Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > AGÊNCIA BRASIL

Paulo Machado

30/03/2010 na edição 583

‘O leitor Arthur Monteiro leu a notícia Entidade de defesa do consumidor calcula que Rio tenha 7 mil beneficiários de correção de perdas do FGTS, publicada dia 15 de março na Agência Brasil. Imprimiu-a, colocou-a debaixo do braço e se dirigiu a uma agência da Caixa Econômica Federal – CEF, cheio de esperanças.

Voltou horas depois decepcionado e escreveu para esta Ouvidoria: ‘Caros amigos. Com essa matéria em punho dizendo que ‘tem direito à reposição quem trabalhou com carteira assinada de 1967 a 1971, quando o FGTS não era extensivo a todos os trabalhadores obrigatoriamente. Estão nessa situação os trabalhadores que eram optantes do fundo à época e aqueles que, por força de lei, puderam fazer a opção retroativa anos depois, na Justiça do Trabalho’ me enquadrei como beneficiário, pois trabalhei com carteira assinada de 1967 a 1971. Mas fui mandado de volta, pois a exigência era outra. Ou a Caixa não está bem informada ou a Agencia Brasil informou errado. Segundo uma funcionaria da Caixa, agência Conjunto Nacional, em Brasília, centenas de pessoas comparecem em situação análoga à minha e igualmente foram despachados de volta. Muita gente cheia de esperança, fez planos…’.

A Agência Brasil respondeu à demanda do leitor pedindo seu contato para tentar esclarecer o ocorrido. Arthur, provavelmente, de tão decepcionado, não se manifestou mais.

Ao contrário do que ele suspeitou, a ABr não informou errado, mas informou mal. Notícias como essa, chamadas pelos jornalistas de ‘matérias de serviço’, têm a função de prestar um serviço ao cidadão, mas dependendo da maneira como são escritas e editadas, acabam por prestar um desserviço, criando falsas expectativas, resultando em frustrações, perda de tempo e consequente descrédito no veículo que as publicou.

Havia pouco mais de um mês, a ABr publicara outra matéria anunciando a decisão tomada pela CEF: Caixa recebe habilitação aos créditos adicionais de optantes do FGTS anteriores a 1971. Em ambas as notícias, não fica claro para o leitor quem tem direito a o quê. Medidas administrativas, redigidas em linguagem burocrática, precisam ser devidamente traduzidas para se fazerem entender por quem não é do ramo cartorial.

A ênfase na questão de ‘ser trabalhador com carteira assinada entre 1967 e 1971’ fez com que milhares de trabalhadores se identificassem apenas com esse quesito e procedessem como o Arthur Monteiro. Ao redigir a informação, a outra condição: ‘ de ter optado retroativamente pelo FGTS, ou recorrido à Justiça para obter o direito à correção progressiva do valor depositado’, ficou em segundo plano. O resultado, como se verificou, foi desastroso para todos.

Conforme falamos em outras colunas aqui neste espaço do Ouvidor, isso é o que acontece sempre que se procura resumir o que já é um resumo (release) apresentado por assessorias de imprensa. Tenta-se encurtar o caminho, desprezando-se ou não dando o devido destaque a detalhes, muitas vezes decisivos, como neste caso, em vez de ‘destrinchar’ a informação, analisando e ajudando a compreender as regras e os procedimentos necessários para se beneficiar de medidas que versam sobre assuntos complexos.

Para tanto, é necessário que o repórter e o editor leiam e entendam o que está sendo anunciado antes de informar aos leitores, sabendo que, se eles próprios não conseguirem entender, tampouco o leitor compreenderá. Muitas vezes é necessário recorrer a especialistas, ilustrar a matéria com exemplos, fotos, gráficos e outros recursos disponíveis na web para que não restem dúvidas. Informar é antes de tudo uma arte que exige técnica, talento, precisão e boa vontade. Esta é a função do jornalismo.

O Correio Brazilense, por exemplo, publicou uma matéria adicional intitulada ‘Saiba mais… Requisitos para receber a diferença dos juros do FGTS’, na qual são apresentadas, didaticamente, as condições necessárias para se beneficiar do direito, finalmente reconhecido pela CEF, depois de perder milhares de ações na Justiça. Quem leu e não se enquadrou, evitou a caminhada, não desperdiçou seu tempo nem suas esperanças.

Até a próxima semana.’

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