admitidas. O que falhou? A comunicação do Estado, que não informou ao cidadão que ele corria risco de morte ou competência dos médicos em diagnosticar a doença? A dengue não é uma causa natural de morte – ela é previsível e evitável.

Continuando, a matéria informa que o ministério está enviando a ‘todos os 300 mil médicos brasileiros CD-ROMs com informações sobre a doença’, e uma campanha publicitária foi lançada convocando a todos para se unirem no combate à dengue. Talvez essas medidas evitem outras mortes no futuro, mas as do passado continuarão sem explicação.

No caso da epidemia que poderá ser causada pelo vírus tipo 4, o próprio leitor informa que o processo histórico da dengue no país registra dados sobre o impacto da entrada anterior de outros tipos de vírus da dengue e da mortandade que causam devido à falta de preparo dos médicos em diagnosticar a doença. Não seria o caso de a Agência apurar esses números e montar um gráfico informativo (infográfico) confirmando ou não a correlação?

No jornalismo, bem como na saúde pública, os fatos não acontecem magicamente, do dia para a noite. Analisando os processos históricos é possível prever quais serão as possíveis ocorrências futuras, ainda mais nesse caso em que o próprio ministro da Saúde já afirmou: ‘É só uma questão de tempo’.

Outra informação que seria importante para os leitores da Agência entenderem como ocorre uma epidemia diz respeito à distribuição geográfica da ocorrência do vírus. Essa informação associada à outra que trata de como a doença vem sendo combatida mundo afora poderia ter sido fornecida pela Agência se ela tivesse feito a cobertura do seminário internacional ocorrido em outubro em Belo Horizonte. Na matéria Belo Horizonte sedia seminário internacional sobre prevenção e controle da dengue, publicada no dia 15 daquele mês, a ocorrência do evento é apenas anunciada.

Dentre as 15 matérias publicadas, duas tratam de ações preventivas do governo, que pretende começar a produzir uma vacina daqui a quatro anos. Uma matéria informa sobre a página eletrônica do ministério da Saúde, colocada no ar no dia 17 de outubro, na qual aqueles que têm acesso à internet podem obter mais informações sobre sintomas e formas de prevenção e tratamento. A matéria: Dúvidas sobre dengue podem ser esclarecidas pela internet, publicada em 18 de outubro, diz que os professores podem baixar cartilhas para trabalhar o assunto com seus alunos.

A redação da Agência Brasil, estimulada pela mensagem do leitor, vai aprofundar a apuração, ouvir outras fontes especializadas no assunto e proporcionar ao leitor informações para que ele entenda a real dimensão do problema e o que está sendo feito para solucioná-lo. A dengue está presente entre os brasileiros há décadas e, pelo visto, continuará, podendo inclusive se agravar. Não dá mais para, reativamente, esperar que se declarem estados epidêmicos para simplesmente transformá-los em notícia. Ela demanda um acompanhamento ativo, permanente e planejado por parte do jornalismo de uma empresa pública de comunicação. O Estado é apenas um dos protagonistas, a sociedade civil e o cidadão também têm suas responsabilidades e direitos a serem discutidos, por isso precisam ser mais ouvidos.

Até a próxima semana.’

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