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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Paulo Verlaine

09/09/2008 na edição 502

‘Desatina a mente, errando

Por teus cantos e lamentos.

Em vôo eterno a enganando:

Tanto as águas quanto os ventos

Trecho do poema Dentre Centenas de Mastros, do poeta romeno Mihai Eminescu, traduzido por Luciano Maia.

‘Confusão de sons marca carreata de Luizianne’ é o título da matéria de Gabriel Bonfim, (O POVO, 1º/9, página 18, Política), a primeira da cobertura das eleições municipais deste jornal a receber contestação de membros de comitê ou adeptos de candidatura, no caso específico a da prefeita Luizianne Lins.

‘Grande confusão musical’ em ‘percurso quase burocrático’, assim define Bonfim a carreata. Ele faz avaliação própria da aceitação popular ao cortejo: ‘Nas calçadas, a receptividade nem sempre correspondia ao ânimo dos participantes da carreata. Nas ruas também não. Especialmente para aqueles que se acharam, sem querer, presos pelo engarrafamento formado pelos carros que participaram do evento’.

Na segunda-feira, recebo quatro e-mails: dos jornalistas Demétrio Andrade (assessor de imprensa da Coligação Fortaleza Cada Vez Melhor.), Benedito Teixeira, Joana Dutra e do leitor Germano Guerra. Todos são unânimes em criticar a cobertura do jornal.

Perguntas do assessor

Para Demétrio Andrade, a matéria ‘não refletiu a realidade nem seguiu os padrões jornalísticos mínimos’:

‘Cadê o lide? (Explicação da Coluna: lide é a introdução de texto jornalístico, no qual se procura dar o fato, de maneira objetiva e resumida, com o objetivo de responder às indagações: o quê, quem, quando, onde, como e por quê).

E mais: ‘De onde saiu a carreata? Qual o seu trajeto? Onde ela terminou? Havia quantos carros? Qual sua extensão? Quem eram as autoridades presentes? Passou em quantos bairros? Isso é informação. Só a informação, pura e simples, já garantia pra nós uma excelente matéria, sem qualquer juízo de valor pro bem ou pro mal, pois foram cerca de 5 mil carros numa extensão que alcançou 10km’.

Andrade faz outras indagações: ‘O que é um percurso ‘quase burocrático’? Percurso é percurso (que por sinal, como falei antes, não consta na matéria). É também absolutamente subjetivo falar que ‘o ânimo’ das pessoas na calçada nem sempre correspondia ao dos participantes’.

No e-mail encaminhado a Gualter George, editor-executivo do Núcleo de Conjuntura, Andrade pede retificação do jornal : ‘Para quem está numa campanha, é desastroso e revoltante: passa a idéia – que acredito ser errada – de que o repórter dirigiu-se ao local somente para desancar a carreata, sabe-se lá por quais motivos. O fato merece uma retificação do jornal, o que espero que ocorra amanhã, levando em conta o seu bom senso e o seu tino jornalístico’.

Resposta do editor

O jornalista Gualter George responde às indagações de Demétrio Andrade:

‘A resposta à assessoria da candidata Luizianne Lins precisa ser dividida em dois momentos. No primeiro, como resultado de nossas reflexões internas, é necessário admitir que o texto publicado apresenta problemas originários de um erro de procedimento cuja responsabilidade é editorial, do editor tanto quanto do repórter. Portanto, não cabe qualquer tipo de individualização.

A provocação do jornalista Demétrio Andrade, feita ainda na segunda-feira, nos fez discutir internamente o material e admitir que há, sim, infelicidades. É fato que algumas informações deixaram de constar no texto, dentre elas, como advertiu a assessoria, inclusive em diálogos mantidos com a Redação, dimensionar melhor o evento, relatar melhor o percurso, refletir de uma maneira mais justa a realidade geral observada.

Porém, entendemos que não é caso de retificação na linha clássica, como sugerido, porque inexiste um erro objetivo de informação. Nenhuma situação específica foi desvirtuada na notícia, não há algo que tenha acontecido diferente do que se informou.

O segundo momento que propomos, também a partir de manifestação da assessoria de Luizianne Lins, coloca em debate a possível intenção da pauta e do texto. Quanto a isso, não existe o que discutir. A idéia, sutilmente posta, de que o repórter pode ter sido orientado a ir para o evento ‘desancar a carreata, sabe-se lá por quais motivos’, merece de nós, da Conjuntura, a reação mais veemente.

Não agimos de tal forma com a candidata porque não o faríamos com qualquer dos adversários dela. É uma questão de procedimento jornalístico, de decisão editorial e de respeito à história do próprio O POVO’.

Comparações

Esses ‘problemas’, ‘infelicidades’ e ‘erros de procedimento’, para usar as palavras e expressões do próprio Gualter, tornam-se mais evidentes quando comparamos as coberturas feitas a eventos semelhantes de duas outras candidaturas.

No mesmo dia (1º/9) e na mesma página (18, Política), o jornal trouxe matéria com outra carreata do candidato do PPS: ‘Luis Gastão reúne apoiadores em carreata’. O texto, de 32 linhas, dá todo o roteiro do cortejo automobilístico. Em nenhum momento, se faz aferição de receptividade (boa ou má) ao evento. Dessas 32 linhas, 14 e meia são dedicadas a declarações do próprio candidato.

A outra cobertura de carreata ocorreu no último dia 4 de agosto (Página 21, Política). ‘Adahil participa de carreata’ é o título da matéria sobre o evento promovido por Adahil Barreto Cavalcante (PR). São 62 linhas, 45 das quais dedicadas também a declarações do candidato e é mostrado o trajeto. Não há aferição de receptividade do público (negativa ou positiva).

Não conheço Gabriel Bonfim – as referências que tenho sobre ele são boas – e também não acredito que tenha ido para a carreata de Luiziane Lins com o objetivo de ‘desancar’ o evento. Mas faltaram dados essenciais e equilíbrio à matéria em questão.’

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