Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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VOZ DOS OUVIDORES >

Paulo Machado

14/07/2009 na edição 546

‘A percepção de omissões na matéria publicada pela Agência Brasil no 24/06/09, sob o título Salário médio pago no comércio caiu 14% entre 2003 e 2007, levou o leitor Fabio Pereira a reclamar: ‘ Matéria muito mal editada, especialmente, mas não apenas, o título. O próprio texto mostra que não houve redução do valor real dos salários, mas sim crescimento. O crescimento foi menor que o crescimento do salário mínimo, que teve ganhos reais no período. É o mesmo que ocorre com as aposentadorias acima de um salário mínimo e, provavelmente, com todos os salários pagos no país.’

A Agência Brasil respondeu:’A informação de queda do salário médio está no próprio comunicado do IBGE: ‘…houve redução nos salários médios pagos pelo comércio como um todo, de 2,1 salários mínimos, em 2003, para 1,8 salário mínimo em 2007’.’

Quando se pensa nas competências que caracterizam o jornalismo, a habilidade na escolha dos títulos e o discernimento na formulação das perguntas que são dirigidas às fontes são fundamentais.

A queda apontada no título se refere à constatação da Pesquisa Anual do Comércio de 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), citada no primeiro parágrafo da referida matéria. Entre a reclamação do leitor e a resposta da Agência surge a dúvida: afinal houve ou não uma redução no salário pago aos trabalhadores no comércio entre 2003 e 2007?

A resposta é: as duas opções são verdadeiras. O texto da matéria fornece em parte uma explicação. Segundo a gerente da pesquisa: ‘O salário mínimo cresceu mais do que a inflação, então, quando você transforma o salário [normalmente reajustado de acordo com o índice de inflação] em salário mínimo, você tem uma queda. Mas quando você pega a massa salarial em reais, não percebe mais essa queda’, ou seja, tudo depende do quadro de referencias.

Trata-se de duas unidades de medida diferentes: uma é o salário médio, medido em reais, e a outra é o salário médio, medido em salários mínimos. Se lermos a informação fornecida pela pesquisa (em salários mínimos) temos que o salário dos comerciários diminuiu uma vez que passou de 2,1 para 1,8, conforme o resumo do Instituto e a matéria da Agência. Mas se lermos a informação com base no salário médio medido em reais, ele aumentou e não é essa a informação passada no título da notícia. Daí decorre e se justifica a mensagem do leitor.

Uma vez alguém disse que o título da matéria é a janela para o assunto. A partir dele o leitor decide se lerá ou não o corpo da matéria. Portanto colocar a manchete é uma escolha muito importante e precisa corresponder exatamente ao conteúdo para que, eventualmente, o leitor não se sinta enganado. É por meio dessa escolha também que se pode ressaltar os aspectos positivos ou negativos de um fato, no caso, os resultados da pesquisa, sendo essa uma decisão editorial e, portanto, imbuída de valores.

Os motivos que levaram à insatisfação do leitor persistem à medida que se aprofunda a apuração do assunto. Em primeiro lugar, a ‘massa salarial em reais’, citada na matéria, não é a mesma coisa que o valor real do salário médio, que teria de levar em conta a inflação que houve durante o período. Neste aspecto, ao contrário da afirmação do leitor, a notícia não mostra se houve ou não crescimento dos salários médios pagos. Para chegar a esta conclusão é preciso consultar o relatório da pesquisa e fazer alguns cálculos que permitem constatar que houve um crescimento real, com um aumento nominal acumulado de 42,3%, passando de R$ 6,185 ao ano, em 2003, para R$ 8.803 em 2007, com uma taxa acumulada de inflação, medida pelo INPC, de 33,1% no mesmo período – portanto, menor do que o reajuste nominal acumulado do salário mínimo que foi de 61,7%. Se o título da notícia tivesse sido: ‘Salário médio pago no comércio aumentou 42,3% entre 2003 e 2007’ ele também corresponderia à verdade dos números da pesquisa.

No entanto, o título da matéria publicada privilegia o aspecto de queda. Isto certamente é o que chama a atenção do leitor. A explicação e as implicações da queda resumem-se a seu significado como resultado do tipo do procedimento estatístico adotado na pesquisa e ao fato de que houve um crescimento do salário mínimo num ritmo maior do que o da inflação durante o período. Mas essas informações não contribuem para a compreensão das ‘características estruturais básicas do comercio no país e suas transformações no tempo’, principal objetivo da pesquisa, segundo o IBGE.

Aí entra o outro aspecto que devemos observar: as perguntas que são dirigidas às fontes pela reportagem. Em uma matéria sobre um relatório baseado em dados estatísticos deve-se considerar como fontes não apenas as pessoas responsáveis pela pesquisa mas a pesquisa em si. Para ler e entender uma pesquisa como essa se faz necessário um certo conhecimento básico de estatística. Trata-se de uma controvérsia sobre até onde vai a responsabilidade do jornalista. Até onde ele deve ser cobrado quanto à exatidão das informações quando necessita de conhecimentos que são normalmente identificados como próprios de outras áreas?

Há muitos que defendem uma especialização cada vez maior em assuntos específicos ou em certas áreas do conhecimento – é a chamada setorização do jornalismo. Outros apregoam que o jornalista deve ter um conhecimento universal, aprofundando-se apenas naquilo que necessitar.

Se a Agência Brasil tivesse aprofundado a apuração na preparação da matéria, poderia ter informado que o salário pago aos comerciários já vinha caindo em relação ao valor do salário mínimo, mesmo antes da política adotada pelo atual governo de conceder reajustes superiores à taxa de inflação, portanto, a queda verificada tem significados que vão além da explicação pontual oferecida pelo IBGE. Mas esse é um aspecto que não foi salientado pelos autores da pesquisa e tampouco pela reportagem.

Em vez disso, tudo indica que a matéria foi preparada – e o título escolhido –a partir do resumo dos resultados feito pela divisão de Comunicação Social do IBGE . Ou seja, a matéria é um resumo de um resumo.

Uma consulta às Pesquisas Anuais de Comércio para os anos anteriores – a pesquisa começou em 1988, revela que em 1996, base de comparação utilizada na Pesquisa de 2003, o salário médio pago aos comerciários equivalia 2,9 salários mínimos. Portanto, a queda entre 1996 e 2003 foi de 2,9 para 2,1 salários mínimos – ocorreu num ritmo anual maior do que no período de 2003 a 2007, quando ele caiu de 2,1 para 1,8 salários mínimos. Ao chamar atenção para um fenômeno que possivelmente reflita as transformações que vêm ocorrendo há mais de uma década na estrutura do emprego no comércio, a escolha do título da matéria estava certa, embora não pelas razões pontuais apresentadas no texto.

Quanto aos fatores que contribuíram para a queda, a matéria se limita à explicação estatística. No entanto, a leitura do relatório da pesquisa teria fornecido algumas pistas sobre essa tendência que reflete variações na qualidade do emprego.

Segundo o relatório do IBGE: ‘Nas atividades com remunerações mais altas – caso do comércio por atacado – a queda do salário médio em salários mínimos foi mais significativa. Nesse aspecto, é importante considerar que, ao passo que o salário mínimo costuma afetar diretamente os menores salários do mercado, as maiores remunerações, em geral, não mostram esse mesmo vínculo. A partir de 2003, a política de valorização do salário mínimo federal, com reajustes anuais acima da inflação, provocou um crescimento dos rendimentos da base da população ocupada no mercado de trabalho formal. Enquantoos salários que tradicionalmente aproximavam-se do mínimo e que o tinham como referência (como os pagos na maioria das atividades do comércio varejista) seguiram próximos desse patamar, enquanto que os salários mais altos, quando mensurados em salários mínimos, tornaram-se relativamente menores’.

Na análise das causas da queda dos salários médios pagos, a adoção de novas tecnologias pelas empresas comerciais pode estar causando transformações na estrutura do emprego no setor onde a maioria dos novos postos de trabalho corresponde a funções onde a remuneração é menor. O aumento da concorrência entre as empresas e a regularização daquelas que operavam na informalidade pode estar influenciando na qualidade do emprego, mas os dados estatísticos fornecidos, isoladamente, não respondem a essas questões que surgem de uma reflexão a partir da pesquisa e sugerem que perguntas poderiam ser feitas na apuração do assunto. Para chegar a este ponto, porém, a tarefa do jornalista tem que ir além do que informou o resumo do IBGE.

Até a próxima semana.

Com a colaboração de David Arthur Selberstein’

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