Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

VOZ DOS OUVIDORES > AGÊNCIA BRASIL

Paulo Machado

01/12/2009 na edição 566

‘Uma polêmica entre uma leitora e a Agência Brasil sobre a classificação do Brasil no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), faz pensar sobre dois problemas que afetam o jornalismo nos dias de hoje: a precisão na divulgação de números e a sua decodificação pelo leitor.

Segundo apontou a autora da demanda, Gabriela Campos: ‘Há um erro na matéria ‘Brasil melhora índices, mas continua no 70º lugar em desenvolvimento humano’. No ranking do IDH 2005, o Brasil ficou em 70º se levado em conta a metodologia antiga desse ranking, portanto, não pode ser adequadamente comparado com o atual (2006). O Pnud, porém, recalculou os números de 2005 com base na nova metodologia (tabela Trends em http://hdr.undp.org/en/media/HDI2008Tables.xls). Se rankeados, esses números de 2005 indicam que o Brasil, de acordo com a nova metodologia, estava em 71º no ano passado. Logo, usando metodologia comparável, o Brasil melhorou uma posição: subiu de 71º para 70º entre 2005 e 2006.’

A Agência Brasil respondeu: ‘a matéria teve como base de dados o relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o que foi publicado constava no relatório’.

A que a leitora contestou: ‘Desafio a equipe da Agência Brasil a achar, em qualquer dos links, textos e tabelas do material, as informações que contestei. Levar seis meses para corrigir um erro já seria uma lástima; para insistir no erro, é uma tragédia.’

E a Agência respondeu: ‘Sempre há disposição da Agência Brasil em corrigir eventuais erros de informação. Vamos checar os dados novamente e verificar os dados.’

A precisão das informações é um problema quando se trata de índices, estatísticas e números. A assessoria técnica da Ouvidoria analisou os relatórios do Pnud e as metodologias de cálculo. O próprio Pnud adverte ‘as análises de tendências do IDH não devem basear-se em dados de edições diferentes do Relatório’, no entanto, não seria exatamente isso que a matéria fez ao comparar a posição do Brasil em dois momentos distintos sem levar em conta as diferenças de metodologia dos cálculos? Apesar da Agência afirmar que ‘há disposição em corrigir eventuais erros’, o tempo decorrido desde a apresentação da demanda pela leitora (18 de dezembro de 2008) demonstra o contrário, daí a razão de sua insatisfação.

O outro problema, decorrente da divulgação de pesquisas e estatísticas pela imprensa, está na decodificação dos números pelo leitor – se ele não entende o que os números significam, a comunicação não cumpre sua função. Diariamente o leitor é bombardeado com a divulgação de resultados que, transformados em manchetes, veiculam interpretações impregnadas de posições políticas, e portanto editoriais, de veículos de comunicação, em vez de ser um espelho de um determinado aspecto da realidade investigada. A forma de divulgação dos resultados de cada nova pesquisa vem sempre acompanhada de um novo julgamento de valor sobre os administradores, autoridades em geral e políticos. Na sociedade midiática moderna os indicadores passaram a compor a imagem da personalidade em questão – eles tanto podem ajudar a construi-la quanto a destrui-la. Isso tem levado muitos gestores a trabalhar muito mais em função do que diz a interpretação desses indicadores pela mídia do que em função da opinião dos reais beneficiários das políticas públicas que administram.

Feita essa ressalva, precisamos perguntar o que efetivamente é medido pelo IDH do Pnud? Se tomarmos por base os principais fatores que integram o índice veremos que ele reflete muito pouco daquilo que se propõe a medir. Para que serve, por exemplo, a renda per-capta obtida pela simples divisão do valor do PIB pelo número de habitantes quando se tem elevados índices de concentração de renda? Ou para que serve o número de alunos matriculados nas escolas quando considerados isoladamente das taxas de evasão e da qualidade do ensino oferecido? Ou ainda a taxa de alfabetização de adultos quando as pesquisas revelam que a maioria da população escolarizada é analfabeta funcional?

A divulgação pela imprensa de rankings como esse, para ter algum valor informacional, precisa ser acompanhada da devida contextualização, tanto sobre a metodologia dos cálculos quanto de sua eficiência em medir alguma coisa. Mas isso requer da imprensa uma análise detalhada e aprofundada, não só dos cálculos, mas também da maneira como os dados foram coletados, o que geralmente não ocorre. Os institutos de pesquisa sabendo disso, preparam por meio de suas assessorias de imprensa releases, resumos onde fornecem o prato feito com as conclusões a que chegaram, dispensando assim a análise de dezenas, centenas e as vezes, de milhares de tabelas.

O IDH é um indicador que pode fazer algum sentido quando comparado com outros como, por exemplo, a situação do Brasil enquanto potência econômica mundial. Como explicar que a oitava economia do mundo é a 70ª em desenvolvimento humano ou uma das últimas classificadas no ranking de distribuição de renda? O próprio conceito de desenvolvimento humano com que trabalha a pesquisa é bastante polêmico uma vez que não inclui fatores que meçam a sustentabilidade desse desenvolvimento.

Talvez para explicar isso as palavras falem mais do que cifras ou indicadores. Por que o valor do indicador é esse e não aquele é uma tarefa muito mais difícil de apurar do que simplesmente relatar quanto foi apurado. O significado das estatísticas muitas vezes é totalmente incompreensível para os leitores, carecendo de tradução para ser entendido. A sua interpretação é um mistério técnico-burocrático, restando ao leitor acreditar naquilo que lhe dizem que significa – torna-se uma questão de fé. Mesmo decodificados, os números nunca passam de uma interpretação da realidade condicionada pela forma como foram obtidos e pela abordagem politico-ideológica de quem os interpretou – não são a realidade em si e dificilmente a explicam. Por isso, matérias cheias de números geralmente vêm acompanhadas da opinião de algum técnico que os traduziu para os jornalistas e que, consequentemente, é transferida para os leitores de maneira acrítica.

Quando o jornalismo produz o cruzamento dos números originados em diferentes fontes e por diferentes metodologias geralmente ele consegue revelar aspectos da realidade imprevistos até então. É aí que ele deixa de ser o jornalismo de números e passa a ser verdadeiramente jornalismo.

Até a próxima semana.’

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