Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Plínio Bortolotti

18/01/2005 na edição 312

‘Durante um ano terei convivência mais estreita com os leitores, exercendo a função de ombudsman por indicação da Presidência do O Povo. De forma diferente e mais aprofundada, será a continuidade do contato que eu já mantinha como responsável pela editoria de Opinião, cargo que exercia anteriormente. Sei o quanto é difícil – porém fecundo – esse diálogo. Os leitores do O Povo têm uma relação com o jornal que vai muito além do simples consumo de informação. Aqui, os leitores não são ‘clientes’, são participativos, íntimos, preocupam-se com o jornal, por isso, é comum o aflorar de emoções neste casamento de tantos anos.

Várias vezes ouvi, em diálogo com leitores: ‘Eu leio O Povo há mais de sessenta anos’; ou: ‘Eu comecei a gostar de ler jornal quando ia com o meu pai comprar O Povo na Praça do Ferreira’. Palavras ditas em tom de suave admoestação quando tentava encerrar rapidamente alguma conversa na correria para fechar a edição.

É para este jornal com 77 anos, fundado por jornalistas e dirigido por jornalistas, com pelo menos seis profissionais ainda na ativa com mais de 40 anos de atuação, que terei de lançar um olhar crítico.

É uma tarefa dura, mas não mais difícil daquela feita pelo jornalista na Redação, preocupado em fazer bem o seu trabalho.

O que me guiará

O Povo incorporou a seus preceitos vários documentos que lhe servem de norte: uma Carta de Princípios e um Código de Ética próprios, além do Código de Ética da Associação Nacional dos Jornais, do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, a Declaração de Chaputelpec, e também a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tais declarações estabelecem a ética, a defesa do interesse público, dos direitos humanos e da liberdade de expressão, como fundamentais para a atividade dos meios de comunicação. São documentos públicos, registrados no Guia de Redação e Estilo do O Povo, que procurarei ter sempre em mente durante o meu trabalho.

O que é ombudsman?

Ombudsman é uma palavra de origem sueca, com tradução aproximada de ‘aquele que tem uma delegação’ ou ‘aquele que representa’. Também recebeu versões como ‘ouvidor’ ou ainda de ‘advogado do leitor’, no caso da atuação em jornal. Na minha opinião nenhuma dessas definições abrange os papéis desempenhados na tarefa. O jornal The New York Times nomeia o seu crítico como ‘editor público’, que talvez se aproxime mais do conjunto das tarefas executadas. No Brasil, a palavra ombudsman vem se consolidando, portanto acho melhor continuar com ela. (Na língua sueca, o plural seria invariável, eu usarei um ‘s’ final para formá-lo, numa tentativa de aportuguesar a palavra; outros usam o plural como ‘ombudsmen’, como se fosse uma palavra inglesa.)

Como surgiu?

‘O ombudsman surge na Suécia, em 1713 (…) Ele tinha o status de ministro e era nomeado pelo governo com a função de ouvir as queixas que os cidadãos tinham contra o poder público. Se alguém era mal atendido em uma repartição pública, se tinha problemas com a burocracia, se tinha conhecimento de irregularidades no serviço público, era o ombudsman quem ele deveria procurar’, anota o jornalista Jairo Faria Mendes em sua tese de mestrado ‘O ombudsman e o público’.

Quais as demandas?

Pelo que venho observando, há uma demanda do leitor por um texto bem escrito, preciso, claro, substantivo – e sem erros gramaticais. E isso leitor está coberto de razão ao exigir isso do jornal. Mas há outro debate mais complexo sobre o fazer jornalístico, a forma como jornalista trabalha, como e por que seleciona tal ou qual notícia, por que escolhe determinada angulação. Essa operação talvez não venha estampada tão claramente no jornal, o que torna o consenso mais difícil.

Por que explicar?

Dou essas explicações, pois me sinto na obrigação de deixar claro que o ombudsman não tem de concordar sempre com a opinião do leitor. O que o leitor pode esperar – e exigir – de mim é o máximo de respeito com suas críticas, a avaliação e resposta a todas as suas críticas e comentários. Também não acho que se deva supor que o ombudsman tenha sempre razão. Eu já escrevi um texto bastante crítico sobre a função com o título de ‘Ombudsmans – Os eleitos. Ou como eles se vêem’ (2002), que pode ser lido no site do Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd150520022p.htm)

Sou professor

Quero deixar claro aos leitores que sou professor de jornalismo (nas Faculdades Nordeste – Fanor), única atividade permitida fora do jornal para quem tem mandato de ombudsman, como estabelece o item 12 do Regimento do Cargo: ‘A função de ombudsman exige exclusividade, não sendo admitido o exercício de quaisquer outras atividades profissionais no decorrer do mandato, com exceção do magistério.’

Ampliação

Durante o meu mandato tenho como um dos objetivos ampliar o debate sobre a função do ombudsman. Por isso, ficarei disponível para conversas em programas de rádio, TV, em escolas, universidades, empresas e instituições públicas para debater o assunto.

Começo pedindo paciência

Fui convidado para a função durante minhas férias, para as quais já tinha agendado compromissos. Acertei com a direção da Redação que neste período escreveria as duas colunas públicas (a de hoje e do próximo domingo). Retorno no dia 24 (segunda-feira). Na próxima coluna, anotarei o horário de atendimento aos leitores.

Guálter

Por último, mas não menos importante, agradeço as palavras elogiosas a mim dirigidas pelo meu antecessor, Guálter George, em sua coluna de domingo. Agradeço também à generosidade dos demais colegas pelo incentivo que deles recebi. Espero estar à altura das expectativas.’

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