Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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VOZ DOS OUVIDORES >

Paulo Machado

19/05/2009 na edição 538

‘A leitora Carina M. R. T. depois de ler a matéria Com crise, quadro de melhorias sociais começa a ser revertido, diz FGV, publicada dia 8 de abril, escreveu para esta Ouvidoria dizendo-se interessada em saber como as diferentes classes sociais são afetadas pela crise financeira.

Segundo a notícia, os integrantes das classes A, B e C, distinguidas por seus respectivos níveis de renda, ‘foram os que sofreram de forma mais intensa os efeitos do agravamento da crise financeira internacional’, de acordo com um estudo da Fundação Getúlio Vargas.

Na matéria, o economista responsável pela pesquisa relata o movimento das pessoas entrando e saindo das diferentes classes sociais em um exercício de abstração que dificilmente permite ao leitor chegar a alguma conclusão. Daí a pergunta da leitora.

Para tentar ajudá-la, recomendamos a leitura da Cobertura Temática ‘Crise: o que fazer’ que pode ser acessada através de um selinho na página principal da Agência Brasil. São 27 matérias nas quais a reportagem percorreu algumas cidades-polo de desenvolvimento em quatro regiões do país. Um esforço para mostrar como a crise está atingindo diferentes setores da economia em diferentes localidades. Mas a leitora não encontrará nas matérias um corte por classe social e sim por lugar, ocupação e ramo de atividade.

Costurando e dando um sentido menos local e mais amplo às informações das outras 26 notícias da Cobertura, aparece uma entrevista com João Pedro Stédile, líder do MST. É uma abordagem interessante por ser diferenciada de tudo o que acostumamos a ver em termos de análises macroeconômicas da crise. É a visão daqueles que sofrem os seus efeitos por tabela, indiretamente. Na matéria Stedile diz que governo tem medo de entrar de cabeça no debate sobre crise, o líder dos Sem Terra discute as causas e os efeitos da crise, não só para os trabalhadores rurais, mas também para a população de um modo geral e para a economia do país.

Apesar da importância e da representatividade da opinião do líder camponês, na série de matérias faltou pelo menos um contraponto. Alguém que contestasse o pensamento de Stédile, como tantos que apareceram durante os últimos 20 anos nas primeiras páginas e nas colunas de opinião dos jornais defendendo a política econômica formulada pelo pensamento neoliberal que nos levou justamente à crise da qual estamos falando.

Faltou ainda à Agência incluir sob mesmo selo da Cobertura Temática outras duas entrevistas que contextualizam o assunto e conseguem inserir os fatos no processo histórico do sistema capitalista, apontando inclusive as possíveis perspectivas para o momento seguinte, o ‘depois da crise’. São as entrevistas com Paul Singer Economia solidária pode ser a saída para a crise, afirma Paul Singer, publicada dia 20 de abril e com Ricardo Antunes Crise atual pode ser mais intensa do que a de 1929, diz sociólogo, publicada em 25 de abril.

Para a mídia em geral, incluindo-se aí a Agência Brasil, a crise ainda é uma batata quente que ninguém sabe exatamente como segurar. Talvez a dificuldade do jornalismo resida no fato de por anos a fio não ter pensado criticamente sobre esses assuntos uma vez que o mercado pregava que em matéria de economia havíamos chegado ao fim da história – o neoliberalismo sempre tirava da cartola uma solução mágica para tudo, sem maiores questionamentos por parte da imprensa. Uma das raras exceções era o jornalismo praticado por Aloísio Biondi(*) em artigos que apontavam as inconsistências e demonstravam as contradições da política econômica. Mas quando a classe dominante consegue impor um pensamento hegemônico à sociedade toda crítica a ele é ignorada pelo poder e pela mídia. Aplaca-se a diversidade, elimina-se o contraditório. Deu no que deu…

Peço desculpas aos leitores pelo atraso na publicação desta coluna devido a motivos alheios à nossa vontade. Na próxima semana voltaremos ao horário normal de publicação. Até lá.

(*) ver o pensamento crítico de Aloísio Biondi em http://www.aloysiobiondi.com.br/spip.php?article908′

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