Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Plínio Bortolotti

29/03/2005 na edição 322

‘Diariamente, faço uma crítica interna, lida e debatida na reunião dos editores. A prerrogativa de tornar algum desses comentários públicos é exclusiva de quem ocupa a função de ombudsman. É uma das formas de demarcar a independência do ombudsman em relação à Redação e à hierarquia do jornal.

No dia 18/3, aproveitando notícia sobre o assunto, fiz uma anotação informal a respeito da dificuldade de a surfista Tita Tavares conseguir patrocínio de empresas para as suas atividades. No dia seguinte, fui surpreendido pela nota ‘Dropes radicais’, na coluna Ação & Aventura (Esportes), assinada pelo jornalista Roberto Pierantoni, tornando público o meu comentário. Pierantoni escreveu: ‘O ombudsman do O Povo, Plínio Bortolotti, questionou ontem (…) porque (sic) a surfista Tita Tavares só tem patrocínio do Governo do Estado’. (Na verdade, eu nem tocava no nome do Governo do Estado. Dizia estar ‘impressionado’ com o fato de Tita, sendo uma atleta de ponta, não ter patrocínio de empresas privadas.) Pierantoni começa, então, a sua ‘resposta’ ao meu ‘questionamento’. Para ele, Tita andou ‘pisando na bola’ com alguns patrocinadores ‘pelo menos no setor específico de surfwear e que isso teria ocorrido por ela ter perdido etapas de algumas competições importantes em ‘longínquos países, o que demanda grandes custos para bancá-la nelas (sic), simplesmente por que (sic) não acordou a tempo para entrar na água na hora marcada. Quer mais?, ficou escrito em sua coluna.

Talvez não fosse uma infração séria – dando-se o benefício da dúvida de que Pierantoni poderia desconhecer a norma proibindo tornar pública a crítica interna do ombudsman – se ele não tivesse utilizado o meu comentário para fazer uma acusação grave e extemporânea à atleta, nestes dias disputando uma competição na Austrália, sem dar-lhe a oportunidade de defesa. Cobrei-lhe internamente uma explicação, e o colunista me manda resposta dizendo que fizera uma ‘crítica construtiva’ à surfista e seu texto queria alertá-la a ‘não repetir os erros do passado, que ela mesma está pagando por eles’ e ainda tinha o objetivo de mudar a ‘mentalidade inerente hoje à grande maioria dos surfistas cearenses, ou seja, o despreparo destes em lidar com o profissionalismo’. Perguntei-lhe quem o havia nomeado conselheiro da atleta para se sentir autorizado a passar-lhe um carão e, ainda, se não achava meio arrogante atribuir-se a missão de mudar a ‘mentalidade’ do surfe no Ceará.

Pierantoni volta a me escrever: ‘Não me coloco como conselheiro, muito pelo contrário. Apenas tenho opinião sobre os fatos e me vejo no direito de expressá-lo em uma coluna assinada por mim’. Até aqui, ainda, tratava-se de uma discussão que, talvez, pudesse ser resolvida internamente. Mas ele completa: ‘Assim que Tita Tavares retornar de sua turnê pela Austrália, ela terá o direito de resposta dentro do próprio espaço, apesar de não achar que seja um direito neste caso, mas uma cordialidade, uma oportunidade de ela mostra a quem interessar, se se tratou de uma acusação ou de um fato claro… O que Pierantoni considera um ‘fato claro’ é a tacha de irresponsável ou ‘dorminhoca’ espetada por ele na surfista. Agora, o assunto ganha uma dimensão mais séria, e isso independe do fato de Tita ter, eventualmente, se atrasado ou não em uma ou outra disputa. Aquilo que é dever ético do jornalista – ouvir o outro lado, dar a oportunidade de defesa a quem é acusado, contextualizar a informação – não pode depender da boa vontade ou da ‘cordialidade’ de quem é dono de uma ‘coluna assinada’. Se não parecesse um conselho, tomaria a liberdade de recomendar ao jornalista a leitura do Guia de Redação do jornal a partir da página 305, lá, ele encontrará a ‘Carta de Princípios do O Povo´, o ‘Código de Ética da Empresa Jornalística O Povo´, o ‘Código de Ética da Associação Nacional dos Jornais’ e o ‘Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros’. Espero, com isso, podermos retomar o debate em outro patamar.

Sic

Sic é um advérbio latino significando, literalmente, assim. É usado internacionalmente, inclusive no jornalismo, para indicar ao leitor que aquilo que ele acabou de ler, por errado ou estranho que pareça, foi escrito pelo autor citado assim mesmo.

O médico e o jornalista

Um dos argumentos levantados no interminável debate a respeito de ser obrigatório ao jornalista cursar uma faculdade específica para trabalhar, alguns daqueles contra a obrigatoriedade do diploma levantam a tese de que a profissão é diferente, por exemplo, da medicina, na qual a imperícia pode colocar em risco a vida dos pacientes. Sem entrar no mérito da discussão sobre a obrigatoriedade do diploma, defendo a seguinte tese: o mau jornalismo pode fazer tanto mal – ou mais – quanto um médico imperito. Há vários casos em que notícias mal apuradas, a pressa em se publicar, a reprodução acrítica da palavra de ‘autoridades’ ou de ‘fontes respeitáveis’, identificadas ou não, destruíram a vida de muita gente.

Na coluna da semana passada, relatei um acontecimento desses, em que um jovem foi morto por um vigilante e outro preso, acusados de ‘bandidos’ e ‘ladrões’ nos jornais, por supostamente tentarem assaltar um posto de gasolina. Graças, também, à cobertura do O Povo, que teve a honestidade e a coragem de retomar o caso após o tropeço inicial, repondo, a cada nova informação publicada os fatos nos seus devidos lugares, o promotor Walter Filho concluiu que não houve tentativa de assalto e pediu a soltura do preso. Para José Roberto Rafael dos Santos não tem mais jeito, ele foi morto aos 16 anos. Só resta preservar-lhe a memória. A José Wilson Xavier, 21 anos, talvez seja possível retomar a sua vida, dependendo do rumo que o caso tomar, depois da conclusão do promotor.

Por ter essa responsabilidade nas mãos, a vida e a honra das pessoas, o jornalista deve ter cuidado com o que escreve.

O tempo feio era bonito

A capa da edição de 19/3 pode ser considerada uma das mais bonitas entre as publicadas nos últimos tempos, com duas fotos (dos repórteres-fotográficos Evilázio Bezerra e Fco. Fontenele) mostrando o tempo chuvoso a partir de perspectivas inusuais. O encanto foi um pouco quebrado pela legenda de uma das fotos, classificando de ‘mau tempo’ aquilo que os cearenses sempre chamaram de ‘bom tempo’ (as chuvas). Um leitor ligou para elogiar a capa, mas deixou o seu protesto: ‘Como vocês têm coragem de chamar um tempo lindo de mau tempo?’

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem