Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > O POVO

Plínio Bortolotti

23/02/2007 na edição 421

Na primeira reunião deste ano do Conselho Consultivo dos Leitores do O Povo, um dos temas abordados foi o descompasso entre alguns títulos e o texto da notícia. Em maior ou menor grau, isso acontece em todos os jornais, às vezes conscientemente; de outras inconscientemente, ou ainda porque o editor está convencido que o título está fundamentado no texto, quando, sob análise, verifica-se que base do edifício não é sólida o suficiente para sustentar o seu telhado.


Um dos casos lembrado pelos conselheiros foi o título ‘Bolsa-Família é usado para comprar drogas’, na edição de 18/1. No texto, podia-se ler que um consumidor de drogas, impossibilitado de pagar a dívida com o traficante, fora obrigado a entregar-lhe o cartão da Bolsa-Família, programa do governo para ajudar famílias de baixa renda. Ainda que não deixe de ser verdade – segundo a notícia – que um beneficiário do programa tivesse usado o cartão para pagar dívida com um traficante, trata-se de um caso entre milhões. O título induzia claramente a supor que o projeto do governo estivesse sendo usado em larga escala para o fim anunciando, quando não, pior, que os próprios gestores do programa poderiam estar envolvidos. Faltou clareza e senso de proporção a quem titulou a notícia, duas coisas essenciais ao bom jornalismo.


Império


Na edição de sábado (10/2) a manchete de capa anunciava ‘O poder das torcidas organizadas’, seguida do texto de chamada: ‘As torcidas organizadas Cearamor e TUF construíram nos últimos anos um verdadeiro império. Proprietárias de sedes luxuosas, subsedes, lojas e academias espalhadas pela cidade, elas impressionam até mesmo (os clubes) Ceará e Fortaleza’. Na página interna o título era ainda mais forte ‘O império das organizadas’, anotando-se no primeiro parágrafo: ‘Com subsedes, academia e lojas espalhadas por vários bairros, inclusive em shoppings, elas (as torcidas organizadas) são hoje donas de verdadeiro império, com quadro de funcionários digno de empresas de pequeno porte (sic)’.


Objetivamente, o texto informa o seguinte. Sobre a Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), do Fortaleza Esporte Clube: a) tem 10 mil associados; b) emprega 70 pessoas; c) tem seis lojas, seis subsedes, sede social e uma academia. Em relação à torcida do Ceará Sporting Club, a Cearamor: a) tem três mil filiados; b) emprega ‘cerca’ de 30 pessoas; c) ‘não possui tantas lojas como a TUF’, mas é ‘dona de maior número de subsedes (…) são oito, que funcionam como pequenas lojinhas (sic)’. A Falange Coral, do Ferroviário Atlético Clube (o terceiro time mais importante do estado), com 700 filiados, é citada apenas no quadro ‘Patrimônio das torcidas’, que, aliás, não dá nenhuma informação sobre o patrimônio das organizadas.


No comentário interno à edição do dia, escrevi haver contradição insanável na comparação de um ‘império’ a uma ‘empresa de pequeno porte’. Também não havia dados sobre arrecadação, movimentação de recursos e sobre o patrimônio (as sedes são próprias ou alugadas?) para sustentar a assertiva do título. Por isso, foi preciso adjetivar o texto, na tentativa de convencer o leitor de uma tese sem bases substantivas.


Prova


Questionado, o repórter Rafael Luis, autor do texto, respondeu o seguinte: ‘Discordo que o termo `pequena empresa´ seja uma contradição para a afirmação que as torcidas organizadas Cearamor e TUF formaram um império no futebol cearense. Uma empresa com até 99 funcionários, segundo o termo legal, é considerada uma pequena empresa. Uma uniformizada que possui 70 funcionários, como a TUF, não pode se comparar a uma empresa de grande porte, mas, no âmbito das torcidas organizadas, representa sim um verdadeiro império’.


Tirante o fato de que a definição legal de pequena empresa nada ter a ver com a polêmica, a resposta do Rafael deixa a coisa ainda um pouco pior, ao afirmar que ‘no âmbito das torcidas organizadas’, a TUF representa um ‘verdadeiro império’, pois se esquece de ter assim também classificado a Cearamor, sem falar na Falange Coral, que ganhou mesma qualificação, por tabela, ao entrar no quadro complementar ao texto. Além do mais, ao abandonar a analogia empresarial para fazer o cotejamento ‘no âmbito das organizadas’, com quais torcidas, de quais estados ou países é (ou seria) feita a comparação? Ainda que confirmasse o título, não há uma única linha na matéria tocando nesse argumento.


Se, de fato, as torcidas organizadas cearenses têm parecença com um ‘império’, a matéria passa longe de conseguir prová-lo.


Erramos


Venho insistindo vigorosamente para que a Redação dê ao ‘Erramos’ a importância merecida. Um sinal de respeito ao leitor, a que poucos jornais se dispõem, a seção está virando um repositório de textos confusos, correções incompletas e atrasadas; de erros duplicados ou agravados.


Dois exemplos recentes: a) na edição de 12/2, notícia dava conta de acidente grave, envolvendo uma motocicleta, em local classificado como ‘perigoso’. O problema é que não se informava em que rua ou avenida o acidente acontecera. Depois do alerta do ombudsman, anotou-se no ‘Erramos’, edição de 14/2: ‘O acidente que foi objeto da matéria `Motoqueiro se choca contra caminhão´ ocorreu na avenida Aguanambi’. Lembrei à editoria Fortaleza que a avenida tem cerca de seis quilômetros e perguntei: como leitor vai adivinhar em que ponto foi? Não se fez novo esclarecimento, subtraindo-se dos leitores a oportunidade de se prevenirem de possíveis acidentes naquele ‘perigoso’ lugar.


Na edição de 11/2, citou-se, em notícia na pág. 8, a ‘Universidade de Colômbia (sic)’, que ficaria na Alemanha. No mesmo texto, deu-se a cidade de Belgrado como a ‘capital da Iugoslávia’. Um leitor alertou que o correto era ‘Universidade de Colônia’ (cidade alemã) e que Belgrado era a capital da Sérvia, sendo a Iugoslávia um país extinto. A correção publicada na edição de 15/2 foi o seguinte: ‘O correto na matéria `Núcleo inova estudo do direito para alunos´ (é) Universidade de Colônia’. Além do texto pouco explicativo, do verbo faltante (que pus entre parênteses), tornando a frase absolutamente confusa, corrigiu-se o erro pela metade.


Agir de maneira desleixada em relação ao ‘Erramos’, tornou-se, infelizmente, bastante comum.

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