Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > O POVO

Plínio Bortolotti

11/10/2005 na edição 350

‘Pesquisas sempre rendem manchetes, principalmente nas edições de fim de semana, quando os jornalistas fazem o chamado ‘pescoção’, isto é, o prolongamento da jornada de trabalho adentro à madrugada de sábado para concluir antecipadamente a edição de domingo. Foi assim na edição de 2 de outubro com a manchete de primeira página sobre o resultado de uma pesquisa, encomendada pelo O Povo ao instituto UltraData, sobre administração municipal de Fortaleza. Se as pesquisas são garantia de manchete, também o são de polêmica. Apesar de o senso comum achar que ‘não se discute com os números’, eles (principalmente em pesquisas) prestam-se às mais diversas interpretações. (Há inclusive quem diga que, torturados, os números dizem qualquer coisa.)

Nesse caso, os problemas começaram na capa do jornal. A primeira das três chamadas (resumo da notícia) sob a manchete ‘Fortalezense desaprova serviços municipais’ parecia contrariar o seu enunciado: ‘33,7% da população aprova a administração da prefeita petista Luizianne Lins, enquanto 22,8% reprovam. Outros 38% a consideram apenas regular’. A segunda chamada justificava a manchete: ‘4,19 é a nota dada pelo fortalezense para os postos de saúde e 4,20 para as escolas municipais. Apenas dois serviços receberam nota acima de seis’. O terceiro destaque reforçava este último.

Ou seja, na manchete, considerou-se mais importante salientar as supostas notas baixas de cada serviço pesquisado – coleta de lixo (6,67), iluminação pública (6,07), limpeza pública (5,28), qualidade das vias públicas (5,17), combate à poluição sonora (4,69), escolas públicas municipais (4,28) e postos de saúde (4,19) – aos percentuais atribuídos à administração de maneira geral, os seguintes: bom/ótimo: 33,7%; regular: 38%; ruim/péssimo: 22,8%; não sabe/não quis opinar: 5,6%. Também foi avaliado o desempenho pessoal da prefeita, com estes números: ótimo/bom: 36,1%; regular: 36,8%; ruim/péssimo: 18,4% e não sabe/não quis opinar: 8,7%. A pesquisa foi realizada entre os dias 23 a 27 de setembro.

Questionamentos

Em comentário interno à edição do dia, questionei o fato de se optar por dar destaque às notas negativas aos serviços pesquisados, em detrimento da avaliação geral da administração e da prefeita, por dois motivos principais: A) A editoria de Política tomou a nota seis para considerar ‘aprovado’ determinado serviço. Segundo as explicações na matéria da pág. 23, o parâmetro foi escolhido por ser essa a média exigida para a aprovação de um estudante nas escolas municipais. Argumentei ser impreciso o uso da nota seis para considerar determinado serviço aprovado, pois a pesquisa não levou em conta essa variável ao elaborar as perguntas. Considerando-se que zero é a pior nota e 10 a melhor, a nota cinco é a que está exatamente no meio entre os dois extremos. Dos sete serviços pesquisados, quatro ficaram acima e três abaixo da nota cinco, sendo a média 5,21. B) Entre os três serviços que tiveram nota abaixo de cinco, um deles foi avaliado em pleno período da greve dos professores da rede municipal, o que, certamente, influiu na avaliação negativa.

Para o editor-executivo do Núcleo de Conjuntura, Erick Guimarães, optar por destacar um ou outro aspecto de alguma pesquisa ‘depende da situação’. O editor diz: ‘Nesse caso, tínhamos uma pesquisa realizada alguns meses antes sobre a qualidade dos serviços públicos. Havia, portanto, um parâmetro claro, coisa que faltava em relação à administração (em conjunto). Segundo Erick, ‘a estagnação do quadro administrativo (comparando-se as pesquisas dos dois períodos, que se equivalem) é mais relevante que o número simples de aprovação ou desaprovação da prefeita’.

Viés

Também critiquei o viés opinativo dos textos, a partir dos títulos: ‘Em busca de uma marca’ (pág. 21); ‘Após 9 meses, pouco a comemorar’ (pág. 22). O uso da expressão ‘apenas regular’ para adjetivar os 38% dos pesquisados que assim consideram a administração, para se chegar a este remate: ‘Nem de longe a prefeita obtém índices que correspondem à expectativa criada no início da gestão’, entre outras.

Sobre isso, fala o repórter Érico Firmo, autor dos textos: ‘O que o ombudsman chama de ‘viés opinativo’ eu chamo de ler o resultado dos números. Observados isoladamente, os números se mostram difusos, com diferenças entre conceitos dentro da margem de erro. Portanto, nada dizem. Eles só passam a ter significação dentro de um contexto em que a prefeita foi eleita com mais de 620 mil votos e, já no primeiro ano de gestão, é avaliada como regular pela maior parte da população’. (Observe-se não haver consenso entre os especialistas se o ‘regular’ deve ser somado ao ‘ótimo/bom’ ou ao ‘ruim/péssimo’. No entanto, se não se o considera o regular positivo, parece pouco razoável entendê-lo como negativo.)

Quanto a ‘ler os números’, penso existir diferença entre interpretação – que pressupõe contextualização, memória, dados complementares, esforço de reportagem – e opinião. Esta deve ficar circunscrita aos artigos e ‘pontos de vista’. A pesquisa não avaliou a ‘expectativa’ da população; mas fez perguntas específicas sobre a administração e os serviços públicos. É perfeitamente possível, por exemplo, avaliar um serviço como ruim ou regular, mantendo-se a ‘expectativa’ de que ele irá melhorar. Eu tendo a achar que os fatos falam por si, não sendo necessário extrair uma ‘confissão’ deles.

Em vários comentários internos no início deste ano observei que várias notícias relativas à Prefeitura – talvez pelo efeito ‘lua de mel’ do qual todo governante parece desfrutar no início da gestão – pareciam releases (notas oficiais): destaques eram dados a promessas e a ações propagandistas. Desta vez parece que se pesou a mão em sentido inverso. De um jeito é ruim, do outro também: o melhor manter é a cobertura crítica, calcada na objetividade, de forma contínua e consistente.’

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VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Plínio Bortolotti

11/10/2005 na edição 350

‘Pesquisas sempre rendem manchetes, principalmente nas edições de fim de semana, quando os jornalistas fazem o chamado ‘pescoção’, isto é, o prolongamento da jornada de trabalho adentro à madrugada de sábado para concluir antecipadamente a edição de domingo. Foi assim na edição de 2 de outubro com a manchete de primeira página sobre o resultado de uma pesquisa, encomendada pelo O Povo ao instituto UltraData, sobre administração municipal de Fortaleza. Se as pesquisas são garantia de manchete, também o são de polêmica. Apesar de o senso comum achar que ‘não se discute com os números’, eles (principalmente em pesquisas) prestam-se às mais diversas interpretações. (Há inclusive quem diga que, torturados, os números dizem qualquer coisa.)

Nesse caso, os problemas começaram na capa do jornal. A primeira das três chamadas (resumo da notícia) sob a manchete ‘Fortalezense desaprova serviços municipais’ parecia contrariar o seu enunciado: ‘33,7% da população aprova a administração da prefeita petista Luizianne Lins, enquanto 22,8% reprovam. Outros 38% a consideram apenas regular’. A segunda chamada justificava a manchete: ‘4,19 é a nota dada pelo fortalezense para os postos de saúde e 4,20 para as escolas municipais. Apenas dois serviços receberam nota acima de seis’. O terceiro destaque reforçava este último.

Ou seja, na manchete, considerou-se mais importante salientar as supostas notas baixas de cada serviço pesquisado – coleta de lixo (6,67), iluminação pública (6,07), limpeza pública (5,28), qualidade das vias públicas (5,17), combate à poluição sonora (4,69), escolas públicas municipais (4,28) e postos de saúde (4,19) – aos percentuais atribuídos à administração de maneira geral, os seguintes: bom/ótimo: 33,7%; regular: 38%; ruim/péssimo: 22,8%; não sabe/não quis opinar: 5,6%. Também foi avaliado o desempenho pessoal da prefeita, com estes números: ótimo/bom: 36,1%; regular: 36,8%; ruim/péssimo: 18,4% e não sabe/não quis opinar: 8,7%. A pesquisa foi realizada entre os dias 23 a 27 de setembro.

Questionamentos

Em comentário interno à edição do dia, questionei o fato de se optar por dar destaque às notas negativas aos serviços pesquisados, em detrimento da avaliação geral da administração e da prefeita, por dois motivos principais: A) A editoria de Política tomou a nota seis para considerar ‘aprovado’ determinado serviço. Segundo as explicações na matéria da pág. 23, o parâmetro foi escolhido por ser essa a média exigida para a aprovação de um estudante nas escolas municipais. Argumentei ser impreciso o uso da nota seis para considerar determinado serviço aprovado, pois a pesquisa não levou em conta essa variável ao elaborar as perguntas. Considerando-se que zero é a pior nota e 10 a melhor, a nota cinco é a que está exatamente no meio entre os dois extremos. Dos sete serviços pesquisados, quatro ficaram acima e três abaixo da nota cinco, sendo a média 5,21. B) Entre os três serviços que tiveram nota abaixo de cinco, um deles foi avaliado em pleno período da greve dos professores da rede municipal, o que, certamente, influiu na avaliação negativa.

Para o editor-executivo do Núcleo de Conjuntura, Erick Guimarães, optar por destacar um ou outro aspecto de alguma pesquisa ‘depende da situação’. O editor diz: ‘Nesse caso, tínhamos uma pesquisa realizada alguns meses antes sobre a qualidade dos serviços públicos. Havia, portanto, um parâmetro claro, coisa que faltava em relação à administração (em conjunto). Segundo Erick, ‘a estagnação do quadro administrativo (comparando-se as pesquisas dos dois períodos, que se equivalem) é mais relevante que o número simples de aprovação ou desaprovação da prefeita’.

Viés

Também critiquei o viés opinativo dos textos, a partir dos títulos: ‘Em busca de uma marca’ (pág. 21); ‘Após 9 meses, pouco a comemorar’ (pág. 22). O uso da expressão ‘apenas regular’ para adjetivar os 38% dos pesquisados que assim consideram a administração, para se chegar a este remate: ‘Nem de longe a prefeita obtém índices que correspondem à expectativa criada no início da gestão’, entre outras.

Sobre isso, fala o repórter Érico Firmo, autor dos textos: ‘O que o ombudsman chama de ‘viés opinativo’ eu chamo de ler o resultado dos números. Observados isoladamente, os números se mostram difusos, com diferenças entre conceitos dentro da margem de erro. Portanto, nada dizem. Eles só passam a ter significação dentro de um contexto em que a prefeita foi eleita com mais de 620 mil votos e, já no primeiro ano de gestão, é avaliada como regular pela maior parte da população’. (Observe-se não haver consenso entre os especialistas se o ‘regular’ deve ser somado ao ‘ótimo/bom’ ou ao ‘ruim/péssimo’. No entanto, se não se o considera o regular positivo, parece pouco razoável entendê-lo como negativo.)

Quanto a ‘ler os números’, penso existir diferença entre interpretação – que pressupõe contextualização, memória, dados complementares, esforço de reportagem – e opinião. Esta deve ficar circunscrita aos artigos e ‘pontos de vista’. A pesquisa não avaliou a ‘expectativa’ da população; mas fez perguntas específicas sobre a administração e os serviços públicos. É perfeitamente possível, por exemplo, avaliar um serviço como ruim ou regular, mantendo-se a ‘expectativa’ de que ele irá melhorar. Eu tendo a achar que os fatos falam por si, não sendo necessário extrair uma ‘confissão’ deles.

Em vários comentários internos no início deste ano observei que várias notícias relativas à Prefeitura – talvez pelo efeito ‘lua de mel’ do qual todo governante parece desfrutar no início da gestão – pareciam releases (notas oficiais): destaques eram dados a promessas e a ações propagandistas. Desta vez parece que se pesou a mão em sentido inverso. De um jeito é ruim, do outro também: o melhor manter é a cobertura crítica, calcada na objetividade, de forma contínua e consistente.’

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