Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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VOZ DOS OUVIDORES >

Paulo Machado

14/04/2009 na edição 533

‘Brasília – No ultimo domingo os bondes de Santa Teresa voltaram às páginas da Agência Brasil em três matérias com a opinião de usuários: moradores e turistas, de técnicos do patrimônio histórico e de mecânicos do sistema. O assunto, trazido à Ouvidoria por mensagem da leitora e jornalista Juçara Braga, vice-presidente da Associação de Moradores de Santa Teresa (Amast), foi um dos temas da coluna Assuntos locais e pautas nacionais, publicada em 19 de março.

Naquela oportunidade, defendemos que, mesmo em uma pauta que trate de um assunto local, os leitores esperam que a ABr consiga mostrar um olhar diferenciado, evitando as obviedades comumente apresentadas pela mídia comercial, conseguindo ir além dos fatos, mostrando por que eles aconteceram, suas origens, por que ocorreram de uma determinada maneira e não de outra, os processos históricos em curso e suas possíveis conseqüências, quem ainda não foi ouvido e precisa ser, para que se estabeleça o debate democrático no espaço público de comunicação.

Nas duas matérias publicadas em março a reportagem não havia conseguido diferenciar a abordagem sobre o assunto, noticiando a possível privatização do sistema secular de bondes como um destino praticamente inevitável, uma vez que as autoridades já assim haviam decidido e, de certa maneira, induzindo os leitores a concordar passivamente com o desfecho do caso.

Indignada, Jussara, uma das poucas fontes ouvidas naquelas matérias, protestou, dizendo que turistas e moradores não estavam em lados opostos disputando espaço nos tradicionais bondinhos, mas, sim, que tinham que repartir o pouco espaço disponível nas únicas três composições que ainda funcionavam porque o governo havia sucateado o sistema visando a sua privatização.

Apesar de considerar ‘improcedente os questionamentos feitos pela leitora’ a Agência Brasil voltou ao assunto e aprofundou a questão. O resultado pode ser observado pelos leitores nas matérias Privatização de bondinhos divide opiniões em Santa Teresa, Governo quer privatizar bondes com modelo ‘Frankenstein’, dizem moradores de Santa Teresa e Santa Teresa deve receber neste mês mais um bondinho restaurado.

Agindo desta maneira, a ABr dá uma demonstração de como a mídia pode ser útil ao cidadão ao se constituir em um fórum de discussão e argumentação públicos, em que a cidadania encontra espaço para apresentar seus interesses e seus pontos de vista e reunir informações para deliberar soberanamente.

Nas matérias, o leitor poderá sentir a força de um jornalismo a serviço da cidadania. Entendemos ser esta a função social da mídia de que tanto temos falado em nossas colunas, e nada como exemplos práticos como esse para mostrar o verdadeiro sentido de um jornalismo focado em interesses públicos e republicanos.

O debate sobre o destino dos bondinhos históricos ganha dimensão nacional quando se revelam as questões humanas, sociais e culturais que permeiam a instituição. Instituição sim, pois eles adquiriram o direito de serem tratados como patrimônio vivo da memória de uma comunidade que luta para preservar sua identidade a despeito do que dizem as planilhas dos burocratas.

O jornalismo, ao conseguir reunir em um espaço público os diversos interesses envolvidos na questão, fornece informações para que se aprofunde o debate trazendo à tona significados e valores, inclusive imateriais, muito além de argumentos técnicos, econômicos e financeiros dos que vêem ali um simples ‘sistema urbano de transporte com tarifas subsidiadas’.

Aparecem as contradições, aponta-se as inconsistências inclusive de outros modelos de transporte, revelam-se as posições políticas e ideológicas de autoridades e moradores, e, na vivência desse processo democrático, todos ganham independentemente de quais sejam as soluções a que chegarem. Ao jornalismo, como instrumento a serviço do cidadão e da construção da democracia resta o dever cumprido, à agência pública, a lição da importância de ouvir sempre e dar voz aos que não têm o poder formal, e, a esta Ouvidoria, a certeza de que prevaleceu o direito à qualidade da informação.

Até a próxima semana.’

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